Uma cidade tão rica e tão atrasada - Plataforma Media

Uma cidade tão rica e tão atrasada

Kenny Leong partiu aos cinco anos para Toronto, mas voltou para abanar consciências e provocar o conservadorismo de Macau. Os seus vídeos são um verdadeiro fenómeno nas redes sociais e em plataformas online de Hong Kong ou de Taiwan chegam a atingir meio milhão de visitantes. Aos 29 anos, não compreende como uma Região “com tanto dinheiro” pode ser “tão atrasada” e aponta o dedo à “preguiça” mental de quem se limita a pensar que a sua missão é “fazer dinheiro, casar, ter filhos, comprar casa… É um ciclo vicioso no qual se sentem confortáveis”

– Muita gente que estuda e depois regressa sente dificuldades em adaptar-se à cidade pequena, às expectativas da família, ao conservadorismo reinante… É isso que provoca em si a atitude crítica?

Kenny Leong – Muita gente me fala dessa dificuldade de adaptação; não gostam disto, queixam-se do atraso em relação aos países onde viviam. No meu caso, voltei há três anos porque precisei de mudar de ares. Podia ter ido para a Austrália ou Reino Unido, mas voltei a Macau, que já nem me era familiar. Tenho BIR [Bilhete de Identidade de Residente], casa onde ficar… E como sou novo, vim primeiro ver o que posso fazer aqui. Sabia que andaria em torno das produções Media; não sabia que abriria a minha própria empresa.

– O que mais o choca quando compara Macau ao Canadá?

K.L. – Primeiro, senti que Macau era demasiado pequeno; depois fui percebendo que, afinal, é maior do que pensava.

– Em que sentido?

K.L. – Há uma série de sítios que não conhecia; muita gente diferente e de várias origens, ruas diferentes, becos, sítios para visitar, descansar… Tudo me foi abrindo os olhos e hoje posso dizer que amo Macau. Tudo para mim está ainda muito fresco, mas para muitos isso não conta e não gostam de cá estar. Tenham regressado, ou sempre cá estado, para muita gente a vida resume-se a ir de A para B e C: saem de casa para o trabalho e regressam a casa; talvez saiam para jantar… É um pequeno triângulo que se esgota. A vida é muito mais do que isso, mas muita gente perdeu essa noção; em primeiro lugar, por causa do dinheiro. Aqui é fácil arranjar um emprego num casino e perder a relação com os outros lados da vida.

-Preguiça mental?

K.L. – Sim! Sentem que a sua missão é fazer dinheiro, casar, ter filhos, comprar casa… É um ciclo vicioso no qual se sentem confortáveis. Quando as pessoas estão demasiado confortáveis, tendem a ser preguiçosas.

– Isso cala o espírito crítico?

K.L. – Sendo uma das regiões onde há mais dinheiro, onde o Governo faz biliões em impostos, como é possível estar tão subdesenvolvida? Vejam as plataformas de comunicação! Só agora vai haver 4G, que eu tinha há dez anos no Canadá. Vejam o sistema de transportes, sem um metro que faz falta há tantos anos. É incrível, no século XXI, viver numa cidade tão rica e, contudo, tão atrasada. No meu ramo – produções vídeo – as grandes empresas e os casinos nem sequer nos procuram; preferem Hong Kong ou a China continental, onde se produzem excelentes vídeos comerciais e promocionais. O sistema educacional aqui é muito atrasado; não percebo porque não se contratam professores de classe mundial.

– O Canadá deu-lhe mais cultura, informação… Outra forma de pensar?

K.L. – Tudo isso! Repito: não percebo este sistema educacional. No Canadá iam à faculdade dar-nos palestras grandes realizadores, diretores de arte, atores famosos… Aqui não há nada disso. As pessoas aqui autolimitam-se. Quando imagino um vídeo, o céu é o limite; devemos pensar em grande e não limitar as ideias. Mas aqui tudo é visto como sendo demasiado ambicioso, ou até perigoso! As pessoas não vão gostar, o Governo não vai querer… Estão sempre dentro da caixa e sentem-se confortáveis com isso.

