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Às portas da China, católicos em Macau assistem fiéis do outro lado da fronteira

A igreja católica em Macau continua a atrair fiéis do interior da China e para a ordem religiosa comboniana o território é o “ponto de partida” para entrar no país, quando este “se abrir” ao trabalho dos missionários.

Enquanto não consegue entrar no interior da China, a congregação religiosa dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus vai fazendo trabalho em Macau, região onde se fixou há três décadas.

Carlos Malásquez Quispe, peruano de Lima, é o pároco responsável pela igreja São José do Operário, no Iao Hon, bairro localizado na zona mais pobre e com maior densidade populacional de Macau, mesmo às portas da China.

A igreja, um edifício contemporâneo projetado no final dos anos 1990 pelo arquiteto português Luís Nagy, está cercada por velhas construções. Tudo à volta acusa a passagem do tempo. A fachada, virada para a fronteira que separa Macau da cidade vizinha Zhuhai, tem a forma de dois braços abertos, como se simulasse um abraço de boas-vindas a quem vive do outro lado.

E é esse o desígnio dos combonianos, nota Malásquez Quispe: “O nosso objetivo não era necessariamente ficar aqui em Macau, estamos a apontar para a China continental, por isso, este é apenas um ponto de partida (…). Se a China se abrir, e se permitirem a entrada de missionários, iremos imediatamente e procuraremos as áreas mais pobres, as áreas rurais para fazer o nosso serviço”.

Em 1951, já com o regime comunista de Mao Zedong no poder, a excomunhão dos bispos designados por Pequim pelo papa Pio XII levou a China e o Vaticano a cortaram relações diplomáticas. A China estabeleceu então a Associação Patriótica Católica Chinesa, levando os fiéis a terem de optar entre esta, com bispos nomeados pelo regime, ou a Igreja Católica, leal ao papa, então na clandestinidade.

Nos últimos anos, deu-se uma aproximação dos dois lados, com a assinatura de um acordo para a nomeação de bispos. Estima-se que existam cerca de 12 milhões de católicos no país.

No entanto, testemunhos de quem chega do outro lado para assistir ao serviço religioso da São José do Operário dão conta de um controlo apertado das autoridades.

“Há uns dias, tivemos uns visitantes do interior da China a partilhar a experiência de como o Governo controla cada vez mais e mais o que está a acontecer e o que é dito no seio da igreja, e mencionaram algo que já sabíamos há alguns anos, que é a política de não deixar entrar menores na igreja e frequentar as escolas dominicais”, conta o pároco.

O interesse em assistir à missa numa “Igreja Católica verdadeira”, salienta o religioso, tem trazido até Macau vários fiéis chineses. De momento, a São José do Operário é uma das poucas igrejas da região administrativa especial a disponibilizar serviço em mandarim. A outra é a igreja da Nossa Senhora de Fátima, também na zona norte da península.

“Um senhor que cá veio sente que a Igreja aqui em Macau é católica, é oficialmente católica e não controlada”, observa Carlos Malásquez Quispe, sem conseguir precisar quantos membros daquela paróquia são oriundos do interior da China.

“Uma das coisas que me surpreendeu também e que eles [os fiéis] mencionaram é que mesmo quando se dá a comunhão na missa, o padre não pode dizer as palavras ‘o corpo de Cristo’”, acrescenta o religioso.

Apesar de a ordem comboniana estar circunscrita a este fragmento do território chinês, existe um vínculo já estabelecido com os religiosos do outro lado da fronteira, através do projeto Fen Xiang (FX) – significa ‘partilhar’ em chinês – que “visa lançar as bases para a presença dos combonianos no contexto chinês”, de acordo com a página na internet da congregação, fundada na cidade italiana de Verona, em 1867, e presente em 42 países.

“O FX abriu diferentes frentes e espaços na colaboração com a Igreja na China, tanto com a comunidade clandestina, como com a pública”, lê-se.

Neste sentido, Macau tem sido uma espécie de base de apoio, ao receber, através de um programa organizado pela diocese local, pessoas do interior da China “para terem formação espiritual e catequética”.

“É uma ajuda, é também uma forma de eles sentirem que estamos ligados, de conhecermos a realidade em que vivem e de ajudarmos da forma que podemos”, explica.

Malásquez Quispe conta, além disso, que através destes grupos de religiosos é possível “enviar alguma ajuda económica para lugares em necessidade”.

“Essa é outra dificuldade que temos que é, a partir daqui, enviar dinheiro para a China continental. Tem sido difícil, porque há alguns orfanatos e leprosarias que não conseguimos ajudar durante este período”, declara, referindo-se aos quase três anos de pandemia da covid-19 em que foram impostas restrições fronteiriças.

No que diz respeito à missão local, refere o peruano, a comunidade católica está a crescer “devagar e continuamente”, com cerca de 140 batismos realizados no ano passado.

Segundo estatísticas da Diocese de Macau, até ao fim de 2020, o número de católicos no território era de 32.013, sendo a maioria membros da comunidade chinesa.

Já uma das maiores adversidades da região são as “barreiras construídas, conscientemente ou não, na sociedade de Macau”. Malásquez Quispe explica que, “por questões de segurança”, a entrada em cada vez mais edifícios residenciais do território obriga ao registo de visitantes, o que acaba por ser um obstáculo ao trabalho missionário.

“Isso vem aumentar um pouco mais o isolamento das pessoas (…), que já vivem num sitio pequeno, Macau”, diz.

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