O ensino superior e o e-Learning em Macau

O que é o e-learning (Ensino electrónico)?

É hoje consensual que o e-learning configura uma mudança de paradigma no ensino e na formação profissional, resultante da transformação da sociedade planetária que vivencia uma das revoluções tecnológicas mais radicais da sua história. Trata-se de uma modalidade de aprendizagem interativa e a distância que usa tecnologias multimédia e da internet, cujos recursos didáticos são apresentados em diferentes suportes, e em que, caso exista um formador, a comunicação se efetua de forma síncrona (em tempo real) ou assíncrona (com horário flexível). Tal transformação coloca inúmeros desafios aos responsáveis pelas políticas educativas, bem como aos professores - desde o repensar da pedagogia, passando pela capacitação na utilização de recursos informáticos, até à reflexão sobre o modelo de reestruturação do ato educativo, para que possam responder aos desafios tecnológicos e sociais que vivenciamos.

A existência de licenciaturas, mestrados e até doutoramentos via e-learning é exemplo da adaptação ao perfil de alunos com percursos profissionais firmados, mas motivados para a consolidação de saberes nas suas áreas de eleição em ambiente de ensino virtual.

Uma das virtudes do e-learning é a dinâmica de networking (o primado da interação) que permite experiências colaborativas ricas em diversidade e especificidade trazidas ao grupo por cada um dos estudantes, enquanto portador de conhecimento, competências e capital inteligente acumulado, decorrente do seu background e experiência profissional. Diríamos que o ensino e-learning se trata de um "projeto empresarial" de conhecimento entre atores do mundo do trabalho que optaram por fazer um upgrade das suas competências científicas e profissionais em dinâmicas de aprendizagem mais consentâneas com os ritmos do mundo real do trabalho.

Outra das virtudes deste tipo de ensino é permitir aos alunos flexibilidade na gestão do tempo (o primado da flexibilidade) para seguirem diferentes percursos de aprendizagem de acordo com o seu ritmo de trabalho, constrangimentos profissionais, familiares e até geográficos. Outra vantagem ainda é a economia na relação custo-benefício (o primado da economia de recursos): economia do tempo de deslocação para o local de ensino, utilização das novas tecnologias a custo reduzido, auto e hetero controlo e avaliação da produtividade individual e do grupo.

Atualmente as sociedades económica e tecnologicamente avançadas utilizam o e-learning (instituições académicas, governos, empresas e a sociedade civil em geral) para diferentes fins. A abordagem ao e-learning nos citados contextos difere substancialmente da educação formal; historicamente, esta é organizada em temas ou unidades curriculares independentes. Ao invés, muitos cursos e-learning baseiam-se em unidades de conteúdo, conhecidas como objetos de aprendizagem. Ao estruturar o conteúdo da aprendizagem em blocos comuns que podem ser remontados e personalizados de acordo com contextos particulares e necessidades do aluno, o propósito é incentivar a reutilização de elementos comuns, diminuir custos, simplificar a criação de conteúdos e melhorar a qualidade. Os pressupostos baseiam-se no facto de os sistemas de e-learning permitirem a reutilização de conteúdos sem comprometer o contexto e os temas, sempre que um aluno percorra vários módulos ou disciplinas.

O e-learning e o novo perfil de sociedade-aluno

Quando avaliamos o interesse e oportunidade do e-learning no ensino superior, levamos em conta o perfil e caraterísticas do aprendente contemporâneo e do ambiente tecnológico em que se move - e este é transversal a todas as faixas etárias .

Como escrevi noutro lugar, "Independentemente das diferentes sensibilidades dos diferentes discursos sobre a importância das novas tecnologias na Escola [formal], é consensual entre gestores, educadores, políticos e pais que os programas curriculares de ensino e as práticas escolares actuais não oferecem as necessárias competências aos alunos que lhes permitam estar preparados para enfrentar os desafios do séc. XXI". Já de acordo com o The CEO Fórum on Education and Technology, 2000, "apenas 30% dos professores facilita e ajuda a utilizar a Internet na investigação dos alunos, apenas 27% a utiliza para resolver problemas ou analisar dados e, finalmente, um pequeno grupo de 16% de professores emprega estes instrumentos para planear as suas lições."

