UM BRAÇO DE FERRO SEM FIM À VISTA - Plataforma Media

UM BRAÇO DE FERRO SEM FIM À VISTA

 

O movimento “Occupy Central” movimentou milhares de pessoas em Hong Kong, pressionando a China a desistir de pré-aprovar os candidatos a chefe do Executivo, nas eleições diretas em 2007. Após os confrontos com a polícia de choque – no domingo – o protesto manteve-se durante a semana na rua, mas a polícia não mais se fez sentir, evitando o risco de novos confrontos

 

“Aumentar a consciencialização da população”

O líder do movimento estudantil, Eason Chung Yi-wa, disse que o movimento pró-democrata visa “aumentar a consciencialização da população”, fazendo com que “cada vez maior número de pessoas se aperceba do que lhe corresponde: do seu direito de voto”, destacou o dirigente estudantil numa entrevista à agência Efe, junto ao palco improvisado instalado no centro do local de manifestação, perto da entrada da sede do Governo, em Admiralty.

Como um dos secretários-gerais da Federação de Estudantes, organização que apelou ao boicote às aulas e, posteriormente, à ocupação das ruas do centro da cidade, o jovem admite estar impressionado com a magnitude adquirida pelo movimento.

“Quando anunciámos o boicote não pensamos que teríamos uma resposta tão esmagadora”, admitiu o estudante universitário, manifestando-se mesmo emocionado com os acontecimentos que colocaram Hong Kong no centro mediático do mundo.

Eason Chung Yi-wa explicou também que o movimento começou com pequenos eventos e planos na universidade e acabou em confrontos com a polícia depois de os agentes antimotim terem tentado reprimir a manifestação, recorrendo a gás pimenta no início dos protestos. “Então todo o mundo se sentiu parte da nossa luta e começou a aumentar o número de pessoas que se juntaram”, explixou Eason Chung Yi-wa.

 

Desmond Tutu com duas medidas

O bispo sul-africano Prémio Nobel Desmond Tutu elogiou a coragem dos manifestantes em Hong Kong, mas foi também criticado por não defender o Dalai Lama, que foi pela terceira vez impedido de entrar na África do Sul. “Rezo para que as vozes do povo de Hong Kong não sejam sufocadas”, disse o vencedor do Prémio Nobal da Paz em 1984, acrescentando que reza também “por um governo justo e com compaixão em Pequim que não tenha medo da vontade do seu povo”.

Através de um comunicado divulgado na Cidade do Cabo, Desmond Tutu disse também que “usar bombas de gás lacrimogéneo contra os manifestantes, como aconteceu no domingo, foi um golpe terrível para todos aqueles que continuam a ter fé num processo de transformação digna, pacífica e integrando toda a gente”.

A tomada de posição a favor dos manifestantes que têm enchido as ruas de Hong Kong reclamando o fim da pré-escolha por Pequim dos candidatos às presidenciais de 2017 acontece na mesma altura em que o próprio Desmond Tutu é criticado, também por um Prémio Nobel, por não ter defendido do Dalai Lama, que foi pela terceira vez impedido de entrar na África do Sul.

Numa conferência de imprensa para assinalar os 25 anos do Prémio Nobel de Dalai Lama, na cidade indiana de Dharamsala, onde o líder espiritual reside, a Nobel iraniana Shirin Ebadi afirmou: “Estou muito surpreendida que Desmond Tutu se tenha mantido em silêncio desta vez. Estou surpreendida por ele não falar publicamente como o resto de nós”, disse a vencedora do Prémio Nobel da Paz, que juntamente com outros laureados, resolveu boicotar a cimeira de 13 a 15 de outubro na Cidade do Cabo por ter sido recusado o visto ao Dalai Lama para participar no encontro.

 

Ban Ki-moon pede solução “pacífica”

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, espera que se possam resolver de “forma pacífica” os conflitos surgidos nas manifestações dos últimos dias em Hong Kong, indicou o seu porta-voz.

Durante a conferência de imprensa diária na sede da ONU, o porta-voz, Stéphane Dujarric, comentou assim as manifestações pró-democracia e para exigir o sufrágio universal que decorrem na Região Administrativa Especial chinesa desde o fim-de-semana.

Segundo Dujarric, embora o secretário-geral da ONU considere que se trata de um assunto interno, espera que as partes resolvam as suas diferenças de “forma pacífica” e que sejam “salvaguardados os princípios democráticos”.

 

China “afasta” diplomatas estrangeiros

O Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros da China em Hong Kong endereçou uma carta a todos os consulados-gerais na Região Administrativa Especial, aconselhando os diplomatas a manterem-se afastados das manifestações pró-democracia em curso na cidade.

“A fim de garantir a segurança de todo os funcionários consulares e estrangeiros que vivem em Hong Kong, esperamos que todos os consulados-gerais em Hong Kong observem rigorosamente a Convenção de Viena sobre Relações Consulares e as leis locais relevantes e regulamentos de Hong Kong, refreiem os comportamentos dos seus funcionários e aconselhem os seus nacionais a ficarem longe dos locais de reunião do (movimento de protesto) ‘Occupy Central’”, lê-se na carta, publicada na íntegra pelo portal ‘Harbour Times’.

O documento adianta que “atualmente, alguns grupos radicais em Hong Kong protagonizam atividades de reunião ilegais e ‘ocupam Central’. Alguns atos de violência e infrações ocorreram como resultado. A polícia de Hong Kong está a lidar com a situação de acordo com a lei”.

O chefe da representação da Comissão Europeia em Hong Kong e Macau, Vincent Piket, e o cônsul de Portugal para Macau e Hong Kong, Vítor Sereno, confirmaram à agência Lusa terem recebido a carta.

O diplomata português indicou ter recebido a missiva, datada de domingo e dirigida a todas as entidades acreditadas em Hong Kong, na segunda-feira.

 

Relações com Taipé também em jogo

O governo de Taiwan expressou apoio aos manifestantes pró-democracia de Hong Kong e pediu tolerância à China sublinhando que o futuro das relações entre Pequim e Taipé vai depender da gestão da crise.

O primeiro-ministro de Taiwan, Jiang Yi-huah, disse que os valores da “liberdade e da democracia são universais” e que “o governo e o povo da República da China (Taiwan) apoiam o desejo de Hong Kong pelo exercício do sufrágio universal”.

A ministra da Educação do executivo de Taipé, Lung Yang-tai, disse também que as exigências dos manifestantes de Hong Kong são “humildes porque pedem um direito humano básico que já existe em Taiwan”, acrescentando que uma resposta positiva da China seria favorável para os laços com Pequim.

Durante uma reunião do Partido Nacionalista (Kuomintang) a meio da semana, Ma Ying-jeou disse que a China deve mostrar tolerância e confiança em relação ao sufrágio universal em Hong Kong e que os progressos no sentido da democracia na antiga colónia britânica só podem beneficiar as ligações entre Pequim e Taipé.

Taiwan segue de perto a evolução dos acontecimentos em Hong Kong marcados pelos protestos contra a decisão da China que não permite que o próximo chefe do Executivo da região administrativa especial seja eleito por sufrágio universal já que tenciona interferir na seleção dos candidatos.

Para muitos na ilha nacionalista, o modo como a China vai gerir a situação em Hong Kong vai ser visto como um sinal sobre os planos de Pequim em relação a Taiwan.

 

 

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