Classe média em sanduíche e a harmonia enterrada na casa

por Arsenio Reis

Chui Sai On mostrou-se anteontem seguro na Assembleia, do ponto de vista emocional. Calmo, conciliador, até paternalista – aqui e ali – , leu as respostas que trazia previamente preparadas para todas as perguntas dos deputados sobre as Linhas de Ação Governativa, que apresentara no dia anterior. 

Quanto ao conteúdo político, mais generalista, menos convincente, foi curto para livrar o chefe do Executivo do drama de uma classe média que perde qualidade de vida, entalada entre a inflação galopante dos anos boom e o peso das rendas de casa, que “põe em causa a harmonia familiar”, concordaria Chui Sai On.

Num formato que está longe de ser um debate, Chan Meng Kam, na pele que frequentemente veste, de protetor dos desfavorecidos, colocou o dedo numa ferida que acabaria por purgar durante toda a sessão: o que vai afinal fazer o Governo para salvar os excluídos do boom económico? Já não apenas “os mais pobres”, mas também uma classe média em extinção, a “sanduíche” que perde horizonte, mobilidade e crença no futuro. Habitação, transportes, saúde e deterioração das condições de vida dos idosos, temas sintetizados por Song Pek Kei, são aqueles em que o resultado da ação governativa é “mais decepcionante” e que mais “fazem com que os cidadãos virem costas ao poder político”. Mas também a “ineficácia” da Administração e a “falta de mecanismos de responsabilização” contribuem para esse divórcio, concluiu a deputada.

Chui Sai On reagiu num dos momentos mais fortes de afirmação de um estilo invulgar de liderança, assumindo a “responsabilidade política” pelos “erros” dos seus “colegas” e a necessidade de serem todos “humildes” perante as “críticas dos deputados e a opinião pública”. Caso contrário “estamos a afastarmo-nos da população”, reconheceu. Num contexto diferente, surpreendeu também a resposta de Chui Sai On a Pereira Coutinho, que lembrou os milhares de crimes de que é acusado o ex-procurador, que a julgar pelo Ministério Público terá cometido “quase três por dia”, para perguntar qual é a responsabilidade do Executivo no controlo da adjudicação de bens e serviços. Também nesse caso Chui Sai admitiu falhas, embora de forma menos explícita, assumindo a necessidade de reorganizar os processos de acordo com as recomendações do Alto Comissário da Auditoria e do Alto Comissário contra a Corrupção.

Terrenos para habitação

A habitação foi o tema que mais críticas suscitou e no qual Chui Sai On mais falhas reconheceu, referindo mais do que uma vez ser essa a sua “prioridade máxima”. Os dados estatísticos mostram que uma família da classe média gasta hoje em torno de “40 por cento” do rendimento familiar na prestação ou renda da casa. O número, apresentado pelo próprio Chui Sai On, pode “em certos casos chegar aos 60 por cento”, admitiu o chefe do Executivo, recusando contudo intervenção direta no mercado, por exemplo através dos tetos de renda. A única solução ao dispor do Governo, defende Chui Sai On, passa pela construção de mais habitação pública e social, cerca de 40 mil novos fogos, promete o governo, estratégia que levou várias vezes Chui Sai On a citar a importância dessa “prioridade” e “os esforços” nessa prioridade conduzida pelo secretário com o pelouro das Obras Públicas, Raimundo do Rosário. Nesse contexto, o chefe do Executivo assumiu como meritória a polémica Lei de Terras que conduz à “recuperação dos terrenos” por caducidade da concessão,  permitindo com isso “reservar” alguns desses espaços para a construção de habitação a custo controlado. Apesar da forte contestação levantada pelos proprietários e da proliferação de processos em tribunal, já “foram proferidos 38 despachos de declaração de caducidade das concessões de terrenos, que envolvem uma área que ultrapassa 400 mil metros quadrados”, o equivalente a 40 campos de futebol.

Em intervenções diferentes, vários deputados criticaram a “exiguidade” e a ”má qualidade” da habitação pública, o “excesso de burocracia” e as dificuldades de acesso a essas casas, tendo Chui Sai On respondido com os “esforços” no sentido ser melhor cumprida essa estratégia. 

 Paulo Rego

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