“Não faltam mercados, nem eventos culturais de grande escala, nas praças ou nos casinos espalhados pela cidade”, explicam os organizadores. Ainda assim, defendem que há uma lacuna numa cidade densamente povoada e com características muito próprias. “O que nos levou a criar este festival foi a comunidade, a partilha de habilidades, produtos, num espaço familiar de cooperação e apoio mútuo”, explicam os membros da direção do festival Ana Margarida, Vanessa Alves e Christian Pedruco, mais conhecido por Larry, ao PLATAFORMA.
A ideia não era apenas organizar um evento cultural, mas criar um ponto de encontro regular. O objetivo passa por reproduzir aquilo que descrevem como uma vida de bairro. “Somos um grupo pequeníssimo na escala da cidade em que escolhemos viver e o que mais sentimos falta é de espaço: um espaço físico, uma praça de bairro onde possamos soltar o cão e deixar as crianças brincar enquanto fazemos as compras da semana e pomos a conversa em dia com os amigos”.
O espaço acabou por surgir no jardim de chá da urban farm da vila de Coloane, que rapidamente se tornou o centro do projeto. A organização decidiu também afastar-se do centro urbano e desafiar os residentes a deslocarem-se até ao sul da cidade ao domingo. “Decidimos fugir do centro e desafiar toda a gente a ir até à Vila ao domingo: visitar a família, comprar pão, escolher verduras”.
Nós tínhamos a ideia do lado participativo, interativo e de aprendizagem e o lado da saúde e do self-care, mas feitas as contas, foi a comunidade que acabou por definir quase tudo
Segundo os promotores, a adesão confirmou a existência de interesse por propostas culturais mais participativas. “O que sentimos de facto durante o processo é que existe uma vontade de as pessoas se juntarem e partilharem os talentos e conhecimentos que têm”, afirmam, acrescentando que o festival permitiu “reconectar com a natureza, com a comunidade que temos e com nós mesmos”.
Sem retorno financeiro e sustentado essencialmente por voluntariado, o projeto mobilizou músicos, técnicos, artistas e colaboradores. “Foi um esforço necessário, sem retorno financeiro, que nunca foi o nosso objetivo, mas valeu muito pelo apoio que recebemos de toda a gente”, sublinham.
A curadoria privilegia artistas locais, pequenos negócios e práticas consideradas saudáveis. “Privilegiamos o local, as pequenas empresas, procuramos produtos saudáveis, eticamente selecionados e convidamos os talentos locais a participar.” Embora cada edição tenha partido de temas – animais, crianças, mulheres ou comunidade – os organizadores admitem que foi o próprio público a moldar o programa. “Nós tínhamos a ideia do lado participativo, interativo e de aprendizagem e o lado da saúde e do self-care, mas feitas as contas, foi a comunidade que acabou por definir quase tudo.”
Cooperação e apoio mútuo
O carácter colaborativo levou vários participantes a expandirem o papel inicial. “Abordámos a Renu do Yoga Life para uma aula de Bollywood e acabou também a fazer yoga para crianças e uma palestra sobre medicina ayurvédica. A Calista Chan começou com venda de vegetais orgânicos e acabou a dar aulas de gyrokinesis – trabalho corporal que possui uma sequência de movimentos que estimulam a coluna vertebral -, uma palestra sobre comer bem e workshops de caligrafia”.
Entre as principais dificuldades está a localização. Convencer o público a deslocar-se até Coloane revelou-se um desafio logístico. “Um dos nossos grandes desafios é a logística de lá chegar, convencer as pessoas a irem passar o seu domingo a Coloane, considerando o caos de transportes públicos”, referem. Como muitos residentes não possuem carro e a alternativa fluvial implica custos, a organização optou por manter o acesso gratuito, apesar das despesas. “Mantemos o acesso gratuito, dificultando a nossa missão de cobrir as despesas”.
O que nos levou a criar este festival foi a comunidade, a partilha de habilidades, produtos, num espaço familiar de cooperação e apoio mútuo
Apesar dos obstáculos, o grupo garante que o projeto terá continuidade. “Sentimos que agora não podemos parar”, afirmam, admitindo estudar integração digital e maior ligação à cidade. O objetivo é reforçar redes entre participantes e incentivar consumo local. “Consideramos que o comércio justo e apoio ao local é necessário, assim como a partilha e contato humano, a ligação com a natureza não pode ser esquecida”.
A ambição é crescer sem perder o espírito inicial. “Queremos exceder as expectativas, mas sabemos que precisamos de mais colaboradores para pôr em prática as tantas ideias e projetos que gostaríamos de concretizar”.



