Razão e vontade - VÍDEO

Eric Hobsbawm foi um dos mais argutos historiadores do século XX. Em a "A Era dos Extremos", olhou para os desastres causados pelas experiências do nacionalismo militarista, socialismo de estado e capitalismo selvagem. O "breve século XX" de que fala no livro é balizado entre o início da I Guerra Mundial e o fim da União Soviética, seguindo-se a um "longo século XIX". Hobsbawm refletia também sobre falhanços crassos das previsões de políticos e intelectuais. Todas as "bolas de cristal" são demasiado embaciadas para projetar com clarividência o futuro. Ainda assim arriscava que o mundo no terceiro milénio continuaria a ser marcado por mudanças políticas violentas, alertando que a humanidade só teria futuro se este não fosse um prolongamento das práticas do passado e presente.

Chegamos a 2019 com a sensação de terreno movediço, em transição para uma nova "Pax" ainda por ganhar forma. Os dilemas de segurança amplificados poderão tornar-se em perigosas profecias que se cumprem a si mesmo - a paranoia mútua em torno da inevitabilidade do conflito torna-se ela mesma fonte da História vertida em tragédia. A belicosidade da linguagem que impera nas redes sociais transmutada em discurso de líderes políticos forma um cocktail explosivo de populismo, nacionalismo, polarização do espaço público e corrosão da racionalidade e sentido de proporcionalidade. É como se estivéssemos perante uma tempestade perfeita de negacionismo sobre as alterações climáticas, autoritarismo, protecionismo e "guerras comerciais", nova guerra fria tecnológica, instituições multilaterais em declínio, aumento contínuo das desigualdades sociais e fracasso de soluções preconizadas por grandes narrativas do século XX. Terá o último quarto de século sido um interlúdio entre duas Eras de Extremos? Será a história cíclica? Ou como defende Steven Pinker no recente livro Enlighnment Now tomamos facilmente o todo pela parte? Absorvidos pela volúpia e dramatismo da sociedade da informação, não vislumbramos que vivemos tempos de baixa frequência de conflitos armados e progresso científico e tecnológico que nos tem permitido continuar a aumentar a esperança de vida? Na dúvida, resta-nos contemplar o copo (ano 2019) meio vazio/meio cheio que temos pela frente, opondo o otimismo da vontade ao pessimismo da razão.

Bom 2019!

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