A exposição nasce de uma relação profunda entre experiência sensorial, gesto e matéria. Sobre o momento em que uma sensação vivida na natureza se transforma em pintura, a artista afasta a ideia de um instante racional ou previamente definido. Esse momento acontece num estado de imersão total, em que sentir e fazer se confundem, num fluxo contínuo entre percepção e ação. A experiência não é traduzida quando está “pronta”, mas quando o corpo e a consciência estão plenamente envolvidos no processo, num estado próximo do flow, entendido como fusão entre ação, atenção e presença.
Esse modo de criação explica também a escolha consciente por um processo que valoriza o gesto, a textura e o acaso, mais do que a forma perfeita. Ao trabalhar a partir da abstração, Alice Costa afasta-se da representação figurativa da paisagem para se concentrar na expressão de estados internos. “Em vez de comunicar o que foi visto, busca-se comunicar como foi sentido”, explica ao PLATAFORMA.
Uma obra abstrata mais do que uma interpretação, convida a uma experiência. O desejo pode ser que o espetador tenha um encontro sensorial e emocional com a obra
A relação com a obra intensifica-se através do uso recorrente de materiais como areia e argila, muitas vezes trabalhados diretamente com as mãos. “Isso transforma o ato criativo numa experiência tátil e visceral, onde o corpo se torna parte integral da expressão. Pode-se pensar na respiração e no gesto como movimentos vivos e ritmados que dialogam com a matéria”, afirma Alice Costa.
Sentir antes de interpretar
Com uma carreira longa e exigente no campo do Direito, a pintura ocupa hoje um lugar central no equilíbrio pessoal de Alice Costa: “Hoje em dia, a pintura ocupa uma grande parte da minha vida, e através dela que expresso as minhas emoções, pensamentos, alegria, tristeza… e daí traz consigo um equilíbrio”, explica ao PLATAFORMA. A prática artística surge como um espaço de “reconexão consigo mesma” e com o mundo, funcionando como contraponto “com o ritmo acelerado do dia a dia”.
Perante a tela em branco, não existe uma hierarquia clara entre emoção, memória ou material, que “podem surgir juntas e se alimentar mutuamente no momento da criação”. A tela é entendida “menos como um vazio a ser preenchido e mais como um campo de possibilidades”. Nesse sentido, a artista pinta sentimentos, mais do que imagens concretas da paisagem.
As obras reunidas em FLOW convidam o público a sentir antes de interpretar, e Alice Costa sublinha que convida “os expectadores a sentir os meus trabalhos, porque cada qual pode interpretar da sua forma”, acrescentando que espera que descubram “algo que eu não vejo”. “Uma obra abstrata mais do que uma interpretação, convida a uma experiência.. O desejo pode ser que o espetador tenha um encontro sensorial e emocional com a obra, permitindo-se sentir suas texturas, ritmos e energias sem a pressão de ‘entender’ um significado único”, explica.
Pode-se pensar na respiração e no gesto como movimentos vivos e ritmados que dialogam com a matéria. Hoje em dia, a pintura ocupa uma grande parte da minha vida, e através dela que expresso as minhas emoções, pensamentos, alegria, tristeza… e daí traz consigo um equilíbrio
O grande formato apresentado logo na entrada da exposição constituiu um desafio determinante no seu percurso. “O quadro grande ensinou-me muita coisa, estendeu o meu grau de desafio e liberdade até ao máximo”, afirma. A escala da tela, aliada ao uso de “barro e bolas de argila”, conduziu a um processo de criação marcado por uma sensação ampliada de liberdade.
FLOW é também a primeira exposição individual de Alice Costa e assume uma dimensão solidária clara. A decisão de a dedicar à comunidade reflete a sua visão da arte como forma de diálogo e partilha. Como afirma, “arte pra mim é uma forma de diálogo, e fico muito grata de, através aquilo que gosto de fazer (pintar), poder contribuir pra aqueles que precisam”.


