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Líderes do futuro

Têm menos de 40 anos e destacam-se. São dez caras locais que prometem dar cartas na próxima década.

Calvin ChuiCalvin Chui

Advogado/Jurista, Fundador da Cimeira da Juventude de Macau, 28 anos

Advogado. Líder associativo. Membro de uma das três poderosas famílias de Macau. Filho do deputado Chui Sai Peng e sobrinho do antigo Chefe do Executivo Chui Sai On. Calvin Chui tem-se destacado de forma discreta no Direito, e de forma mais pública na sociedade civil agora que é líder da Cimeira da Juventude de Macau e foi nomeado, pelo anterior secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, membro do Conselho de Juventude. Há dez anos, com 18, acabava de chegar a Portugal para estudar Direito na Universidade Católica. Aprendeu português, fez bons amigos e conseguiu adaptar-se a especificidades culturais “como dois tipos de hidratos de carbono no mesmo prato, arroz e batatas, era aceitável”. “A experiência em Portugal fez com que valorizasse a cultura portuguesa, que sempre esteve presente em Macau mas que ainda não tinha tido a oportunidade de aprofundar”, realça. Terminada a licenciatura, vai tirar o mestrado na Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, e antes passa pela Universidade de Cambridge onde fez um curso de verão. Depois de terminar o percurso académico, volta a Macau já membro da Ordem de Advogados de Nova Iorque. Na região, acumula a advogacia com a vida associativa. Entre outros cargos, é presidente e fundador da Associação de Estudantes Luso-Macaense e vice-presidente da Associação de Jovens Empresários Portugal-China, fez parte também da Associação dos Embaixadores Juvenis para a Divulgação da Lei Básica de Macau. É-lhe difícil fazer previsões para daqui a 20 anos. “Terei 48 anos. Tudo é possível”, começa por dizer o jovem fluente em inglês, cantonês, mandarim e português. “Por um lado, interesso-me muito por Direito. Exercer ou ensinar Direito é algo que vou sempre gostar. Por outro, imagino-me a apostar mais no setor financeiro e talvez a envolver-me mais nesta área”, acrescenta, explicando que se tem dedicado mais ao Direito Financeiro, e está a terminar de escrever Macau Chapter of the Chambers Global Practice Guide on Banking & Finance sob a tutoria do patrono Frederico Rato e mentor Pedro Cortés. Também se esquiva à pergunta sobre aspirações políticas. “O meu objetivo é sempre o de evoluir. Não tenho uma ambição particular ou aspiração política. Em vez disso, gostaria de retribuir para a sociedade de alguma forma possível, continuando a desenvolver as minhas capacidades e conhecimento de forma a ser útil.” 

Um País, Dois Sistemas

A chave para o sucesso de Macau. 

Uma Faixa, Uma Rota

Desenvolvimento mundial. Macau tem de avaliar de que forma pode contribuir para os países e regiões abrangidos por esta estratégia chinesa.

Grande Baía

O potencial de Macau continua por perceber. Esta iniciativa tem desafios e oportunidades. Vai desbloquear vários obstáculos que as pessoas e negócios enfrentam em Macau.

Macau como ponte para lusofonia

O papel perfeito. Por motivos históricos e evidentes, Macau é perfeito para desempenhar essa função.

Reforma política

Consenso. Precisa de reunir consenso na sua abrangência e direção.

Situação em Hong Kong

Infeliz.

