Pan Shengwen é muito jovem, tem apenas 21 anos, mas passou os últimos quatro imersa nesta escrita ancestral, tornando-se uma das poucas pessoas vivas que a consegue ler e escrever fluentemente. A sua missão, diz à Lusa com determinação serena, é garantir que o mundo compreenda o “poder das mulheres” e levar a mensagem da igualdade de género a uma nova geração através dessa escrita que as mulheres criaram quando não tinham voz.
Nüshu significa “escrita de mulheres” em chinês, e é o único sistema de escrita exclusivamente feminino descoberto em qualquer parte do mundo, transmitido de geração em geração pelas mulheres do Condado de Jiangyong, uma região montanhosa e remota no sul da província de Hunan.
A história da Nüshu remonta a séculos, a uma época em que as mulheres chinesas não tinham acesso à educação formal. “As raparigas só podiam espreitar para dentro das salas de aula a partir do exterior, enquanto os rapazes aprendiam a escrever”, explica Pan.
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Esta circunstância foi determinante no desenvolvimento da escrita. “Quando se olha para os caracteres quadrados chineses de lado, eles assumem a forma de folhas de salgueiro”, são transformados quando vistos de determinado ângulo em formas delgadas e alongadas, descreve Pann.
“Não tinham tinta nem pincel, por isso usavam paus e cinzas, e escreviam em qualquer lugar, em leques, em tecido, em tudo o que conseguiam encontrar”, diz a jovem.
Numa era em que a educação era um privilégio masculino, a Nüshu tornou-se algo muito mais profundo do que mera comunicação. Era o “único refúgio espiritual” das mulheres, um domínio privado onde podiam explorar ideias, expressar emoções e conectar-se umas com as outras para além dos olhos vigilantes da sociedade patriarcal, explica ainda.
“Elas usavam a Nüshu para compor poesia, traduzir histórias e escrever cartas, canalizando talentos e aspirações através dela. Quando nenhum caminho lhes estava aberto, forjaram um novo”, diz.
“A criação e o uso da Nüshu incorporam os esforços das mulheres para garantir o direito à expressão num ambiente social extremamente desigual”, acrescenta.
A cultura da Nüshu incorpora um “espírito de solidariedade feminina” muito rico, sendo transmitida exclusivamente entre mães e filhas, e entre irmãs, no seio estrito da comunidade feminina.
“Na cultura Nüshu, sinto algo profundo, a tolerância, compreensão e admiração que as mulheres demonstram umas pelas outras”, reflete Pan. “Quer seja entre mães e filhas, irmãs, ou mesmo mulheres que nunca se conheceram, este apoio mútuo é incrivelmente poderoso”.
Esta irmandade foi essencial para a sobrevivência da Nüshu. As mulheres bordavam os caracteres em tecido, integrando-os nas suas vidas diárias, e quando uma mulher morria os seus escritos em Nüshu eram queimados.
Esta prática tradicional levou à quase extinção da escrita, cuja maior parte da sua história se perdeu no fogo e nas cinzas. Os trabalhos mais antigos que sobreviveram não podem ser datados com certeza.
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“Na época feudal, a Nüshu era uma cultura de sofrimento, uma forma de as mulheres expressarem a sua angústia interior”, explica Pan. “Mas na sociedade moderna, deve ser interpretada como uma cultura positiva e edificante”, acrescenta.
Pan Shengwen define o espírito da Nüshu como “cultura feminina” ou “feminista”, mais do que de resistência. “É suficientemente inclusiva e expansiva”, afirma. “Não está, de modo algum, limitado à resistência”.
A jovem acredita que as mulheres chinesas contemporâneas estão a demonstrar “crescente força e capacidade em todos os campos” e o que faz a Nüshu ressoar na nova era é a sua “vitalidade indomável”, descreve.

Xin Hu aprendeu a ler, escrever, cantar e bordar Nüshu. Foto: Xin Hu
Não obstante a sua idade, Pan fundou o “Projeto de Desenvolvimento de Arte Pública Nüshu” e lançou iniciativas de arte pública colaborativa em universidades e comunidades por toda a China. O projeto usa a expressão artística para angariar fundos que apoiam dois grupos de mulheres particulamente caros à jovem: mães que lutam contra o cancro e raparigas carenciadas em regiões montanhosas.
“Quando me sentia tentada a desistir, muitas raparigas do projeto diziam-me: `Estás a fazer um trabalho incrível, inspiraste-nos`”, conta à Lusa Pan Shengwen. “Esta força que nós, mulheres, damos umas às outras fez-me perceber que a Nüshu poderia tornar-se a minha missão de vida”.
Pan Shengwen estará este domingo, Dia Internacional da Mulher, em Macau, onde conduzirá o atelier “Nushu, aprender a escrever a linguagem das mulheres”, a que se seguirá a exibição do documentário “Caracteres insondáveis, a escrita feminina como acto de resistência”, de Violet Du Feng. Os eventos estão integrados no Script Road Festival, que decorre na cidade, no auditório da Casa Garden.