Macau renova-se como plataforma multicultural pioneira na ligação entre a Grande Baía de Guangdong e o Ocidente

Este texto pretende demonstrar a pertinência e as vantagens da Construção da Grande Baía de Cantão para o desenvolvimento de Macau e das Cidades e Países de Língua Portuguesa, no contexto da iniciativa chinesa Uma Faixa e Uma Rota. Dar-se-á destaque, numa visão mais global, à necessidade de aprofundar o vetor Cultural de Macau (onde se sublinha a sua História/Memória, a Educação/Ciência e a Produção Cultural), no sentido de dar maior consistência e reforçar a identidade Macaense.

Neste contexto, a implementação da construção da Grande Baía de Guangdong - Hong Kong - Macau é umprojeto não só pertinente como necessário ao desenvolvimento das relações socioeconómicas e culturais das populações residentes nesta grande região do litoral da China. Do ponto de vista da História há que destacar o papel pioneiro de Macau e de Cantão na primeira grande globalização da Época Moderna, que a partir do século XVI, e através do comércio internacional, em navios chineses, portugueses e ingleses, distribuiu ao resto do mundo os produtos da província de Guangdong, em especial a porcelana, a seda e o chá. Macau teve, desta forma, uma importância fundamental na difusão do conhecimento e do gosto "à maneira chinesa", não só no resto da Ásia, mas também na Europa, na América e na África. Na Europa, nos séculos XVIII e XIX, esta nova moda expandiu-se a novos grupos sociais e foi designada de Chinoiserie entre a aristocracia e a burguesia ascendente.

A implantação da República Popular da China, no século XX, permitiu-lhe readquirir a dignidade (perdida com a ocupação militar estrangeira do século XIX e os Tratados Desiguais) e iniciar um processo de desenvolvimento socioeconómico.

No século XXI, com a entrada da China na Organização Mundial do Comércio (WTO - 11/12/2001), veio confirmar-se a justeza da orientação do Estado Chinês em se integrar cada vez mais nas estruturas internacionais do Mundo globalizado de hoje.

A extraordinária recuperação dos níveis de crescimento e de desenvolvimento socioeconómicos da China, foi a mais rápida e consistente jamais verificada e, pelo menos desde 2015, foi reconhecida pelo mundo académico e pelas principais instituições internacionais como a OCDE, a UNESCO, o próprio FMI e pelo World Bank - "GDP growth has averaged nearly 10% a year-the fastest sustained expansion by a major economy in history-and more than 850 million people have lifted themselves out of poverty. China reached all the Millennium Development Goals (MDGs) by 2015 and made a major contribution to the achievement of the MDGs globally." (https://www.worldbank.org/en/country/china/overview)

A diversidade e riqueza das tradições culturais milenares chinesas cria condições a uma preciosa colaboração da China para a construção de um Mundo multipolar, mais pacífico e mais justo.

Portugal é exemplo desse investimento. Após a crise de 2008 (desencadeada pela falência de parte do sistema financeiro na América, e depois da imposição pela União Europeia de políticas neoliberais e de austeridade), assistiu-se a um retrocesso, sem precedentes, do investimento estrangeiro. A China foi o único país que investiu em grandes projetos em Portugal, seguindo as regras do mercado, o que permitiu criar um espírito de confiança, funcionando como base para a recuperação e o desenvolvimento económico em Portugal.

O século XXI caracteriza-se por um incessante crescimento da população urbana mundial (54% segundo último relatório da ONU, https://www.unric.org/pt/actualidade/31537), que faz aumentar a importância do papel das cidades nas sociedades globalizadas. Em 2050 a previsão aponta para mais 2,5 mil milhões (66%) a viverem nas cidades e no caso da China, aumentará mais 292 milhões de habitantes nas suas cidades.

O rápido desenvolvimento da China, e em especial da província de Guangdong, ficou a dever-se em parte à expansão de algumas das suas cidades (entre as 11 principais destacam-se Cantão, Shenzhen, Zhuhai e das Regiões Administrativas Especiais de Hong-Kong e Macau), o que cria as melhores condições para a região da Grande Bahia vir a ter um papel de destaque no âmbito de Uma Faixa e Uma Rota.

A Grande Baía será prioritária para a expansão e diversificação dos investimentos de Macau, em especial no tecido produtivo industrial e tecnológico no interior da China, mas também na sua projeção para além da Ásia (A.S.E.N.), na Europa, na África e na América. Macau deverá igualmente aprofundar e intensificar o seu relacionamento com os 8 países de língua portuguesa.

