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SALVOS PELAS REDES SOCIAIS

 

Uma cultura que rejeita a sátira e o confronto é uma das razões para a censura generalizada dos cartoons políticos na China. De acordo com uma reportagem do jornal em língua inglesa Global Times, profissionais da área acreditam que as redes sociais poderão ser a tábua de salvação dos cartoonistas.

 

Um cordeiro prepara-se para dar um pontapé num velho charlatão chinês que segura uma faixa a dizer: “Nove em cada dez pessoas que nascem no ano da ovelha [cabra] têm vidas infelizes”.

A crítica deste cartoon é dirigida a uma antiga superstição chinesa, segundo a qual as crianças que nascem neste ano tornam-se seguidoras e não líderes. O desenho apareceu na capa do último número do semanário chinês Sátira e Humor, um jornal que publica cartoons e opinião sobre a esfera política e social chinesa.

No momento em que o mundo debate Charlie Hebdo e lamenta a fatura paga pela liberdade de expressão, as publicações chinesas parecem ausentar-se desta discussão, analisa o jornal estatal em língua inglesa Global Times.

Nas últimas décadas, a tiragem do Sátira e Humor teve uma queda de 90% e, hoje, é praticamente impossível encontrar esta publicação nas bancas.

Se nos anos 1980 o semanário tinha vendia cerca de 1,30 milhões de exemplares, hoje não ultrapassa os 80 mil, explica o editor da publicação, Xiao Cheng Sen. “Temos vergonha quando fazemos uma comparação com os nossos antecessores”.

A queda dos números do único jornal satírico da China é representativa da forma como o cartoon é hoje visto pelas autoridades de Pequim. O declínio da imprensa escrita e uma cultura que se opõe ao confronto e à sátira justificam os dias difíceis que este género está a passar no país.

 

CARTOONS TIVERAM ERA DOURADA

 

O Sátira e Humor foi fundado em 1979 pelo cartoonista Ying Tao como suplemento do jornal oficial Diário do Povo. O Bando dos Quatro – grupo que esteve por trás da Revolução Cultural (1966-76) – e fenómenos sociais considerados retrógrados eram alguns dos temas caricaturados pela publicação.

O nascimento deste suplemento marcou o início da era dourada dos cartoons políticos chineses. A Revolução Cultural tinha terminado e o trabalho de artistas – profissionais e amadores – entrava numa nova fase, escreve o Global Times.

Numa entrevista concedida à Associated Press em 1986, Ying Tao disse que o jornal recebia mais de cem trabalhos por dia de cartoonistas amadores que queriam ver os seus desenhos publicados.

A ânsia era sentida da mesma forma por parte dos leitores. Faziam-se filas para comprar o jornal, que desaparecia em poucas horas.

Também os cartoons editoriais viveram tempos áureos, com o lançamento em 1985 do jornal O Mundo dos Cartoons, em Xangai, e o Cartoon Mensal, na província de Hebei.

O editor do Sátira e Humor, Xiao Chengsen, trabalhava nessa época numa fábrica em Shenyang, capital da província de Liaoning. Todos os jornais do partido tinham uma coluna de cartoons, recorda.

Xiao começou por colaborar com esses jornais e o primeiro trabalho que publicou foi no Diário Yingkou. “Retratava um templo budista transformado numa loja kasaya e criticava a febre nacional com esse negócio naquela altura”.

 

CENSURADOS

 

Na década passada, o Mundo dos Cartoons e o Cartoon Mensal acabaram por se transformar em livros de banda desenhada. O mercado estava em mudança e a presença de cartoons diminuiu substancialmente nos jornais chineses – apenas 20% dos jornais publicam cartoons editorais com regularidade, diz Xiao.

A natureza crítica dos cartoons não era bem recebida pelas autoridades. Gouben, cartoonista profissional que colabora com vários jornais nacionais explica: “A essência de um cartoon político é a sátira. Os políticos na China estão habituados a elogios e aplausos. É natural que não tenham apetite pela sátira, especialmente em publicações para as quais olham como ferramentas de propaganda”.

Ao Global Times, Gouben recorda ainda que “alguns jornais pediam que membros das autoridades envolvidos em escândalos não fossem caricaturados. Nem podiam aparecer mais gordos do que aquilo que eram”, lembra.

O encerramento destas páginas de cartoons em vários jornais tornaram-se numa constante e a censura fez com que cartoonistas como Wang Liming tivessem de abandonar o país.

Os que ficaram, optaram por novas técnicas – como uso de metáforas – para fugir à caneta vermelha das autoridades. “Os nossos trabalhos são por vezes mais espirituosos, elegantes e provocantes que no ocidente”, explica Kuang Biao, antigo editor da secção de cartoons do jornal Southern Metropolis Daily.

 

RENASCER NA INTERNET

 

Na China, aqueles que trabalham na área dos média têm maioritariamente entre 20 e 30 anos. Já a idade de grande parte dos cartoonistas ativos varia entre os 40 e 50 anos. “Sem experiência de vida e experiência social, é difícil para os cartoonistas publicarem trabalhos políticos que tenham força e vigor”, diz Kuang Biao.

Mas, uma nova geração de cartoonistas políticos começa a ganhar voz nas redes sociais. Têm um estilo mais contemporâneo e fazem uso de novas técnicas digitais de desenho que lhes permitem dar uma resposta mais rápida aos acontecimentos. “Não estou preocupado com o futuro dos cartoons políticos da China. Artistas como Gouben, Dashixiong ou outros não são apenas ativos nos jornais mas, mais importante do que isso, estão nas redes sociais. Estão a assumir o nosso papel”, diz Kuang Biao ao Global Times.

Cartoonistas acreditam que são as redes sociais que vão salvar este género na China. E, de facto, o Weibo (equivalente ao Twitter) tem testemunhado o nascimento de novos formas de desenhar cartoons, como é o caso d`”As notícias dos carateres”, em que Wang Zuozhongyou desconstrói os carateres chineses, juntando radicais e desenhos.

Um dos trabalhos mais conhecidos do autor retrata o número 500 e no lugar dos dois zeros está um par de algemas – uma referência às novas regras estabelecidas para os bloggers que “podem ser condenados à prisão mediante a publicação de cartoons que contemplem informações falsas e sejam reproduzidos mais de 500 vezes”, explica o Global Times.

Entretanto, muitos dos trabalhos de Wang já foram censurados no Weibo e a sua página do WeChat, outra rede social chinesa, foi fechada no ano passado.

Ainda assim, “o espaço para a arte na Internet é muito maior e temos agora mais canais para publicar os nossos trabalhos”, considera o editor do Sátira e Humor Xiao Chengsen. “Nesta era, desde que os cartonistas tenham abertura de espírito e uma alma independente, podem encontrar meios onde colocar a sua energia”, conclui.

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