O chamado “Paracetamol Challenge”, que se tem vindo a espalhar pelas redes sociais, está a alarmar médicos e autoridades de saúde devido ao risco extremo que representa para a vida, sobretudo entre os mais jovens. A tendência consiste na ingestão deliberada de grandes quantidades de paracetamol, um dos medicamentos mais comuns e aparentemente inofensivos, numa lógica de competição ou desafio online, mas os especialistas alertam que esta prática pode provocar danos irreversíveis no fígado e conduzir à morte em poucos dias.
O paracetamol é amplamente utilizado para aliviar dores e reduzir a febre, estando presente na maioria das casas, o que contribui para a falsa perceção de segurança. No entanto, em doses elevadas, transforma-se num potente agente tóxico. Segundo revelou ao PLATAFORMA a médica de medicina interna Sofia Martins, “a dose máxima diária recomendada para um adulto é de 4 gramas, ou seja, 4.000 miligramas, e mesmo esse valor representa o limite absoluto de segurança. Ultrapassar essa quantidade, especialmente num curto espaço de tempo, pode causar uma hepatite tóxica grave, levando à falência hepática. Em situações extremas, a única hipótese de sobrevivência passa por um transplante de fígado, que nem sempre chega a tempo”.
“O aspeto mais perigoso deste desafio é o facto de os sintomas iniciais poderem ser pouco evidentes. Náuseas, vómitos ou um mal-estar ligeiro podem dar uma falsa sensação de controlo, enquanto o fígado está a ser rapidamente destruído. Horas ou dias depois, o quadro pode agravar-se de forma dramática, com hemorragias internas, confusão mental, coma e falência de vários órgãos. É uma morte silenciosa. Quando os sinais mais graves aparecem, muitas vezes já é tarde demais”, alerta a médica.
De acordo com a clínica, o risco aumenta ainda mais quando o paracetamol é ingerido em conjunto com álcool, uma associação frequente neste tipo de desafios: “O álcool potencia a toxicidade do medicamento, tornando doses relativamente próximas do limite diário em quantidades potencialmente letais. Casos de jovens saudáveis que chegaram ao hospital em estado crítico após este tipo de consumo já foram registados em vários países, reforçando a gravidade do fenómeno”.
Os profissionais de saúde defendem “uma resposta urgente das autoridades, das escolas e das plataformas digitais para travar a disseminação deste desafio”. Para os médicos, “não se trata de alarmismo, mas de um problema de saúde pública com consequências reais e fatais”. O apelo estende-se também “aos pais e encarregados de educação, para que estejam atentos aos comportamentos online dos mais novos e reforcem a mensagem de que nenhum desafio viral justifica colocar a vida em risco”.