As "Linhas Gerais do Planeamento para o Desenvolvimento da Grande Baía de Guangdong-Hong Kong-Macau", apresentadas pelo Governo Central da China, enquadram o desenvolvimento de Macau, como centro mundial das indústrias de turismo e de lazer e simultaneamente confirmam o papel de Macau como plataforma de cooperação económica e comercial entre a China e os países de língua portuguesa. Sendo importante o facto de este plano reconhecer e indicar a necessidade de renovar e ampliar o aeroporto de Macau, permitindo aproveitar o facto de na Grande Baía já estarem situados três dos dez portos mais movimentados do mundo (Cantão, Shenzhen e Macau). O Plano indica a necessidade de intensificar as ligações (ferrovia de alta velocidade e autoestradas) entre a Grande Baía e as áreas vizinhas, para que o tempo de deslocação entre as grandes cidades da Baía se reduza a uma hora. O Plano promove explicitamente as empresas de Macau e Hong Kong, concedendo-lhes o mesmo tratamento que as empresas do interior da China. As empresas de Macau serão beneficiadas com o acesso às políticas de âmbito nacional e de província. Alguns dos bancos e companhias de seguros de Hong Kong e Macau vãos ser autorizados a investir na China e apoiados para a abertura de sucursais em Cantão, Shenzhen e Zhuhai. Este Plano incentiva igualmente as gerações mais jovens a criar negócios na Grande Bahia. Alguns dos habitantes de Hong Kong e Macau serão incentivados a integrarem empresas e agências estatais. Por outro lado, é encarado como prioritário para um futuro sustentável o controlo da poluição atmosférica e da água.

O processo de implementação da Grande Baía de Guangzhou, e de integração das outras cidades, deve ser sustentável e compatível com a identidade de Macau. Para o sucesso do relacionamento da Grande Baía com o Ocidente não bastará apresentar o sucesso dos índices de crescimento do PIB, mas, a Macau será fundamental afirmar a sua tradição de eficiente plataforma multicultural, de comunicação com o resto do Mundo e em especial com a Europa, a África e a América de expressão em Língua Portuguesa. Neste âmbito será determinante o reforço das políticas culturais da RAEM, nomeadamente no âmbito da ligação aos países lusófonos.

No atual mundo globalizado, onde na Grande Bahia já existem cidades que são líderes a nível tecnológico, a RAEM deve continuar a intensificar o seu desenvolvimento científico (conquistou mais 2 laboratórios de referência do Estado, um para a "Internet das Coisas e da Cidade Inteligente", o outro para a "Ciência Lunar e Planetária", a funcionar na Universidade de Macau, que se juntam ao da "Medicina Chinesa" e ao dos "Circuitos Integrados em Larga Escala Analógicos"). A ligação entre as universidades de Macau e as universidades da Província de Cantão são igualmente incentivadas pelo Plano do governo central.

A RAEM, através de políticas educativas e culturais, deve, para além de garantir os conhecimentos técnicos específicos, promover o desenvolvimento de áreas de competência transversais junto dos cidadãos de Macau, capacitando-os para a gestão da complexidade, da rapidez da mudança e da especialização crescente do mundo atual. Deve-se assinalar, nomeadamente, a importância de intensificar e ampliar, a setores mais vastos da população ativa de Macau, as qualificações linguísticas (com o incremento do Português, do Inglês e, naturalmente, do Mandarim); e as capacidades de negociação (com o promoção de disciplinas que permitam o desenvolvimento de capacidades argumentativas, como a História, a Filosofia, a Sociologia e a Economia). Esta aposta numa maior capacitação da população ativa facilitará a demonstração de Uma Faixa e Uma Rota como o mais importante projeto, até hoje apresentado, que, através do desenvolvimento das redes mercantis, contribuirá para a comunicação pacífica Oriente-Ocidente e, em especial, no aprofundamento das relações entre a China e os oito países de Língua Portuguesa, que tem no Fórum Macau um importante instrumento para o seu desenvolvimento.

Participação da sociedade civil

Organizações da sociedade civil, com sede em Portugal, têm-se destacado na promoção da cultura chinesa, são disso exemplo o Observatório da China (OC) e a União de Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA), as quais têm vindo a contribuir para anular "anticorpos" que, no interior das sociedades europeias, se desenvolvem face ao aumento da visibilidade e da competição chinesa no Mundo globalizado de hoje. A forma como têm concretizado esta sua ação passa, nomeadamente pela intensificação de trocas culturais entre a China, a Grande Baía de Guangdong e Portugal e outros países lusófonos, com especial destaque para as suas cidades.

A UCCLA, organização sem fins lucrativos fundada em 1985, de âmbito internacional e multilateral, representa as mais importantes 50 cidades de língua portuguesa, a nível socioeconómico e cultural, localizadas nos 5 continentes: É das primeiras, senão mesmo a primeira, instituição multilateral, em que as cidades membros têm igualdade de direitos e deveres, cuja adesão é livre e voluntária, e que se exprimem numa única língua oficial. A UCCLA foi pioneira na cooperação livre entre cidades dos 8 países lusófonos, nos anos 80, o que viria a influenciar o perfil de constituição posterior da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Considerando que em 2019 se cumprem 40 anos das Relações Diplomáticas Oficiais entre Portugal e a China, 20 anos da criação da RAEM e sendo esta uma das suas cidades fundadoras, em Assembleia Geral, de março de 2019, decidiu eleger, para o período de 2019-2021, a cidade de Macau como sua Presidente. A UCCLA vai organizar uma exposição de artes plásticas contemporâneas sobre Macau e a China, de outubro de 2019 a janeiro de 2020.

