Separatismo em África tem tudo a ver com os legados coloniais - Plataforma Media

Separatismo em África tem tudo a ver com os legados coloniais

A conclusão está plasmada numa análise publicada na Deutsche Welle (DW) e ajuda na compreensão de fenómenos separatistas como, por exemplo, Cabinda, em Angola

Diversos movimentos secessionistas estão de volta à realidade do continente africano. Desde a Etiópia até Cabinda, em Nagola, passando pelos Camarões, são inúmeros os movimentos idependentistas que grassam por África, todos eles resultado de complicados processos de descolonização.

No enclave angolano de Cabinda, por exemplo, os interesses económicos desempenham um papel muito forte, principalmente quando falamos em independência. Cabinda será, certamente, senão a mais rica, uma das mais ricas províncias de Angola e isso tem um custo aos olhos de quem governa. O Estado angolano não está preparado para abrir mão de acesso a recursos, bem como ao poder de controlar esse acesso e à distribuição dos lucros.

Cabinda é um bom exemplo disso, sugere a análise da DW. A província pertence a Angola, mas é um enclave, separado geograficamente do resto do país pelo estuário do Congo, que pertence à República Democrática do Congo (RD Congo). Cabinda foi um protetorado português desde o Tratado de Simulambuco assinado a fevereiro de 1885. Uma situação historicamente mal resolvida que tem, principalmente depois da independência de Angola, criado problemas ao Governo angolano.

Na verdade, o enclave é responsável por 60% da produção petrolífera angolana. Os separatistas estão principalmente irritados com o fato de o governo central lucrar muito com isso. Desde os anos 2000, tem havido repetidos confrontos sangrentos e ataques dos separatistas, com resposta igualmente firme do exército angolano.

Cabinda

Diversos autores consideram que as raízes dos conflito remontam à era colonial. O historiador nigeriano Toyin Falola acredita que o colonialismo está na raiz de todos os movimentos separatistas na África. As potências coloniais europeias dividiram o continente entre si na Conferência de Berlim-Congo em 1894-95 e no final da Primeira Guerra Mundial e isso fez toda a diferença, defende. “Juntaram centenas de povos e nações que existiam antes em cerca de 50 países”, explicou o professor de História da Universidade do Texas à DW.

As estruturas existentes ou afiliações religiosas e étnicas não foram levadas em consideração pelas potências europeias.

Os dois primeiros exemplos de sepatismo, Ambazonia e West Togoland, surgiram devido a essas demarcações arbitrárias. Contudo, nem sempre é tão claro, explica Lotje de Vries, professor assistente da Universidade de Wageningen, na Holanda. Às vezes, simplesmente não é possível determinar exatamente quando uma área pertencia a quem e se as partes deveriam ou não ser entregues a outras forças. Zanzibar, na Tanzânia, ou a anteriormente falada Cabinda, em Angola, são exemplos disso.

Como co-editor do livro “Secession in African Politics”, de Vries foi confrontado com o desafio de como categorizar os vários movimentos separatistas na África, mas o seu editor não estava particularmente interessado nas origens históricas dos movimentos. Em vez disso, eles queriam examinar como os movimentos nasceram.

Ambazonia

Uma pedra no sapato dos Camarões

Após a I Guerra Mundial, a colónia alemã dos Camarões foi colocada sob domínio britânico e francês. Um referendo em 1961 selou o futuro dos Camarões britânicos: a região norte decidiu juntar-se à Nigéria, enquanto a região sul aspirava a tornar-se parte da República dos Camarões – a ex-colónia francesa.

Hoje, a população de língua inglesa dos Camarões está em minoria, e reclama de ser marginalizada em comparação com a maioria francesa. Essas tensões terão ajudado ao surgimento do violento conflito da Crise Anglófona, que, desde 2016, resultou em mais de 3000 mortes e 500 mil deslocados.

Tanto o exército quanto os separatistas foram acusados ​​de graves violações de direitos humanos. Há três anos, as duas províncias de língua inglesa no oeste declararam simbolicamente a sua independência e proclamaram a “República de Ambazonia“.

Para o académico de Vries, o movimento ambazoniano leva muito a sério a busca pela independência, uma vez que, considera, “é a identidade de sua população que está em jogo”.

Togolândia Ocidental

I Guerra Mundial também tramou o Gana

Existem paralelos históricos entre as origens dos movimentos separatistas nos Camarões e no Gana. Após a I Guerra Mundial, a ex-colónia alemã do Togo foi dividida entre a Grã-Bretanha no oeste e a França no leste. A parte britânica finalmente fundiu-se com o Gana moderno.

No final do passado mês de setembro, tensões no leste de Gana, ou no oeste de Togolândia, explodiram mais uma vez e os separatistas declararam o território um estado soberano. Já tinham ocorrido tentativas anteriores, principalmente no início de 2017. O que acontece, de acordo com analistas, é que um segmento da população local sente que não é “adequadamente representado” pelo governo do Gana.

Esta região, Togolândia Ocidental, faz parte da Organização das Nações e Povos Não Representados (UNPO), que representa os interesses daqueles que não são reconhecidos como estados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Biafra

Um estranho caso chamado Biafra

Em alguns conflitos, a forma como os estados lidaram com o seu legado colonial após a independência também desempenha um papel no surgimento de movimentos separatistas.

Um exemplo disso é a região de Biafra, no sudeste da Nigéria. Poucos anos após a independência, eclodiu uma guerra civil (1967-1970), que se estima ter matado entre 500 mil a três milhões de pessoas.

De acordo com o nigeriano Falola, isso foi causado principalmente pela forma como a estrutura federal foi implementada na Nigéria na década de 1960, ou simplesmente pela “má gestão pós-colonial”. Uma questão chave enfrentada pelo governo era como distribuir poder e receitas dentro do estado. “Sempre que se centraliza algo demais, surgem novas crises subordinadas”, defende Falola. “Não se pode centralizar muito sem marginalizar alguém.”

Os sentimentos separatistas continuaram a explodir repetidamente no sudeste. “As condições que levaram à existência do Biafra ainda persistem”, diz Falola.

No entanto, de Vries coloca o Biafra numa categoria diferente: “a de casos em que a ameaça de secessão é vista como um meio de exercer pressão para ser ouvido e ganhar peso político”.

O paraíso em Zanzibar

Ao longo da história, o arquipélago de Zanzibar, na Tanzânia, esteve sob o domínio de várias potências. Portugal foi o primeiro país a exercer influência colonial no território, seguido do Sultanato de Omã e, por fim, da Grã-Bretanha. Por um tempo, Zanzibar também foi um sultanato independente.

Depois de se tornar independente da Grã-Bretanha, ocorreu uma revolução em 1964. Alguns meses depois, Zanzibar fundiu-se com Tanganica para formar a República Unida da Tanzânia, e assim permanece até hoje.

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