Dia da Língua Chinesa. Professora de chinês a viver há três décadas em Lisboa e fluente em português, Wang Suoying fala da história, das características e da expansão do mandarim, um idioma amanhã celebrado a nível global.
De que idioma falamos ao celebrar nesta quarta-feira o Dia da Língua Chinesa? O que no Ocidente chamamos de mandarim?
Para responder convém explicar primeiro a relação entre a escrita, os dialetos e o mandarim. A escrita chinesa é só uma, podendo alguns carateres terem formas variantes, nomeadamente a forma tradicional, com traços complicados, e a forma moderna, com eles simplificados. Sendo um país vasto, os povos de localidades diferentes pronunciam de maneiras diferentes os carateres, originando dialetos, mas a diferença entre dialetos verifica-se sobretudo na fonética. Se dois chineses falam apenas o seu dialeto, correm o risco de não se entender, exceto através da escrita. Em 1987 fui trabalhar para Macau e descobri que não conseguia comunicar com os chineses locais porque eles não falavam mandarim nem eu percebia cantonense, motivo pelo qual, quando queria pedir informação na rua, tinha que me dirigir a um português ou macaense em português. Para resolver a comunicação entre chineses nativos de dialetos diferentes surgiu o mandarim, baseado no dialeto da capital. Hoje em dia, o mandarim, ou putonghua, em chinês, é a língua de ensino desde o infantário, sendo definido como língua corrente da China. Por isso o Dia da Língua Chinesa refere-se à escrita chinesa com a pronúncia de mandarim. Explico ainda que o dia 20 de abril representa Guyu, um dos 24 períodos solares tradicionais chineses. De acordo com um mito chinês, há milhares de anos neste dia caiu do céu uma chuva excecional de imensos grãos de arroz após Cang Jie ter criado os ideogramas, pelo que o dia recebeu o nome de Guyu, isto é, “Chuva dos Grãos”. Esse mito encontra-se no meu livro e da Ana Cristina Alves Mitos e Lendas da Terra do Dragão.
A palavra “mandarim” não é uma designação usada pelos portugueses quando, no século XVI, entraram em contacto com a China?
Alguns académicos chineses discordavam dizendo que a designação provinha da expressão “mandaren”, tratamento a mandarins da dinastia Qing, fundada pelos manchus. Mas pesquisas recentes revelam que a palavra existia já na dinastia Ming, sendo divulgada pelos portugueses, que, por sua vez, tinham combinado a palavra portuguesa “mandar” e a malaia “menteri”, no sentido de “ministro”. Os portugueses levaram esta expressão malaia para a China, referindo tanto ministros chineses como a língua falada por eles. Na própria língua chinesa, a palavra conheceu alterações: guanhua, “língua dos mandarins”, que viviam sobretudo na capital durante as dinastias; guoyu, “língua nacional” desde a República; putonghua, “língua comum” a partir da fundação da Nova China.
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