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O que é o Ano Novo Chinês? Origens e Tradições

Todos os anos, entre o final de janeiro e meados de fevereiro, milhões de famílias na China e em todo o mundo celebram o Ano Novo Chinês, também conhecido como Ano Novo Lunar ou Festival da Primavera. Com mais de 3.500 anos de história, esta festividade combina mitologia antiga, tradição imperial e reuniões familiares modernas, constituindo o feriado mais importante do calendário chinês.

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O Ano Novo Chinês, igualmente designado Ano Novo Lunar ou Festival da Primavera, continua a ser uma das celebrações tradicionais mais relevantes da China, com raízes que remontam aos rituais agrícolas da Dinastia Shang (c. 1600–1046 a.C.), há cerca de 3.500 anos.

Enraizada no antigo calendário lunar e moldada pelas sucessivas dinastias, a celebração funde mito, ritual, reunião familiar e identidade nacional numa festividade de 15 dias que continua a definir o calendário cultural da China e das comunidades chinesas em todo o mundo.

Embora a China tenha adotado oficialmente o calendário gregoriano em 1912, estabelecendo o 1 de janeiro como início do ano civil, o Ano Novo Lunar manteve-se como a mais significativa tradição festiva do país.

Do Ciclo Lunar à Ordem Imperial

Agricultores trabalham nos campos, numa ilustração que retrata a vida agrária na China dinástica antiga, refletindo os ritmos agrícolas que moldaram as origens do Ano Novo Lunar. (Ilustração da Academy of Chinese Studies)

As primeiras formas registadas do calendário lunar chinês datam do século XIV a.C., durante o reinado da Dinastia Shang. O calendário não funcionava apenas como sistema de medição do tempo, mas também como guia para acontecimentos religiosos, políticos e sociais. A sua estrutura evoluiu de acordo com o poder dinástico, alinhando as fases da lua com os solstícios e equinócios solares.

Tradicionalmente, o Ano Novo tem início na lua nova que ocorre entre o final de janeiro e o final de fevereiro e termina 15 dias depois, na lua cheia, assinalada pelo Festival das Lanternas.

Numa civilização moldada durante séculos pela agricultura, a celebração marcava o fim do inverno e o início da primavera – um momento em que os agricultores interrompiam o trabalho, limpavam as casas e os campos e preparavam a plantação das novas culturas.

Durante a Dinastia Zhou (1046–256 a.C.), tornou-se costume oferecer sacrifícios aos antepassados e às divindades na transição do ano, procurando bênçãos para as colheitas e prosperidade futura. Já na Dinastia Han (202 a.C.–220 d.C.), o Calendário Taichu do Imperador Wu (104 a.C.) normalizou o calendário lunar, estabelecendo o primeiro dia do primeiro mês lunar como início oficial do Ano Novo – uma data que corresponde ao período entre o final de janeiro e meados de fevereiro no calendário gregoriano.

A Lenda de Nian e a cor Vermelha

Uma criança acende panchões – cartucho de pólvora, revestido por papel vermelho – para afastar a criatura mítica Nian durante as celebrações do Ano Novo Lunar. Ilustração

Um dos mitos mais duradouros associados à festividade é o de Nian Shou (“Besta do Ano”), uma criatura que surgia na véspera do Ano Novo para devorar gado, colheitas e até aldeões.

Segundo a lenda, um misterioso ancião revelou que a criatura temia a cor vermelha e os ruídos fortes. Os habitantes passaram então a decorar as casas com lanternas vermelhas, vestir roupas dessa cor e a queimar bambu – uma forma primitiva de fogo de artifício – para afastar o monstro. A criatura nunca mais regressou, e a tradição manteve-se.

Curiosamente, “Nian” (Ano) representava originalmente uma pessoa a transportar cereal maduro na escrita em ossos oraculares, significando “colheita”, um conceito naturalmente ligado ao ciclo agrícola anual. A lenda popular da besta Nian terá surgido posteriormente, associando retroativamente a palavra “ano” a uma criatura mítica que simbolizava os perigos da transição sazonal.

Do Ritual à Festa

Pessoas acendem panchões (cartucho de pólvora, revestido por papel vermelho) durante as celebrações do Ano Novo Chinês em Macau, a 26 de janeiro de 2023. (Foto de Eduardo Leal / AFP)

Durante as dinastias Wei e Jin (220–420), a celebração do Ano Novo evoluiu gradualmente de ritual solene para encontro social. As famílias limpavam as casas, partilhavam refeições elaboradas e permaneciam acordadas até tarde para receber o novo ano.

Nas dinastias Tang, Song e Qing, os costumes tornaram-se cada vez mais semelhantes às práticas atuais. Fogo de artifício, visitas familiares, consumo de bolinhos e espetáculos públicos como as danças do dragão e do leão tornaram-se comuns. Durante estes períodos, a festividade era conhecida como “Yuandan” ou simplesmente Ano Novo. Apenas no início do século XX foi oficialmente designada “Festival da Primavera”, para a distinguir do Ano Novo gregoriano.

Tradições do Ano-Novo Chinês que Perduram

Chinese New Year

Um vendedor organiza artigos de decoração para o Ano Novo Chinês junto ao Jardim Yuyuan, na sua loja em Xangai, a 21 de janeiro de 2026. (Foto de Hector RETAMAL / AFP)

Apesar da introdução de práticas modernas, como festivais de compras online e galas televisivas transmitidas a nível nacional, muitas tradições centrais mantêm-se inalteradas. Lanternas vermelhas, vestuário vermelho e fogo de artifício têm origem na lenda de Nian. O vermelho está amplamente associado à boa sorte e à proteção contra infortúnios.

Uma explicação popular associa os envelopes vermelhos a uma história sobre afastar um espírito maligno chamado Sui (祟). A expressão “yasui qian” (dinheiro para suprimir Sui) teria evoluído foneticamente para “yasui qian” (dinheiro do Ano Novo). No entanto, registos históricos indicam que o costume resultou gradualmente de práticas mais antigas de oferta de moedas protetoras.

Na véspera do Ano Novo, as famílias alargadas reúnem-se para um jantar de reunião. O peixe é tradicionalmente servido como último prato, simbolizando abundância, sendo muitas vezes deixado por comer para representar excedente no ano seguinte. Os noodles compridos, consumidos nos primeiros dias da festividade, simbolizam longevidade. No décimo quinto dia, as famílias partilham bolinhas doces de arroz glutinoso durante o Festival das Lanternas, representando união e plenitude – embora os costumes variem de região para região.

A preparação para o Ano Novo começa com uma limpeza profunda das casas, destinada a afastar o azar do ano anterior. As portas são decoradas com dísticos auspiciosos e podem ser feitas oferendas aos antepassados.

Embora o formato da celebração tenha evoluído ao longo dos séculos, influenciado por mudanças dinásticas, políticas e económicas, os valores centrais de renovação, união familiar e esperança de prosperidade mantêm-se intactos.

Mais do que uma simples festividade, o Ano Novo Lunar continua a funcionar como âncora cultural, ligando a China contemporânea ao seu passado milenar e reforçando a importância duradoura da família, da tradição e da memória coletiva.

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