Não é pedir muito

A cultura tradicional chinesa nutre um especial respeito pelos idosos. Desde logo o conceito de velho (老) tem uma conotação com uma ideia de honorabilidade e sabedoria. A piedade filial (孝) é, aliás, uma virtude absolutamente central no sistema de valores do Confucionismo. Em Macau vemos isso através das redes de solidariedade inter-geracional nas famílias e de várias sinais ritualísticos em diversas situações sociais.
Todavia para garantir a dignidade e qualidade de vida dos nossos cidadãos seniores é necessário colocar em prática um conjunto de políticas que possam, de forma consistente e efetiva, responder aos vários desafios colocados pelo envelhecimento da população. Os idosos (cidadãos com mais de 65 anos) já representam 11 por cento do total da população, uma tendência que se irá acentuar e que poderá chegar a 20 por cento do total de residentes em 2036, segundo estimativas. Naturalmente que o aumento contínuo da esperança média de vida (83 anos) é um reflexo de progresso e bem estar. No entanto, a insuficiência das respostas desenha um sério problema para a cidade no médio e longo prazos. Se por um lado foram dados passos importantes no acesso gratuito a cuidados de saúde e medicamentos, é notória a escassez de profissionais para cuidar de idosos. Face à insuficiência dentro de portas, urge importar mão-de-obra qualificada. Mas isso não chega. Precisamos de mais e melhores infraestruturas. A abertura do hospital de reabilitação de Ka Hó constitui um passo em frente, mas serão necessários outros de forma mais rápida de modo a acompanhar o envelhecimento acelerado da população. Isto implica uma abordagem integrada que já vem, parcialmente, desenhada no Plano de Ação para o Desenvolvimento dos Serviços de Apoio a Idosos.
Paralelamente, o plano de apoio anunciado este mês pelo Governo para empresas que criem postos de trabalho para idosos terá certamente a melhor das intenções. Todavia não esconde uma realidade que sobressai no trabalho que publicamos na edição desta semana: trabalhar não é uma opção para muitos idosos, é uma necessidade. São demasiado velhos para trabalhar e demasiado pobres para se reformarem. Deparamo-nos com essa realidade no nosso quotidiano. Há que repensar o sistema numa perspectiva sustentável de reforço da solidariedade inter-geracional e de um aumento do contributo de todos: empresas, trabalhadores em idade ativa e sobretudo de um Governo que nada em recursos financeiros. Não é pedir muito.

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