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Solidaridad

João Melo

Alguns católicos ainda me tentam convencer que a escolha do Papa segue um desígnio exclusivamente pastoral e resulta de “inspiração divina”. Se Deus inspira as escolhas, caramba, elas têm sido bem políticas…

Nos primeiros concílios os cardeais foram estabelecendo a estrutura da religião, e após a sua implantação no Império Romano o Vaticano exerceu durante séculos o chamado poder temporal, o sonho de muitos monarcas e ditadores. A meio dos anos 70 do século passado o mundo mudara bastante; despojada da influência de outrora, a Igreja que tradicionalmente resiste à mudança vivia um momento de crise. Ao fim de 33 dias de um pontificado que ameaçava expor a corrupção e ligações à máfia dentro do Vaticano, João Paulo I morre em circunstâncias misteriosas. De seguida o conclave elegeu João Paulo II, o primeiro Papa não italiano em quase 500 anos. Arrumou a casa, isto é, sanou os conflitos e escândalos que grassavam no interior da Igreja, reformando o edifício que dava sinais de apodrecimento. João Paulo II era jovem para o padrão papal, dedicando grande parte do seu pontificado a viajar e a estabelecer pontes com outras confissões religiosas. Ser de origem polaca contribuiu e legitimou o tentar deitar abaixo outro edifício apodrecido, o bloco de leste comunista. Afinal parece que Deus sabe imenso de política, e até atribuiu a um jovem uma missão para 11 anos. Depois veio Bento XVI e a opção decepcionou os católicos, porém compreendamos que Deus não é ingrato: a diocese alemã constitui-se como a segunda maior contribuinte mundial do Vaticano. Executada a indulgência Bento XVI foi arrumado na prateleira; Deus acelerou o tempo do tempo, e hoje torna-se vital agir célere para sobreviver. Veio Francisco, o primeiro Papa do continente americano, que deu voz aos simples, à justiça, etc, etc… Não fora esta escolha e teria sido a completa debandada dos pobres ávidos de crenças para as religiões evangélicas, tendência comum na América Latina onde os pastores enriquecem explorando as ovelhas que o Vaticano foi perdendo. Deus sabe segurar o seu rebanho. Entretanto, na última meia dúzia de anos o mundo deu uma valente cambalhota.

Não sou especialista neste assunto mas à posteriori ficou fácil descortinar o pensamento político de Deus: a Europa já não é o centro do mundo, a Ásia nunca se conquistou, África não interessa. Então hoje temos um Papa “jovem” que junta a indulgência à maior contribuinte mundial para o Vaticano, a diocese norte-americana, com uma missão a longo prazo. Isto significa que Deus tem um plano para os Estados Unidos. Se vivêssemos num mundo imutável a nacionalidade do Papa nem era tema, logo seria um italiano e pronto. Se Deus apenas tivesse desígnios pastorais e não interesses políticos talvez fosse altura de optar por um Papa africano, só que daí não vem renda, certo? “Temos pena, fica para a próxima”…

Robert Prevost foi superior geral da Ordem de Santo Agostinho, tal como Francisco tem experiência de América Latina, e consta ter adoptado o nome de Leão XIV para continuar o legado de Leão XIII, conhecido como o Papa dos trabalhadores, que na sua primeira encíclica advogou o “sindicalismo de base católica”. Portanto em perspectiva, o cardeal Wojtyła, futuro João Paulo II, bem podia ter escolhido o nome Leão XIV, mas quando o fez a questão era resolver problemas mais prementes dentro de casa. Enfim, o verdadeiro Leão XIV configura ser a resposta ao novo “anti-Cristo”, o deus da matéria e dos ricos, que até se via a si próprio a usurpar o cadeirão do Vaticano. Quem sabe se a missão do novo Papa inclui tentar deitar abaixo um edifício apodrecido, o “bloco do norte”, a América “branca-rica”? Visto ser limitado e não crente, para especular sobre o futuro fio-me menos em Deus e mais na repetição de padrões. Assim não me custa imaginar o transplante do conceito de “Solidarność” para “Solidaridad”, operando tanto desde o sul como sobretudo dentro do ventre do grande Satã.

Já quanto à missão espiritual de Leão XIV os desígnios divinos continuam insondáveis para mim. O cardeal Prevost parece uma pessoa inteligente, e se todos referem o legado de Leão XIII, eu lembrei-me foi de outro Leão, o décimo, que em missiva a um cardeal amigo escreveu “quão útil nos tem sido esta fábula de Cristo”. E sendo o norte-americano o primeiro Papa agostiniano, recordo-me de Santo Agostinho, bispo culto e também inteligente dos primeiros séculos do cristianismo ter escrito “não creria nos Evangelhos se a isso não fosse obrigado pela autoridade da Igreja”.

Se este Papa se mantiver vivo será interessante verificar qual o seu papel na transformação dos Estados Unidos… e da Igreja.

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