Annie LaoAnnie Lao

Ambientalista, Ativista,  30 anos

O Tufão Hato mudou-lhe a vida. A maior catástrofe natural a atingir Macau nos últimos 50 anos fez dela uma ambientalista fora de casa que, pelo trabalho que entretanto desenvolveu na cidade, foi convidada para liderar um departamento dedicado à sustentabilidade numa operadora de Jogo. “Foi a primeira vez que senti que Macau não era um sítio seguro para viver. Senti que podia ter perdido a minha casa ou a minha família”, recorda. “Antes pensava que o que fazia individualmente era suficiente, mas depois apercebi-me de que a maioria das pessoas não tem consciência do impacto que tem nas mudanças climáticas”, alerta.  O impacto do Hato fez com que se tornasse muito mais consciente, começasse a pesquisar como reduzir a pegada ambiental e a prestar atenção ao consumismo. “Percebi que somos viciados numa cultura do ‘usa e deita fora’. Já não é sustentável”, condena. Está na liderança de iniciativas que visam a consciencialização de problemas como a poluição, sobretudo no sentido da redução do uso do plástico. Criou páginas nas redes sociais como a “Macau Sustain Tips” e @plastic_free_macau. Em 2018, criou a petição online “Macau Plastic Waste and Pollution” que fez dela uma figura pública e a cara da luta pelo ambiente na cidade. Juntou mais de dez mil assinaturas e foi a escolhida para a reunião com o Governo sobre políticas ambientais. Em conjunto com outros ativistas, também foi uma das responsáveis por pressionar o Governo a avançar com a primeira lei de restrição ao uso dos sacos de plástico. Mas antes desta, houve outra vida apesar da paixão pela natureza ser uma constante na vida de Annie Lao. Foi um dos 10 melhores alunos da Escola de São Paulo, durante o ensino secundário. Há dez anos, estava de partida para Sidney, na Austrália, para estudar Commerce, área na qual sempre se destacou. Depois de concluir a licenciatura, em 2012, começou a trabalhar no Departamento de Contabilidade da Universidade de Sidney, onde ficou um ano e meio. Decide demitir-se e fazer uma viagem pela Austrália e Europa, e em 2015 volta a casa. Daqui a 20 anos, espera manter a causa com mais resultados. “Gostava de tornar Macau uma das regiões mais verdes do mundo. Tendo em conta que temos uma economia forte, tudo é possível desde que queiramos. A única forma de assegurar que a nossa vida é sustentável é viver com a natureza e investir em energias renováveis e alternativas verdes, criar postos de trabalho que atraiam mais quadros qualificados e que ajudem a criar uma economia circular e sustentável”, detalha. “O dinheiro já não compra ar fresco e água limpa”, avisa. 

Ambiente

Macau é uma cidade pequena que devia ser fácil de gerir e de implementar novas políticas. Mas não temos um Governo com visão que incentive à sustentabilidade. Precisamos de uma cidade mais verde e vemos cada vez mais poluição. A nossa economia devia estar articulada com a natureza. A economia circular é o futuro. 

Liderança

Infelizmente, os nossos líderes são muito passivos. Precisamos de um líder dinâmico que implemente políticas ambientais mais rigídas. 

Grande Baía

Deve focar-se no ambiente com base numa economia verde assente no desenvolvimento e sustentabilidade. Se continuarmos como estamos, não haverá o desenvolvimento que pretendem.

Reforma política

Precisamos de uma geração que tenha como prioridade o bem-estar da cidade e não a riqueza. 

Geração Jovem

Jovens como eu sentem-se deprimidos por vermos reduzidas as possibilidades de termos ar puro, água limpa, alimentos salubres. Temos de ser muito mais conscientes sobre o que consumimos. O nosso dinheiro é o nosso voto. Se não comprarmos plástico, é o fim dessa indústria. 

Gary Chao_GLP_04Gary Chao

Membro do Conselho Executivo, Presidente da Associação Nova Juventude Chinesa de Macau, 30 anos

É o membro mais novo de sempre do Conselho Executivo. Com 30 anos, Gary Chao foi convidado pelo líder do Governo para integrar o grupo restrito que vai aconselhar Ho Iat Seng nos próximos cinco anos. É um dos nomes apontados como um dos principais protagonistas da política local. Apesar disso, prefere não pensar com distância. “Não sei o que vai acontecer. Fazer o melhor que posso para servir a população era a minha ambição quando era jovem. Daqui a 20 anos, acho que estarei igualmente numa posição que me permita usar a minha energia e valências para o cumprir, independentemente de ser no Governo, empresa ou sociedade civil”, sublinha. A vontade de intervir começou logo no secundário quando assumiu a liderança da Associação de Estudantes da Escola de São Paulo. “À medida que fui crescendo, percebi que tem de haver uma plataforma para se contribuir de forma efetiva para o bem-estar das pessoas e foi quando me juntei à Associação Nova Juventude Chinesa de Macau (ANJCN), e passei a participar de forma ativa em vários organismos de aconselhamento do Governo”, afirma. Na Universidade de Pequim, onde estava há dez anos para fazer a licenciatura, foi presidente da Associação de Estudantes de Macau da instituição. Depois de terminar o mestrado na Universidade de Hong Kong, voltou a Macau para iniciar a carreira na banca e foi quando se juntou à ANJCN, onde foi subindo até chegar a presidente. Também foi membro da associação de jovens do Banco da China. “Acredito que por causa do meu percurso, sou indicado para desempenhar o papel que tenho hoje”, defende. 

