Depois do tufão, quando iremos voltar a ver a sombra das árvores?

Depois do tufão, quando iremos voltar a ver a sombra das árvores?

Muitas árvores foram derrubadas quando o tufão Higos atingiu Macau recentemente. Depois do tufão Hato em 2017 e do tufão Mangkhut em 2018, o nível de sombra na cidade já não é o mesmo. Tomemos as árvores nos passeios como exemplo. De acordo com dados oficiais da Direção dos Serviços de Estatística e Censos, em 2016 havia um total de 10087 árvores nos passeios da Ilha de Macau (9366 nas restantes ilhas), e em 2019 apenas 8737 (9173 nas restantes ilhas). 

Quando Higos chegou a Macau, o Instituto para os Assuntos Municipais (IAM) anunciou um programa de replantação de árvores. Vários grupos ambientais sugeriram ainda que se supervisionasse o ambiente de plantação das árvores e se acompanhasse o seu crescimento, para garantir que é saudável. Alguns sugeriram a criação de um programa de vigilância pública, em que os próprios residentes ajudam a monitorizar o estado das árvores e promovem a proteção ambiental. 

Replantar árvores: mais que números

O IAM revelou que o Higos destruiu 4656 árvores, entre estas 1575 foram endireitadas e 2290 podadas. Para além de reabilitar as árvores afetadas, o programa inclui ainda a plantação de mais de 1000 árvores em parques. Entre os meses de setembro e dezembro foram plantadas 1240 arvores ao longo da avenida Dr. Sun Yatsen, da Estrada Pac On, da Estrada Almirante Marques Esparteiro, da Avenida Norte do Hipódromo e da Avenida Doutor Stanley Ho. 

Após cada tufão, muitas árvores foram derrubadas ou perderam ramos devido ao vento. O tufão Hato era especialmente perigoso na sua chegada a Macau. Joe Chan, vice-presidente da Green Future, afirma que com as crescentes alterações climáticas e subida do nível do mar, os tufões podem ser cada vez mais poderosos, e as árvores correm um maior risco de ser derrubadas. O vice-presidente salienta que o efeito da plantação de árvores não pode apenas ser avaliado pelo seu número, pois o valor ecológico de uma árvore adulta é superior ao de uma recém-plantada. Se forem demasiado pequenas ou plantadas sem qualquer proteção, irão facilmente acabar destruídas quando um novo tufão as atingir. “Os resultados são discutíveis. É trabalho em vão, visto que no próximo ano terão de ser plantadas de novo”, acrescentou.

Samson Chio, administrador de projetos do Centro de Recursos e Eco-Educação de Hong Kong, que tem seguido a situação em Macau, acredita que durante a replantação das árvores se deve selecionar as espécies corretas tendo em conta o local escolhido. Locais como passeios, zonas rurais e beira mar possuem condições extremamente diferentes. “Acho que é melhor avaliar melhor a situação, e não simplesmente começar a plantar árvores porque fica bonito”, afirma. O mesmo salienta que muitos dos espaços onde estas árvores são plantadas são demasiado pequenos, e o seu solo demasiado duro para que as raízes possam crescer devidamente: “Por isso muitas vezes vemos árvores com as raízes de fora. É comum plantar 

árvores nas cidades, mas apenas se possuírem espaço suficiente e o solo correto é que estas poderão aguentar um tufão.”

Tanto Joe Chan como Samson Chio mencionam que podar árvores antes dos tufões poderá ajudar a reduzir o seu risco de queda, mas não é algo saudável para a própria árvore e não ajuda a restituir o seu papel ecológico. Samson Chio salienta que se uma árvore for podada aleatoriamente, tal apenas irá reduzir a sua capacidade de resistência ao vento, assim como contribuir para a probabilidade de que os próximos ramos não cresçam corretamente. “A árvore pode continuar a crescer e parecer bonita, mas quando estes ramos crescerem não vão ser resistentes ao vento e irão partir facilmente.”

Supervisão pelos cidadãos. Inspeção reforçada

No ano passado a Universidade de Educação de Hong Kong lançou o Programa Comunitário de Educação e Ciência para a Proteção e Conservação de Árvores, que inclui o desenvolvimento de aplicações móveis e materiais de ensino para ajudar residentes e estudantes a aprenderem a avaliar o estado das árvores, assim como uma plataforma onde podem partilhar as suas avaliações e fotografias. Samson Chio acredita que estes programas podem ajudar a espalhar algum conhecimento: “O público terá a oportunidade de avaliar qualquer possível problema com uma árvore durante a sua viagem para o trabalho. Se depois estas situações forem devidamente reportadas e notificadas, melhor ainda.”

Em março deste ano, o Comissariado de Auditoria publicou o documento “Efeitos dos relatórios de auditoria nos últimos anos-Atividade do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais no âmbito dos espaços e zonas verdes”. Neste documento é mencionado que o IAM iniciou o desenvolvimento de um programa de gestão florestal em 2003, porém, as auditorias em 2010 e 2019 revelam que o objetivo original não foi atingido. Em relação aos mecanismos de inspeção utilizados, a auditoria de 2010 revelou uma falta de treino profissional para os responsáveis pelas árvores e avaliação correta para prevenção da queda de árvores doentes. A segunda avaliação, em 2019, mostrou ainda a existência de problemas no sistema regulador e implementação de um mecanismo de inspeção. 

Joe Chan acredita que precisam de existir mais inspeções de rotina em Macau, pois só assim se pode garantir que as árvores estão saudáveis e conseguem sobreviver a um possível tufão. O mesmo salienta que se não existirem profissionais locais suficientes nesta área, terão de depender de peritos de regiões como Guangdong, todavia estes poderão não ter tempo suficiente para visitar Macau regularmente. “A equipa de Macau deve ser autossuficiente, mas ainda é preciso construir uma base nesse sentido. Terá de ser o governo a criar tal base, ou bastará plantar arvores à sorte, como se fossem flores?”

Sugere ainda que no futuro se considere avaliar o estado atual das árvores vivas e a sua capacidade de sobrevivência, criando um registo que possibilite verificar a eficácia da avaliação. Por fim, para além de plantações de árvores anuais, menciona a possibilidade de se desenvolver estudos sobre o efeito das mesmas na biodiversidade e solo locais. 

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