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Rússia concentra tropas na Ucrânia e ameaça cortar gás da UE

Danny Kemp

A Rússia reagrupa suas tropas na Ucrânia para lançar novos ataques, afirmou a NATO esta quinta-feira, no momento em que Moscovo abre uma nova frente, ameaçando cortar o fornecimento de gás à União Europeia (UE) se não receber o pagamento em rublos

Rússia ameaça cortar gás à UE. “As unidades russas não estão se retirando, mas se reposicionando”, assegurou o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg.

Segundo o chefe da Aliança Transatlântica, o presidente russo, Vladimir Putin, pretende “reforçar sua ofensiva em Donbass”, a região do leste da Ucrânia já controlada pelos separatistas pró-russos, “mantendo a pressão sobre Kiev e outras cidades”.

Haverá “mais ataques, com mais sofrimento”, acrescentou.

O general ucraniano Pavlo “Maestro” considerou igualmente que as tropas russas “estão se reagrupando para atacar e enviar um máximo de forças” ao sul e leste do pais, em declarações à AFP em Karkhiv.

A agência nuclear da Ucrânia, Energoatom, informou que as tropas russas, que tomaram em 24 de fevereiro a Central Nuclear de Chernobyl, cenário em 1986 da pior catástrofe nuclear civil da História, haviam se retirado do local.

O presidente americano, Joe Biden, disse estar “um pouco cético” sobre a intenção anunciada esta semana pela Rússia de se retirar de certas zonas da Ucrânia para concentrar seus esforços no leste. Segundo um funcionário do alto escalão da Defesa americana, mesmo se isso ocorresse, poderia abrir as portas para um “conflito mais longo e prolongado, dado que os ucranianos conhecem muito bem o território e têm muitas forças ali”.

Pagar o gás em rublos

Putin anunciou esta quinta-feira que os países “hostis”, incluindo os da UE, deverão prestar contas em rublos e que “os pagamentos do gás que será entregue desde amanhã, 1º de abril, serão feitos destas contas”.

O chanceler alemão, Olaf Scholz, afirmou que os membros da UE vão continuar pagando pelo gás russo em euros e dólares, porque é o que “está escrito nos contratos”.

O ministro francês da Economia, Bruno Le Maire, disse que Alemanha e França se preparam para um eventual corte nas importações de gás russo, após se reunir em Berlim com o colega alemão, Robert Habeck.

A Rússia proibiu, ainda, a entrada no seu território dos “máximos dirigentes” da UE e da maioria dos eurodeputados, em represália às sanções que enfrenta pela invasão da Ucrânia.

Horas depois do anúncio, a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, disse no Twitter estar “a caminho de Kiev”, o que a tornaria a primeira autoridade de uma entidade comunitária a viajar à capital ucraniana desde o início da guerra.

Os Estados Unidos, por sua vez, anunciaram novas sanções contra a Rússia, apontando desta vez ao setor tecnológico, incluindo o maior fabricante russo de semicondutores.

Crise humanitária maciça

Desde o início da invasão russa, em 24 de fevereiro, 4 milhões de ucranianos fugiram do país e 6,5 milhões se tornaram deslocados internos segundo a ONU. “Enfrentamos as realidades de uma crise humanitária maciça, que cresce a cada segundo”, alertou o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (Acnur).

Autoridades ucranianas tentam organizar a evacuação em Mariupol (sudeste), onde 160.000 civis permanecem bloqueados e submetidos desde o fim de fevereiro ao assédio e aos bombardeios do Exército russo. O governo da Ucrânia anunciou o envio de 45 ônibus para tentar realizar essa operação por corredores humanitários.

As pessoas que conseguiram sair de Mariupol e as ONGs descreveram condições de vida catastróficas, com civis entrincheirados em porões, privados de água, comida e comunicações, e corpos espalhados nas ruas.

O chefe da diplomacia turca, Mevlüt Cavusoglu, anunciou discussões sobre um possível encontro entre os ministros das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, e ucraniano, Dmitro Kuleba, “em uma ou duas semanas”. A Turquia poderia receber esta reunião.

O negociador-em-chefe da Ucrânia, David Arakhamia, disse na quarta-feira que os diálogos on-line com a delegação russa seriam retomados na sexta.

Popularidade de Putin em alta

Na Rússia, a popularidade de Putin subiu 12 pontos em relação a fevereiro, com 83% de opiniões favoráveis, segundo uma pesquisa do instituto independente russo Levada, o primeiro desde o início da ofensiva na Ucrânia.

Biden disse que Putin poderia “estar isolado” e ter ordenado “a prisão domiciliar” de alguns assessores, embora tenha reconhecido não ter provas irrefutáveis disso.

O porta-voz presidencial russo, Dmitry Peskov, considerou ontem preocupante o escasso conhecimento da Rússia pelos dirigentes americanos. Nos Estados Unidos, “não entendem o presidente Putin, não entendem o mecanismo da tomada de decisões, não entendem o nosso trabalho”, declarou. 

Repercussões económicas

A guerra entre dois grandes produtores de matérias-primas e as sanções internacionais puseram os mercados sob tensão, com uma inflação cada vez mais pronunciada nos países industriais, de 6,4% interanual nos Estados Unidos e de 4,5% na França, segundo dados divulgados nesta quinta.

Biden anunciou a liberação de 1 milhão de barris por dia das reservas estratégicas de petróleo dos Estados Unidos por seis meses, para aliviar a carga econômica dos lares.

Segundo projeções do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (Berd), a economia da Rússia cairá 10% este ano e a da Ucrânia, 20%.

A Ucrânia colheu um recorde de 106 milhões de toneladas de cereais no ano passado, mas este ano o número será “de 25% a 50% menor, em uma previsão otimista”, disse à AFP em Kiev o ministro da Agricultura da Ucrânia, Mykola Solsky.

O impacto da guerra “também tem o potencial de gerar uma grande crise na América Latina”, indicou o presidente da Costa Rica, Carlos Alvarado, em declarações à AFP em Paris. Caso se opte por subsidiar os combustíveis, por exemplo, isso poderia aumentar a pressão sobre a dívida pública em países da região, o que poderia “também aproximá-los de uma crise”, explicou.

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