Um País, Dois Sistemas

Contribuiu para melhorar a prosperidade da sociedade, o bem-estar da comunidade e os níveis de vida da população. Nós, jovens de Macau, devemos defender e tirar o melhor partido do princípio para um futuro melhor da China e da população. 

Uma Faixa, Uma Rota

É uma excelente estratégia de desenvolvimento que pretende trazer cooperação e paz entre países sob a liderança do presidente Xi e da sua visão inovadora, organizada, ecológica, aberta e de desenvolvimento conjunto.

Grande Baía

Oferece mais oportunidades aos jovens. As vantagens e cultura desta excelente região devem ser intensivamente promovidas. Deve oferecer-se mais informação, especialmente aos jovens, para que possam tomar boas decisões e planear as carreiras.

Macau como plataforma

Macau tem tirado o melhor partido das suas mais-valias e contribuído para reforçar as relações económicas e culturais entre a China e a lusofonia, melhorando o bem-estar de milhões de pessoas. É uma honra para Macau ser a ponte entre diferentes nações.

Reforma política

Macau, enquanto parte da China, não deve atentar contra o desenvolvimento e segurança da Nação. O princípio Um País, Dois Sistemas tem permitido o nosso desenvolvimento estável e contribuído para a melhoria em termos políticos, económicos e culturais assim como para a melhoria do bem-estar social. Acredito que as vozes das pessoas podem melhorar o desenvolvimento político de Macau e que o esforço da população pode contribuir para os interesses da China.

Situação em Hong Kong

É uma boa oportunidade para os jovens de Macau pensarem e analisarem. Só quando analisamos os vários aspetos sociais e políticos de forma independente e objetiva, tendo a História em consideração, podemos ter um melhor entendimento da sociedade e encontrar formas de nos adaptar ao mundo em que vivemos. 

José Chan RodriguesJosé Chan Rodrigues

Eventos e Entretenimento, Comediante, 34 anos

Born for the stage” foi o título de um artigo publicado na Revista Inside Asia Gaming, em janeiro, e que tinha como protagonistas José Chan Rodrigues e Yamilette M Cano. O texto assinado pelo editor da publicação Ben Blaschke realçava que os dois apresentadores “estão rapidamente a tornar-se as caras da indústria dos eventos do setor do Jogo”. O autor acrescentava: “Se alguma vez assistiu a um evento grande do mundo empresarial, é bastante provável que já se tenha cruzado com José Chan Rodrigues e Yamilette M Cano”. Há dez anos estava nos Estados Unidos a estudar Comunicação e Teatro. Hoje é um dos entertainers mais conhecidos em Macau. José Chan Rodrigues, que nasceu em Hong Kong mas cresceu em Macau, diz que não escolheu o trabalho, foi o trabalho que o escolheu a ele. “Começaram a pedir-me para ser MC em vários eventos porque falo cantonês, inglês e mandarim. E já lá vão dez anos”, conta. Ambições? Confessa ter as normais – como uma casa e um carro -, mas assume que há dois meses ganhou uma maior. “Se conseguir receber uma das medalhas de reconhecimento atribuídas pelo Governo será uma grande conquista”, afirma. O talento para a comunicação em público valeu-lhe uma chuva de trabalhos quando voltou. “No início estava relutante em fazer disto uma profissão. Tinha de estudar muito, interagir, ficava nervoso em palco mas agora já estou mais confortável e comecei a apreciar. Já o encaro como um trabalho a longo prazo”, refere José Chan Rodrigues que acumula os eventos com a apresentação de um programa da TDM – “Make or Break”, que venceu antes. Já foi MC de grandes eventos como G2E Asia Awards e IAG’s Asian Gaming Power 50 Gala Dinner. Também canta e no ano passado foi ator numa co-produção local. “Claro que as minhas ambições passam por Macau mas também pela China. É inevitável. Macau é muito pequeno”, realça. É-lhe difícil traçar objetivos muito específicos para daqui a duas décadas, mas tem uma meta: “Macau está a mudar a cada seis meses. Há dois anos ninguém falava da Grande Baía e agora está no centro das atenções. Como MC, ou noutra qualquer área que venha a trabalhar, o que gostava mesmo era de contribuir para promover Macau lá fora. Continua a haver imensa gente que não sabe onde é Macau nem sabe nada da cidade. Quero usar o que faço para dar a conhecer melhor a região.” 

