“Dear You”, realizado por Lan Hongchun, natural de Shantou, na província chinesa de Guangdong, continua a surpreender a indústria cinematográfica chinesa com uma ascensão impulsionada pelo passa-palavra e pelas críticas positivas do público.
O filme, produzido com um orçamento de pouco mais de 10 milhões de yuan (1,3 milhões de euros), estreou-se a 30 de abril com receitas inferiores a quatro milhões de yuan (505 mil euros) no primeiro dia, mas rapidamente ganhou popularidade. A produção já ultrapassou os 500 milhões de yuan (63,2 milhões de euros) em receitas de bilheteira e as plataformas especializadas Maoyan e Beacon preveem agora que o total possa superar mil milhões de yuan.
A obra foi apresentada a distribuidores internacionais e profissionais da indústria no Cannes Market Screening, realizado a 15 de maio durante o Festival de Cannes, numa altura em que o filme continua a ganhar notoriedade dentro e fora da China.
A história acompanha uma geração de emigrantes oriundos da região de Chaoshan – que engloba Chaozhou, Shantou e Jieyang – conhecidos pela forte presença das suas comunidades chinesas no estrangeiro. Ambientado entre as décadas de 1940 e 1970, o filme retrata a luta de emigrantes chineses na Tailândia, mantendo sempre a ligação emocional à terra natal.
Leia também: Filme sobre incêndios de Pedrógão Grande premiado em festival de cinema de Pequim
O enredo desenvolve-se em torno dos “qiaopi”, cartas e remessas enviadas por emigrantes chineses às famílias na China, arquivos reconhecidos pela UNESCO em 2013 como parte do programa Memória do Mundo.
O filme foi rodado em Guangdong e na Tailândia, contando com um elenco e equipa técnica maioritariamente oriundos da região de Chaoshan. Os diálogos são quase totalmente falados no dialeto chaoshan, algo raro na indústria cinematográfica chinesa.
A produção destaca-se também pelo recurso a atores sem experiência profissional. Em vez de contratar nomes conhecidos, a equipa passou nove meses à procura de intérpretes nas regiões onde se fala o dialeto chaoshan. Mais de mil candidatos foram avaliados até à escolha de Li Sitong, então estudante universitária de 20 anos sem qualquer experiência em representação, para o papel principal de Xie Nanzhi.
O objetivo era obter interpretações naturais e emocionalmente genuínas. segundo o realizador. “Queríamos que as emoções surgissem naturalmente, e não fossem construídas”, escreveu Lan Hongchun numa publicação nas redes sociais.

O cartaz do filme “Dear You” (Foto retirada do site South).
Muitos espetadores têm apontado precisamente essa autenticidade como um dos maiores trunfos do filme. “Tudo parecia simples e contido, mas as emoções surgiam de forma muito natural”, afirmou uma espetadora entrevistada pela televisão chinesa após assistir ao filme.
Outra espetadora confessou ter saído da sala em lágrimas, sublinhando que o filme a levou a refletir sobre a resiliência das mulheres, o apoio mútuo e a ligação emocional à família e às raízes culturais.
Na plataforma chinesa Douban, conhecida pelas avaliações exigentes dos utilizadores, “Dear You” alcançou uma classificação de 9,1 em 10, tornando-se o filme chinês mais bem classificado do ano até ao momento. Apenas três produções chinesas na última década estrearam acima da marca dos 9 pontos na plataforma.
O escritor e realizador Han Han recomendou publicamente o filme nas redes sociais, descrevendo-o como “fortemente recomendado” e manifestando esperança de que a obra ultrapasse os mil milhões de yuan em receitas.
Leia também: Festival de Cannes anuncia filmes em competição (com vídeo)
O sucesso começou sobretudo em Guangdong, responsável por cerca de 80% das primeiras receitas de bilheteira, devido à familiaridade do público local com o dialeto e a cultura chaoshan. Contudo, à medida que as críticas positivas se espalharam online, o filme conquistou espetadores de várias regiões da China.
“Sou do norte da China e não tive qualquer problema com a barreira linguística”, escreveu um utilizador na Douban. Outro espetador, oriundo da província interior de Sichuan e sem familiares emigrados, afirmou que assistir ao filme foi “como ver a lua nascer sobre o oceano”, acrescentando que sentiu a alegria e a tristeza da história como se fossem suas.
Para Lan Hongchun, o projeto nasceu após anos de recolha de histórias de famílias emigrantes durante a realização de um documentário sobre a gastronomia e a vida das comunidades chaoshan no Sudeste Asiático.
“Depois de ouvir tantas histórias, ‘Dear You’ começou simplesmente a ganhar forma”, explicou o realizador, descrevendo o filme como uma carta de amor dirigida às gerações de emigrantes que procuraram construir uma vida no estrangeiro sem perder a ligação às suas origens.
O crítico Yin Hong, vice-presidente da Associação de Cinema da China e professor da Universidade de Tsinghua, atribuiu o sucesso da obra à combinação de “um tema distintivo, emoções profundas, ritmo eficaz, narrativa convincente e produção disciplinada e eficiente”. O caso demonstra que fatores como autenticidade e qualidade narrativa podem superar a dependência de celebridades, grandes efeitos visuais ou propriedades intelectuais famosas, segundo Yin Hong.
O sucesso internacional também começa a ganhar forma. Durante a apresentação em Cannes, distribuidores estrangeiros demonstraram interesse em levar o filme para novos mercados. Um representante da distribuidora tailandesa SHINESAENG AD. revelou que muitos espetadores na Tailândia já manifestaram vontade de ver a obra nos cinemas locais.
As negociações para distribuição internacional continuam em curso, numa altura em que “Dear You” se afirma como um dos maiores fenómenos inesperados do cinema chinês em 2026.