O Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, afirmou, em junho, que o governo está a estudar a viabilidade de prolongar a Linha Leste do Metro Ligeiro desde o Posto Fronteiriço Qingmao até à zona d0 Fai Chi Kei e ao Parque Desportivo do Canídromo. Em julho, o Secretário para os Transportes e Obras Públicas, Raymond Tam, respondeu a interpelações orais na Assembleia Legislativa, referindo que, para estender o Metro Ligeiro a várias zonas da cidade, será inevitável que algumas secções passem a ser subterrâneas.
De acordo com a análise da Root Planning, uma associação local de planeamento urbano, existem apenas duas rotas possíveis em direção a sul para a Linha Leste do Metro Ligeiro a partir de Qingmao: Avenida do Comendador Ho Yin–Rua Norte do Patane (Linha Borja) ou Avenida do General Castelo Branco (Linha Branco).
A Linha Borja serviria principalmente a zona da Ilha Verde, com um raio de serviço de 500 metros, apenas três estações chegariam ao Mercado do Patane, tornando-se numa rota mais curta, explica a Root Planning. No entanto, serviria menos residentes e exigiria uma curva apertada perto de um complexo habitacional. Em contraste, a Linha Branco passa mais próxima do centro da cidade, cobrindo, num raio de 500 metros, zonas densamente povoadas como Toi San e San Kio. Como resultado, o impacto da construção seria bem maior. Esta linha é também mais longa, podendo exigir uma estação adicional, o que implicaria custos de construção mais elevados.
O benefício é que o impacto será imediato – em número de utilizadores, retorno financeiro e eficiência no transporte urbano. Mas, inevitavelmente, haverá muitas queixas durante a construção
Rhino Lam, urbanista
De acordo com a mesma associação, as duas linhas estão separadas, no seu ponto mais afastado, por cerca de 300 metros. Se ambas as rotas forem consideradas, “do ponto de vista do planeamento, uma solução razoável não é impossível: a Linha Borja pode seguir em linha reta até à Avenida de Horta e Costa, enquanto a Linha Branco pode descer do Mercado do Patane em direção à Barra”.
O urbanista e membro da Root Planning, Rhino Lam, explica ao PLATAFORMA que a atual rota do Metro Ligeiro continua a não servir as áreas residenciais tradicionais da península, e só formará um circuito quando a secção entre Qingmao e a Barra estiver concluída – pelo que a direção tomada pelo governo é compreensível. Mais sublinhou que, a sul de Qingmao, as únicas vias suficientemente largas são a Avenida do Comendador Ho Yin e a Avenida do General Castelo Branco, pelo que as opções de traçado são limitadas. Para Lam, o lado oeste de Macau, da Barra às Portas do Cerco, é o elo mais fraco da rede de transportes da cidade, e a procura só tende a aumentar: “Neste ambiente tão apertado, só posso dizer que esta pode ser a única solução numa situação impossível”.
O impasse da Linha Oeste



Lam explica que, devido à elevada densidade populacional da zona, a construção da Linha Noroeste terá inevitavelmente um grande impacto na vida quotidiana. “Vamos certamente ver ruas a serem abertas em secções, com encerramentos prolongados”, descrevendo a obra como “a segunda mais difícil depois da zona do Porto Interior”.
Raymond Tam disse, na Assembleia Legislativa, que o governo irá estudar a viabilidade de combinar a Linha Oeste do Metro Ligeiro com os projetos de prevenção de cheias. Para Lam, a secção do Porto Interior é afetada por essas obras, tornando imprevisível a data da sua conclusão. “Como o Secretário disse, temos de considerar a prevenção de cheias em conjunto, mas ainda não está decidido se usarão diques ou comportas. Esta questão passou da administração de Chui Sai On para a de Ho Iat Seng, e agora para a de Sam Hou Fai, mas ainda não há resolução”.
Na Taipa, as ruas são largas e, como os primeiros andares dos edifícios residenciais são maioritariamente parques de estacionamento, o impacto das vias elevadas do Metro Ligeiro na privacidade, ventilação e iluminação dos moradores é mínimo. Mas isso não se verifica nos bairros antigos da Península de Macau. “Toda a gente sabe que construir o Metro Ligeiro no subsolo é extremamente caro. Mas realmente, não há outra forma – não podemos reclamar mais terra no lado oeste como se fez com a nova zona urbana a leste”, explica Lam.
Assim, construir o Metro Ligeiro em comunidades densamente povoadas é uma faca de dois gumes: “O benefício é que o impacto será imediato – em número de utilizadores, retorno financeiro e eficiência no transporte urbano. Mas, inevitavelmente, haverá muitas queixas durante a construção”, alerta Lam, sublinhando que o governo deve envolver profundamente a comunidade. “Os residentes precisam de compreender o projeto. Os prazos de construção têm de ser precisos – se disserem aos moradores quando vai terminar, tem mesmo de terminar nessa data”.
Comunicar com todos
Embora a Linha Leste do Metro Ligeiro também seja subterrânea, a sua construção tem atualmente pouco impacto nos residentes porque decorre na Zona A, onde ainda não vivem pessoas, explica a deputada Ella Lei ao PLATAFORMA. Em contraste, a Linha Oeste passará por comunidades já estabelecidas, tornando as questões técnicas e de planeamento muito mais complexas. Na sua opinião, tanto o traçado como os custos do Metro Ligeiro devem ser estimados previamente. “Por exemplo, se o Metro Ligeiro formar um circuito, quanto irá melhorar a eficiência?”, questiona.
Ella Lei acredita que o governo irá estudar questões técnicas como a prevenção de cheias e espera que as autoridades possam explicar de forma mais clara as suas opções de planeamento, para que o público compreenda a lógica por trás dos projetos selecionados. “Quer seja o número de passageiros, opções de transbordo, custos de construção ou futuros custos de manutenção, deve haver mais informação disponível para que o público perceba que o plano escolhido pelo governo para o Porto Interior é, no geral, a melhor solução. Recomendo que o governo divulgue esses dados”, diz.
Acrescentou ainda que, estando as rotas do Metro Ligeiro em fase de estudo, o governo poderia considerar, em paralelo com as obras do Metro e de prevenção de cheias, a viabilidade de construir vias rápidas para autocarros públicos. “Por exemplo, na zona norte, os autocarros poderiam chegar mais rapidamente às zonas centro-sul, com ligação a outras áreas por via pedonal ou transbordo. Espero que o governo considere várias opções ao longo de todo o processo de planeamento urbano e de prevenção de cheias.” A deputada sugere também que o governo comunique de forma abrangente com todas as partes afetadas pelas obras nessas zonas.
No final do ano passado, o governo anunciou que iria lançar este ano uma revisão intercalar do “Plano Diretor de Transportes Terrestres de Macau (2021–2030)”. Rhino Lam explica que o plano não menciona com detalhe a futura rede do Metro Ligeiro, sendo necessária maior clareza nos documentos políticos. “Há outro documento que tem de ser muito claro: o Plano Diretor, que será revisto em 2027. Estas coisas podem ser feitas em conjunto. O Secretário Rosário também disse que haveria consulta sobre o traçado do Metro Ligeiro. Após a revisão da política de transportes terrestres e a consulta sobre o traçado, isso pode ser integrado no Plano Diretor”, conclui.