Geração jovem

Há muitas medidas vantajosas para os jovens. Não se contentem com os “rebuçados” que o Governo dá. Aproveitem-nos, mas não se contentem.

Indústria do entretenimento

Não está assim tão bem. Dependíamos do mercado em cantonês que está em declínio há cinco anos. Portanto tem de se procurar outros mercados e não me refiro apenas à China. 

Grande Baía

Estamos sempre a repetir que temos de nos integrar na Grande Baía, mas temos uma cultura muito forte, porque que não somos nós também a influenciá-los? Podemos mudar a mentalidade. Se temos aspetos bons, vão seguir o nosso exemplo, não temos de ser sempre nós a seguir o deles. Temos coisas boas mas não lhes damos visibilidade. 

Situação em Hong Kong

(Suspiros) O Governo central deve fazer um verdadeiro esforço para entender o que é Hong Kong. Se dispensarem realmente algum tempo para perceberem o que a população precisa, quer, pensa, tenho a certeza que, com todo o passado histórico, reputação internacional e experiência como centro financeiro, será uma das cidades mais fabulosas da China. Decisões erradas e más políticas conduziram à situação atual, que é realmente triste. Acho que deviam perder mais tempo em perceber o que é Hong Kong em vez de terem tanta pressa em tornar Hong Kong mais numa cidade chinesa. Hong Kong é única e é por isso que é especial, e estou seguro que será complementar. 

Liderança

Tenho confiança neste Governo. Acho que Ho Iat Seng tem um plano para Macau. 

Venus_TedEx_GLP_05Venus Loi

Curadora da Conferência TEDx, Co-fundadora do Macau Startup Club, 26 anos

Na página que tem no Linkedin diz que “gosta de conectar pesssoas e tecnologia no sentido de contribuir para uma cidade que valorize a qualidade de vida”. “Lidero equipas e sou curadora de eventos e iniciativas com ONG e negócios”, refere, acrescentando, na mesma página, que trabalhou em várias áreas como tecnologia, transportes, investigação, consultadoria e relações governamentais. Além disso, também organiza as Startup Weekends e foi um dos nomes por detrás da primeira edição dedicada às mulheres. Faz remo, modalidade na qual é federada e em que compete representando Macau. Em 2014, também fez parte da organização da Cimeira da juventude de Macau. Venus Loi diz que lhe foi incutido desde cedo a importância de retribuir e é por isso que sempre procurou ter um papel na sociedade. “Cresci a debater com os meus pais sobre assuntos sociais como os problemas ambientais, pobreza, educação, igualdade e inovação. Apesar de divergimos muitas vezes, ajudou-me a pensar de forma crítica e reforçou o meu interesse em contribuir para a sociedade tanto quanto posso”, realça. Há dez anos estava longe de imaginar que hoje já teria conseguido. Na altura, diz, “era apenas uma estudante normal” que decidiu dar um passo maior e sair da zona de conforto. “Fui estudar para Inglaterra, uma decisão que me abriu os olhos. Conheci pessoas de diferentes países e culturas. Acho que aprender outra língua e ser curiosa fizeram com que me tornasse curadora do TEDx events em Macau. Acredito que cada pessoa tem sempre alguma coisa que vale a pena ser partilhada”, salienta. Daqui a 20 anos? “Quando me licenciei há quatro não sabia por onde começar. Desde então, tenho assumido diferentes papéis que podem parecer improváveis aos olhos de muitos”. Ressalva que espera manter o propósito. “Gostava de estar mais envolvida no planeamento urbano da cidade e gestão de transportes. Macau tem um potencial enorme para ter parâmetros elevados de qualidade de vida. Gostava de ver mais esforço na educação, especialmente nas áreas da sustentabilidade e inovação assim como mais discussões abertas e construtivas sobre assuntos sociais.” “Espero nessa altura ter uma cidade com habitantes felizes e a viver de forma sustentável”, aponta. 

Geração jovem

Somos extremamente sortudos por viver em Macau, onde a vida é bastante simples e confortável para os jovens se compararmos com outras cidades vizinhas. Mas isso preocupa-me porque sinto que a competitividade da nossa geração está a diminuir. Estamos muito protegidos. Acredito que a Grande Baía é uma grande oportunidade para aprendermos e acelerarmos.

Liderança

Um bom líder precisa de ser visionário e de ter a coragem de tomar as medidas certas. 

Grande Baía

Estou entusiasmada por ver as oportunidades que vai trazer. Espero que Macau esteja pronto para agarrar as oportunidades. 

