Um novo McCarthismo? - VÍDEO

O senador norte-americano Joseph McCarthy ganhou fama não pelas melhores razões. Por volta de 1950 liderou a campanha anticomunista nos Estados Unidos, num movimento de verdadeira caça às bruxas. A paranóia e perseguição de elementos alegadamente subversivos com ligações reais ou imaginárias à União Soviética ou ao ideário comunista levou a acusações de espionagem, invasão de privacidade e vidas destruídas de intelectuais, artistas, membros do governo ou do exército.

O McCarthismo passou a ser sinónimo de estigma, limitação de direitos civis e anticomunismo primário em nome de um suposto patriotismo. Quase sete décadas volvidas, o vento que sopra dos Estados Unidos contém algumas semelhanças, agora sob a forma de "McCarthismo tecnológico", tendo a Huawei, a China e, no limite, cidadãos chineses a residir nos EUA, como alvos.

Autoridades, think tanks e políticos convergem na narrativa que coloca não apenas o gigante chinês das telecomunicações no banco dos réus da opinião pública, mas que lança suspeita sobre os mais variados laços sociais, culturais, profissionais ou académicos envolvendo entidades da China ou até mesmo indivíduos. O documento da Hoover Institution publicado no final de Novembro do ano passado - poucos dias antes da detenção da diretora financeira da Huawei e em plena "guerra" comercial - reflete um caminho perigoso em que se misturam preocupações legítimas com um princípio de total desconfiança pouco fundamentado face à China. A politização de todo o tipo de relacionamento com a China intoxica o ambiente, comporta enormes riscos e denota irresponsabilidade, invertendo o rumo de décadas de intercâmbio e construção de pontes. A Administração Donald Trump indica assim estar empenhada em destruir pontes e construir muros, exportando para fora de portas - aliados na Europa e na Ásia Pacífico - a agenda que tem na mira o poderio tecnológico chinês.

A emergência da China e a forma mais assertiva como tem conduzido a política externa geram ansiedade, preocupações e receios. E Pequim tem de fazer mais e melhor ao nível dos direitos de prioridade intelectual e da transparência das grandes empresas estatais e não estatais. É certo também que a detenção de canadianos na China continental num movimento de aparente retaliação ao caso Meng Wanzhou não ajuda.

Todavia, a histeria anti-China que se alastra nos EUA e em alguns dos seus aliados acorda velhos fantasmas e lança nuvens negras sobre a paz e a segurança internacional. A besta do nacionalismo e da intolerância alimenta-se deste veneno. É preciso encontrar o antídoto.

Relacionadas

Exclusivos