– Porque ganham dinheiro?

K.L. – Exatamente! Desde que recebam está tudo bem; não arriscam nada. Por mim, primeiro olho para o conteúdo; se olhasse para o dinheiro estaria a trabalhar num casino. Contudo, quero fazer algo que mude as coisas e ajude as pessoas a abrirem os olhos, a verem coisas diferentes e a lutarem pela liberdade de expressão. Muitos dos meus vídeos não têm qualquer intuito comercial, apenas afirmam aquilo em que acredito. Mas mesmo quem trabalha comigo muitas vezes acha que vamos longe demais.

– Como é que lida com isso?

K.L. – Ouço toda a gente e, no final, faço o que quero. As ações falam mais que palavras e é por isso que temos merecido tanta atenção. Quem trabalha comigo já percebeu e dá-me razão; senão toda, pelo menos em parte. Hoje tendem a acreditar mais nas minhas ideias.

– A reação é impressionante. Como é que uma cidade aparentemente tão tradicional adere assim aos seus vídeos, alguns deles com mais de 100 mil visionamentos?

K.L. – Há dois tipos de pessoas: as que apreciam o que fazemos e as que não gostam, até nos odeiam. Muita gente faz questão de nos apoiar e dizer que são precisas vozes como esta em Macau. Em Hong Kong há sempre manifestações, as pessoas criticam o Governo e expressam as suas ideias. É o que precisamos aqui. Muita gente pensa como eu, mas não tem formas de se expressar. Do lado mais conservador, estão preocupados com o barulho que fazemos; dizem que não faz sentido, que tenho de ter cuidado comigo porque aqui não se pode estar sempre a criticar.

– No fundo, também reagem…

K.L. – Estamos mesmo a chamar à atenção.

– Isso surpreende-o?

K.L. – De repente um vídeo tem mais de 100 mil visitantes e isso surpreende-me. Mas falamos de coisas que têm a ver com a vida das pessoas, procuramos essa ligação e esse significado, sabendo que as pessoas gostam de ver coisas que tenham a ver com elas. Macau é uma cidade pequena e é natural essa relação próxima e direta com o que fazemos. O que me surpreende são os números.

Quais os vídeos com mais sucesso?

K.L. – A crítica social e política. Há três anos fiz um vídeo sobre o Macau 9.000 [cheques pecuniários] e isso teve muita repercussão, porque discutíamos o que essas nove mil patacas significam. O Governo dá-nos dinheiro para nos calar; não quer problemas, não quer aqui manifestações como em Hong Kong; por isso passa os cheques. Com tanto dinheiro, tem de provar que o usa de forma útil e, para eles, isso significa dar dinheiro às pessoas. Treta! A mesma coisa com os cheques saúde: 600 MOP por ano!? Por favor… Dar dinheiro às pessoas é uma loucura; é a forma mais preguiçosa de distribuir dinheiro. Não se ajuda a economia dando dinheiro; é preciso melhorar a saúde, a educação, o nível de vida.

Macau é tão pequeno e tem dinheiro que não se compreende como é tão subdesenvolvido. Como é que estamos ainda a pagar a escola ou a saúde? Se quisessem, podiam atrair as melhores cabeças, porque dinheiro não é problema. Muita gente pensa da mesma maneira, mas não têm coragem de se erguer; não querem problemas.

 

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Não me vejo como um ativista

 Será o espírito crítico uma questão geracional? Qual é o perfil dos seus fãs?

K.L. – Não há muita gente a utilizar as redes sociais para levantar questões. Para promover a mudança é preciso insistir, porque não o vamos fazer na TDM nem no Ou Mun Yat Pou, que não querem o que é contra o Governo. Por isso é preciso explorar as novas plataformas online, fantásticas para este tipo de intervenção.