Sociedade civil

Para que a sociedade civil se desenvolva é fundamental investir mais em educação cívica. Não se trata apenas de formar a geração jovem sobre o país mas também de lhe dar a oportunidade de desenvolver um pensamento crítico.

Reforma política

Depende até que ponto os eleitores estão bem informados para tomarem decisões. Reitero a importância da educação, na medida em que é o que permite que os eleitores consigam pensar sobre assuntos sociais de forma ponderada. Também é importante haver abertura para que as pessoas tenham acesso a informação e para que haja discussão política. Só assim pode a democracia mostrar os seus melhores resultados. 

Joe Liu 2Joe Liu

Co-fundador e diretor da MOME, Diretor da Transmac e Macau Pass, 37 anos

Com apenas 37 anos tem um pequeno império. Nasceu em Hong Kong mas foi em Macau que fez carreira e fortuna, para onde se mudou com cinco anos quando o pai, Alfred Liu Hei Wan, se juntou à empresa de transportes públicos Transmac. O Reino Unido, onde se licenciou em Urban Planing Design e mestrou em European Property Development, foi o destino que escolheu para se formar, mas foi em Macau que se estabeleceu por sentir que teria mais oportunidades. Chegou a trabalhar em Londres, na Savills, uma das maiores empresas de imobiliário do mundo, para quem ainda trabalhou quando voltou a Macau em 2010. Começa com a MOME, uma empresa de media e marketing. “Percebi que havia muitas empresas de fora que vinham para Macau, mas sentiam muitas dificuldades em encontrar meios e canais eficazes para se promoverem e afirmarem. Foi um bom começo”, diz. A natureza do negócio foi-lhe criando novas oportunidades. “Trabalhava com diferentes áreas e empresas, desde hotéis a departamentos do Governo, retalho, bancos… e isso permitiu que conhecesse muita gente”, acrescenta. Sobre o futuro, diz que dependerá do crescimento da cidade e da direção do país, e de como se conseguirá adaptar. “Primeiro que tudo, Macau é a minha casa. Quero mesmo fazer o melhor que sei e posso primeiramente em Macau, depois na China, enquanto país”, esclarece. “Na China, sinto que a minha formação, experiência e conhecimento serão mais úteis no processo de levar a China a outras nações. Muita gente me pergunta se, tendo em conta que já tenho muitos negócios em Macau, concebo expandir-me para a China. Diria que não. Em vez disso, procurarei expandir os meus negócios com parceiros chineses para fora da China. O movimento de saída é o que realmente me interessa”, vinca. Diz não ter aspirações políticas, mas ressalva: “Nunca esteve nos meus horizontes mas os negócios e a política caminham de mãos dadas. Sou principalmente um empresário, mas é verdade que, à medida que o meu negócio cresce, sou obrigado a conhecer as políticas da cidade e do país. Preciso de trabalhar de perto com os políticos. Portanto, e com a evolução da minha carreira, vou ficando cada vez mais envolvido na política, não porque seja o meu objectivo, mas como consequência do meu trabalho”. 

Grande Baía

Macau tem uma posição bastante estratégica na região porque é uma das duas únicas cidades que é uma região especial: livre comércio, bons incentivos fiscais e uma excelente ponte para nações estrangeiras. Precisa de perceber como pode ajudar a facilitar na circulação de pessoas, finanças, comércio dentro e fora da Grande Baía. Como é que as empresas locais, como a minha, podem ter um papel em vez de se insistir só em convidar empresas chinesas e de fora porque isso acaba por diluir o caráter individual de Macau e acabará por torná-la em apenas mais uma cidade chinesa. 

Liderança

Em Macau não basta ser um líder tradicional, com uma grande hierarquia que se cinja a ter uma visão geral e a dar diretrizes. Em Macau, porque os recursos são limitados e há falta de experiência, é preciso ser-se um grande mentor. Aqui, um líder tem de ter a coragem de meter as mãos na massa e de trabalhar com a equipa. Tem de ser uma estrutura mais horizontal em vez de pirâmide.

Geração jovem

Tem de ser mais competitiva, trabalhadora e ambiciosa.

Situação em Hong Kong

Diria que sou um sortudo por estar em Macau. Conhecemos bem a nossa identidade. Em Hong Kong, ainda estão a descobrir o que são. Não é fácil a solução e implica a educação de gerações inteiras. Estou preocupado mas tenho de assumir que abriu grandes oportunidades a Macau.