O Observatório da China (OC), Associação para a Investigação Multidisciplinar em Estudos Chineses, tem como principal finalidade contribuir para o conhecimento da sociedade chinesa, através da realização de estudos e atividades multidisciplinares: a divulgação de trabalhos de investigação sobre Macau e a China;
a organização de iniciativas e eventos descentralizados de carácter diversificado, desde o cultural ao científico; a edição de publicações em formato de papel e digital; e
a cooperação com entidades públicas e privadas, nacionais e estrangeiras, em várias áreas do conhecimento e da cultura ao empreendedorismo técnico-profissional.

Como forma de dar a conhecer a História de Macau e da China no seu pioneiro relacionamento com o Ocidente, o OC construiu um audacioso projeto científico - a Biblioteca/Portal Digital, que de forma também atraente e simples edita as descrições portuguesas sobre Macau e a China, publicadas entre os séculos XVI e XIX. Esta biblioteca já possui mais de 175 mil páginas disponibilizadas gratuitamente, em parceria com a Biblioteca Nacional de Portugal e com o patrocínio fundamental da Fundação Macau e o apoio da UCCLA. Macau e a China estão agora mais próximos, pois basta um clique online para nos informarmos das relações históricas, culturais e económicas entre a Europa e as cidades de Macau, Cantão, Hong-Kong, e a China em geral. Esta Biblioteca digital, para além dos livros antigos, também publica os jornais editados em Macau, durante o século XIX e continua a ser atualizada com cartografia, entre outras obras. Esta biblioteca tem sido muito consultada por centros de investigação, por universidades e por leitores em Macau e na China, mas também em muitos outros países (os seus menus de entrada e consulta estão em Português, Mandarim, Inglês e em 2019/20 serão também apresentados em Francês) da Ásia, da África, da América e da Europa. http://observatoriodachina.org/index.php/pt/fontes-macau-china .

Em 2017/2018 o OC organizou uma grande exposição de divulgação da Rota Marítima da Seda, que ligou a Grande Baía de Guangdong a Portugal, à Europa e ao Mundo. Esta exposição foi realizada em parceria com o Museu de História de Guangdong e exibiu peças arqueológicas de grande valor e beleza, algumas delas com mais de 2000 anos de história. Teve o apoio do Governo de Guangdong, do Museu Nacional de Évora, e das autoridades portuguesas.

Em junho de 2019 o Observatório da China já teve a oportunidade de organizar a viagem do grupo de marionetas de Yangzhou, província de Jiangsu, para participar em 2 festivais internacionais de marionetas em Portugal, nas cidades de Évora (4 a 7 de junho), Ovar (8 a 10) e para um espetáculo na cidade de Lisboa (11 de junho).

Depois de em 2013 o OC ter levado a Ópera de Pequim, com grande adesão do público, a 5 cidades portuguesas, no próximo mês de janeiro, de 2020, o OC irá organizar uma digressão da ópera de Cantão a 4 cidades em Portugal.

Em conjunto com a Academia de Ciências Sociais da China e a de Cantão, com a Universidade de Macau entre outras, iremos organizar uma conferência internacional em Lisboa, sobre a Grande Baía de Guangdong, no âmbito da iniciativa Uma Faixa e uma Rota.

No campo editorial, o OC está a organizar, juntamente com a Universidade de Macau e a Academia de Ciências Sociais da China e de Guangdong, a tradução para Português e Inglês de Hai Lu Zhu, a primeira crónica chinesa sobre Portugal e a Europa, publicada na China, e que é da autoria de um navegador chinês que, cerca de uma década, viveu em Portugal,

Na nossa opinião, é importante divulgar a história do papel pioneiro de Macau, bem como o enorme contributo que a RAEM conseguiu trazer para a construção de uma plataforma multicultural de relacionamento entre Guangdong, a China e o Ocidente, em especial com os países de Língua Portuguesa. A participação ativa de Macau na construção do espaço da Grande Baía de Guangdong, Hong-Kong e Macau é de grande importância geoestratégica para a defesa da riqueza multicultural e da identidade de Macau. Sem memória não é possível construir um futuro pacífico e sustentável.

Por outro lado, é de assinalar que a diferenciação da grande Baía de Guangdong para com as outras baías no mundo, é a existência efetiva de "Um País- Dois Sistemas", princípio consensual a todas as autoridades centrais e da RAEM.

*Rui Lourido é historiado e presidente do Observatório da China

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