– Vejo na TDM portuguesa críticas ao Governo, bem como em vários jornais, pelos menos de língua portuguesa e inglesa…

K.L. – Talvez… Mas voltando à questão anterior, obviamente gostaria que fosse mais do que uma questão geracional. Queremos que toda a gente veja as nossas ideias e que elas provoquem novas formas de pensar. Mas como atuamos nas redes sociais, naturalmente atingimos mais as novas gerações. Os jovens adultos são os que nos percebem melhor.

– Quererá isso dizer que, no futuro, teremos adultos mais contestatários?

K.L. – Espero que se levantem e façam ouvir a sua voz. No ocidente, há muito que o fazem, não só nas redes sociais e no YouTube, mas também em exposições, galerias de arte, flahs mobs de rua, etc. A liberdade de expressão está muito maturada, mas não aqui; essa é a grande diferença entre a cultura chinesa local e a ocidental. Espero que, antes de sair de Macau, possa fazer mais por aquilo em que acredito.

– Tem prejuízos com isso? Perde clientes pela fama de ser contestatário?

K.L. – Nas empresas onde os chefes têm a minha idade percebem-me bem. Alguns até elogiam, depois deixam claro que temos de separar essa parte daquilo que se pretende em termos comerciais. Quando são mais velhos, normalmente não falam disso, ou simplesmente não conhecem. O negócio não é afetado, porque há um grande fosso entre a informação consumida pelos mais novos e os mais velhos. 

 – Considera-se um ativista? Ou vê os seus vídeos como arte moderna?

K.L. – Essa é uma grande definição. Vejo os meus vídeos como expressão artística das minhas ideias; não me vejo como ativista. Na verdade, quero é fazer entretenimento, que se subdivide em várias categorias: política, humor, etc. Por exemplo, filmamos turistas estrangeiros a experimentarem comida chinesa. Isso não tem nada a ver com política, simplesmente registamos como reagem ao experimentar sangue de pato, intestinos de porco, etc. É muito engraçado e tem a ver connosco, porque nos rimos com a reação dos outros. Quero promover coisas que tenham significado e às quais as pessoas estejam ligadas.

– Acredita nas indústrias criativas e na diversificação económica? 

K.L. – Acho que é tudo fachada, por parte dos governos de Macau e do Partido Comunista na China. Dizem que é para as pessoas, mas o que é que foi realmente feito em Macau? Quais são os verdadeiros avanços na rua, no trabalho, na saúde, na educação? Há mais subsídios, isso é verdade… 

– Já é alguma coisa… 

K.L. – É verdade. Quem quer fazer um projeto ou abrir uma empresa consegue apoios; e isso é fantástico. Contudo, faltam pessoas qualificadas e orientação profissional para se saber o que fazer ao dinheiro. Onde está o mercado, a distribuição, a promoção? Onde estão as oportunidades para além dos subsídios. Por isso é preciso um sistema educativo diferente, que nos oriente para o sucesso profissional, bem como de pessoas que, pelo menos ao nível universitário, nos façam crescer. Mas o Governo não quer saber, distribui os subsídios e as pessoas ficam contentes. Em Hong Kong, Taiwan, ou no ocidente, é muito difícil conseguir apoios. Aqui é fácil, mas depois não se garante que o dinheiro é bem aplicado.

– Será essa a responsabilidade só do Governo. Não cabe às pessoas prepararem-se melhor?

K.L. – Todos são responsáveis: o governo, os empresários, os artistas… É preciso uma nova cultura de exigência, mas a estrutura governamental é crucial. Não é só dar o dinheiro, têm de pensar no sistema educativo e impor critérios. Muita gente sai da escola diretamente para os casinos, mas se a universidade fosse gratuita, muitos optariam por continuar a estudar. Fabricar talentos é sobretudo induzir as pessoas a aprender. Para além dos subsídios, o Governo tem de ajudar os distribuidores, profissionais de marketing, gestores de arte, galeristas, produtores on line, redes sociais, websites, etc. Assim não está a funcionar porque não temos com quem partilhar os projetos para crescermos juntos. É isso que quero dizer quando falo em responsabilidade partilhada entre o Governo e a população.

Paulo Rego

 

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