Reforma política

Com este novo Governo, haverá reformas. Tenho muita esperança e confiança no novo Chefe do Executivo. Como parte da geração nova e jovem empresário, espero que dê realmente atenção às nossas preocupações em vez de ter uma abordagem do topo para a base. Neste momento, Macau é realmente única e espero que essa unicidade se mantenha.   

Sio Kit Lai_GLP_06Siokit Lai

Artista, 36 anos

desenho é paixão de infância que se tornou ofício em adulto. Siokit Lai é um dos artistas mais relevantes no mundo da arte local, com trabalho feito e reconhecido dentro e fora de portas. O jeito logo em criança levou os pais a inscreverem-no em disciplinas artísticas, área que seguiu e escolheu profissionalizar-se. Fez a licenciatura e mestrado na Academia Central de Belas Artes da China, entre 2002 e 2009. “Apesar de viver em Pequim, nunca perdi a oportunidade de participar na sociedade de Macau. Fui membro de mais de 20 grupos antes de me formar que foram decisivos na minha carreira e que me abriram portas para fazer exposições individuais depois de mudar para Macau como artista a tempo inteiro”, sublinha. No currículo conta com mostras individuais em Macau, Portugal, Estados Unidos, Coreia do Sul, Singapura, Austrália, Taiwan e Hong Kong além de Pequim e Xangai, entre outros destinos. O ano passado foi convidado para expor no Museu do Oriente, em Portugal, tornando-se no primeiro artista jovem local a consegui-lo. Entre os prémios que conquistou, destacam-se o da Fundação Oriente para as Artes Plásticas e John Moore Painting (China). Com apenas 17 anos, tornou-se membro da Macau Artist Society. Há seis anos, que integra organismos de consulta importantes, e foi escolhido para diretor da associação local Art For All. “Olhando para os últimos 10 anos, hoje é muito mais fácil para os artistas apresentarem trabalho por causa das políticas do Governo que garantem apoio suficiente e financiamento para promover a cultura, mas a verdade é que não resulta em quaisquer benefícios económicos para o artista. Com o desenvolvimento da Grande Baía, acredito que haverá muito mais oportunidades para os artistas locais ultrapassarem as restrições e limitações da economia de Macau”,antecipa. No que respeita a ambições, responde com humildade: “Manter a minha atitude como artista é a única ambição que tenho”. 

Siokit Lai preferiu não comentar nenhum dos tópicos sugeridos: situação do setor cultural/artístico, liderança, Grande Baía, política reforma, geração jovem. 

Kameng Lei_GLP_06Ka-Meng Lei

Investigador, 31 anos

Foi indicado pela universidade como um prodígio na área. O interesse pela eletrónica despertou no secundário, quando percebeu que a disciplina era a que mais gostava. “Desfrutava realmente quando construía circuitos. Acho que essa fase foi mesmo muito significativa e moldou a minha carreira”, recorda. Começou logo por ser determinante na escolha do curso, Engenharia Eletrotécnica e de Computadores na Universidade de Macau, onde se licenciou em 2012, quando sobressaiu por ser um dos alunos do quadro de honra da instituição. “Nessa altura, já tinha planeado seguir uma carreira académica e dedicar-me na solução de problemas multidisciplinares através da eletrónica”, realça. Prosseguiu o doutoramento na mesma área e universidade, que terminou em 2016 com uma passagem pela Universidade de Harvard, onde também leciona desde 2017. A investigação é o rumo que quer continuar a seguir. “É importante formar e nutrir as gerações mais jovens no sentido de perseguirem os objetivos e de lhes dar liberdade para os concretizarem com a devida orientação. Por isso, vou continuar o meu papel como educador e investigador”, sublinha. Ka-Meng acrescenta querer desenvolver soluções que sejam mais-valias na Ciência mas também na sociedade, e que beneficiem as pessoas. “Eventualmente, acabamos por converter as nossas descobertas num produto, ou estabelecer university spinoffs”, refere. “Mas mais importante, gostava muito que o nosso laboratório e Macau se tornassem conhecidos internacionalmente, que Macau fosse uma referência não só pelo turismo e Jogo mas também pelas descobertas no campo da microeletrónica.” 

Academia/Educação

Macau é muito conhecida pelos casinos e resorts, mas diversificar a economia também pode passar por investir e criar um ambiente saudável para a investigação. Quando uma investigação é bem-sucedida, acaba por levar à criação de empresas e, finalmente, poderá gerar receitas e postos de trabalho.