Ora o aluno atual é um utilizador experiente das novas tecnologias e gasta parte significativa do seu tempo com redes sociais; é tecnologicamente curioso e ávido de novidades. Por outro lado, os vários dispositivos móveis que manipula dão-lhe a possibilidade de aprender coisas novas quando e onde quiser, pelo que a aprendizagem móvel é apreciada e pertence ao quotidiano deste aluno. Acresce que é independente e gosta de ter voz no que aprende. Isto explica porque elege modalidades de aprendizagem tecnológica, uma vez que participa no processo e está motivado para encontrar conhecimento e alcançar os seus objetivos. Se este modelo de ensino-aprendizagem atrai jovens, mais significativamente o fará com adultos com background e experiência profissional, motivados para a autoformação.

Neste sentido, o e-learning tenderá a crescer: provavelmente daqui a 10 anos predominarão a Aprendizagem Móvel (Mobile learning) , os MOOCs , a Gamificação (Gamification), a Formação com Tutoria ou o Social Learning. As tecnologias virtuais e os wearables terão um nicho significativo, podendo pôr em causa o ensino convencional e diminuindo a importância dos materiais escritos; embora inseparável dele, o e-learning poderá ultrapassar o ensino tradicional.

No continente chinês e em Hong Kong, o e-learning e os MOOC são apoiados académica e politicamente, com visibilidade social e nos media, dirigidos sobretudo a uma população adulta profissionalizada e sénior. Na China, segundo dados de 2018, a plataforma www.icourse163.org colabora com mais de 120 universidades, oferecendo 1.822 cursos, abrangendo currículos profissionais no ensino superior, educação vocacional, inovação e empreendedorismo.

Num estudo recente, Zheng, Chen e Burgosa (2018) afirmam que mais de 51% das universidades na China apoiam os MOOC, considerando-os como uma oportunidade para introduzir mudanças na educação, especialmente no ensino superior - embora muitos necessitem ser aprimorados, nomeadamente no apoio à aprendizagem individualizada e auto-adaptativa, exploração de modelos de negócio, inovação em aplicações tecnológicas e nas teorias de aprendizagem on-line, desenvolvimento no modelo internet +, melhoria da aprendizagem autónoma dos alunos e nos sistemas de garantia de qualidade e certificação de créditos, resolução de problemas de IP, entre outros (idem, op. cit.). Consideram estes autores que o desenvolvimento de MOOCs nas universidades requer participação ativa de todas as partes interessadas. Mas, de acordo com a pesquisa, o interesse dos alunos, da administração e dos professores surge em ordem decrescente: isto é, os professores, o grupo crucial para o crescimento dos MOOCs, são os mais indiferentes em relação ao assunto.

Em Hong Kong, a Open University lidera o ensino à distância, tendo diplomado 7306 alunos em 2017/2018, 90% dos quais empregados. As receitas provenientes das propinas foram de cerca de mil milhões HK dólares.

E Macau? Macau, à semelhança da Open University of Hong Kong (estabelecida em 1989) criou em 1992 a Universidade Aberta Internacional da Ásia (UAIA) em parceria com a Universidade Aberta, a única instituição de ensino superior público à distância em Portugal. A UAIA teve um papel significativo na formação de quadros locais e de quadros dos países de língua portuguesa em serviço diplomático e consular, designadamente na China. Em 2011, a UAIA foi rebatizada com o nome de Universidade da Cidade de Macau e em 2014 extinguiu o ensino e-learning - o que, para além de ter sido um retrocesso, ao reverso das tendências em curso em universidades do mundo, e particularmente do interior da China, ocasionou incontornáveis prejuízos, não apenas para os estudantes dos países de língua portuguesa na Ásia, como também para os cidadãos inseridos no mercado de trabalho local, com expetativas de progressão ou atualização profissional que apenas o ensino e-learning lhes poderia proporcionar.

A UAIA percorreu um longo caminho de 20 anos e acumulou ao longo deles uma notável experiência, única em Macau, de ensino a distância, com o apoio da Universidade Aberta de Portugal, que em muito beneficiou centenas de profissionais. Resta agora recomeçar do zero para acompanhar a passada do que se faz pelo mundo universitário de todos os países, inclusive nas universidades do Continente.

* Investigador

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