Grande Baía

Podemos aproveitar a facilidade de acesso a diferentes fábricas na área da Grande Baía para desenvolver protótipos de pesquisa. Por outro lado, Macau tem uma longa história de relações internacionais, especialmente com os países de língua portuguesa. Podemos explorar as nossas forças e desenvolver um papel especial na região.

Geração jovem

O pensamento crítico e independente é a chave do sucesso, não importa em que área. Ao contrário dos testes, não haverá resposta modelo em muitas circunstâncias da vida. É importante deixar que a geração jovem entenda isso, e educá-los sobre a importância do pensamento crítico e independente. É igualmente crucial dar liberdade e coragem à geração jovem para perseguir objetivos. Têm muitas ideias que às vezes não partilham por vergonha.

Kam também foi questionado sobre os tópicos Reforma Política e Liderança aos quais preferiu não responder porque, explicou, “não tenho resposta para essas perguntas”.

Ella LeiElla Lei

Deputada, Dirigente da Federação das Associações dos Operários de Macau (FAOM), 39 anos

É a candidata mais provável à liderança de uma das associações mais importantes e antigas de Macau. A postura assertiva que assume desde que foi eleita deputada valeu-lhe a comparação com a antecessora e peso pesado Kwan Tsui Hang, que se afastou da vida pública para dar lugar à geração mais jovem na qual Ella Lei é um dos  nomes incontornáveis. Com 33 anos, ganha um lugar na Assembleia Legislativa onde está pelo segundo mandato consecutivo. Foi ainda quando estava na universidade, a estudar Administração Pública, que integrou a FAOM, na altura como estagiária no gabinete que dá assistência aos deputados dos Operários. “A economia não estava bem, a taxa de desemprego era elevada e havia muitos casos de atrasos salariais e de pedidos de indemnização. Recebíamos muitos pedidos de ajuda. Este trabalho de ajudar a resolver casos individuais e de promover legislação laboral é muito importante e significativo. Depois de terminar a licenciatura, em 2003, integrei oficialmente o gabinete”, conta. Mais tarde é nomeada diretora do Departamento de Igualdade da associação, função que desempenha desde 2008. “Tive de estudar políticas laborais e fazer sugestões, acompanhar casos de litígio entre empregados e empregadores, assim como dar assistência aos trabalhadores dos diferentes setores. Mais tarde, quando fui nomeada representante dos Operários no Conselho Permanente de Concertação Social, tive mais oportunidades de participar na discussão de políticas laborais”, acrescenta. Em 2013, é eleita deputada indireta pelo setor laboral e quatro anos mais tarde mantém o lugar no hemiciclo, desta feita escolhida pelos eleitores. Não detalha as aspirações políticas que alimenta e limita-se a dizer que espera continuar a fazer bem o que tem feito. “Quero prestar mais atenção aos assuntos laborais e direitos dos trabalhadores, e conseguir contribuir para a construção da região especialmente ao nível da formação de talentos, supervisão das contas públicas, uso das terras assim e planeamento urbano.” 

Um País, Dois Sistemas

As vantagens desta fórmula e as garantias da Lei Básica deram a Macau a possibilidade de um desenvolvimento melhor e de mais oportunidades.

Grande Baía

Os sistemas legais, fiscais e económicos são diferentes. Está ainda por explorar como pode se pode concretizar essa integração e desenvolvimento conjuntos. A forma como a formação de recursos locais pode ajudar na competitividade de Macau e no desenvolvimento com as restantes regiões são aspetos que temos de trabalhar. 

Geração jovem

Tem mais oportunidades de educação, de viajar e de ter uma perspetiva mais abrangente. Mais pessoas podem ser encorajadas a participar nos assuntos sociais, a fazerem exigências e reclamarem que se passe das promessas aos atos, o que levará à construção e desenvolvimento sociais. 

Liderança

Há diferentes formas de liderar. O mais importante é tolerar e aceitar opiniões diferentes, e ter a capacidade efetiva de comunicar com diferentes classes. Um líder também deve conseguir contribuir e tomar decisões, de executar e sentido de responsabilidade na resolução de problemas.

Reforma política

É um assunto complicado. Está claro que devemos cumprir o que prevê a Lei Básica e seguir os passos previstos. O sistema político pode ser discutido e alterado à medida que a sociedade se desenvolve, mas não deve haver pressa sem a devida discussão, caso contrário pode levar a graves contradições sociais e até ruturas.

Papel das associações tradicionais

Este tipo de estruturas tem a função de unir residentes e os grupos que representa. Também devem assumir o papel de ponte entre o Governo e os residentes, transmitindo as preocupações da população e ajudando na solução das dificuldades. Paralelamente, associações como os Operários asseguram serviços importantes ao nível da educação, comunidade, infância e serviços médicos, que são complementares e resolvem a carência dos serviços públicos. Aliviam a pressão sobre esses e conseguem reduzir custos aos utilizadores.

Situação em Hong Kong

Uma questão complicada que não pode ser respondida de forma simples. 

Sulu SouSulu Sou

Deputado Vice-presidente  da Associação , Novo Macau, 28 anos

É o deputado mais jovem de sempre em Macau. Sulu Sou ficou na História depois de ter sido eleito diretamente nas Legislativas de 2017 com 26 anos. “A política não se resume a uma carreira. É uma forma de estar”. É assim que Sulu Sou responde à pergunta sobre ambições, acrescentando que espera que, com o tempo, mais pessoas percebam que a política e a vida são indissociáveis. “Espero que mais gente tenha a consciência que tem de lutar pelos seus direitos e supervisionar o Governo”. Fecha o tema com um repto: “Vamos lutar por um ambiente político mais diverso e aberto”. A facilidade em delinear metas gerais não se repete quando fala de si. “Há muitos caminhos que a vida segue que não foram planeados. Normalmente não penso muito sobre o futuro. Por agora só quero fazer o meu trabalho todos os dias”, que há pelo menos dois anos se centra na política. O interesse surgiu no último ano do secundário, quando diz ter começado a ficar mais atento à informação sobre assuntos políticos. Decide estudar Administração Pública, no Departamento de Ciência Política da Universidade Nacional de Taiwan. Tinha 18 anos quando partiu rumo à Formosa, sem nunca imaginar que a política passaria a profissão em menos de dez e que seria um dos mais carismáticos políticos da cidade. “Pensava que preocuparmo-nos e participar seria importante para a sociedade. Mas nunca pensei que iria fazer isto no futuro.” Sulu Sou Ka-hou nasceu em Macau, em 1991, onde passou a ter uma intervenção mais politizada desde 2011, quando integrou a Associação Novo Macau. Bateu-se pela livre circulação de estudantes locais e de Hong Kong para Taiwan, fez parte de um grupo que pressionou o Governo para implementar legislação contra a violência doméstica e foi o líder de um dos maiores protestos na cidade, em 2014, quando cerca de 20 mil pessoas saíram à rua contra o pagamento de subsídios aos antigos titulares de altos cargos. O feito valeu-lhe a eleição para presidente da Novo Macau, cargo que abandona em 2015, quando decide fazer o mestrado em Política, novamente em Taiwan. Há dois anos, foi eleito com mais de nove mil votos e estreou-se na ala democrata do hemiciclo. 

Um País, Dois Sistemas

Uma promessa solene feita pela China ao mundo, e a base para manter a identidade sociocultural e forma de viver próprias e únicas de Macau.

Uma Faixa, Uma Rota

Pequim espera ter uma enorme influência sobre os países e regiões vizinhas, mas parece que começa a aparecer algum criticismo nos países em desenvolvimento. 

Grande Baía

A China pretende acelerar a integração regional do Delta do Rio das Pérolas, o que poderá vir a enfraquecer a cultura única de Hong Kong e Macau, e preparar o caminho para 2047 e 2049, respetivamente.

Macau como plataforma

O Governo central quer estreitar relações com os países de língua portuguesa e usa os benefícios económicos em troca de apoio internacional. Macau é apenas um quadro de fundo, um palco. Poderá ter beneficiar de alguma forma, mas não será certamente quem ganha mais.

Situação em Hong Kong

É um espelho de Macau. Dizer ao Governo de Macau que, se a situação é mal avaliada, o Executivo é muito duro com a população, enquanto suprime as exigências democráticas das pessoas, é provável que obtenha o mesmo resultado.

Reforma política

É o cerne de muitos problemas sociais, e é uma condição básica na responsabilização do Governo. Se Hong Kong e Macau puderem implementar o sufrágio universal, será o símbolo máximo do princípio Um País, Dois Sistemas. 

Catarina Brites Soares 24.01.2020

Fotos: Gonçalo Lobo Pinheiro

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