OMS prevê que epidemia na RDCongo possa durar pelo menos mais meio ano

O chefe de emergências da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou nesta terça-feira que se espera que a epidemia de ébola na República Democrática do Congo (RDCongo), que provocou já 209 mortos, pode durar mais seis meses, pelo menos.

Peter Salama, que visitou as províncias de Kivu Norte e Ituri na semana passada, as mais populosas do leste da RDCongo, afirmou, em Genebra, que a OMS perspetiva "pelo menos mais seis meses antes de ser declarada extinta a epidemia".

Salama sublinhou que os centros de saúde improvisados em Kivu Norte - com tratamentos tradicionais e modernos - poderão estar ligados a mais de metade dos casos de contágio em Beni, a cidade congolesa mais afetada pela epidemia.

Em alguns casos, o responsável da OMS acredita que as pessoas que recorreram aos centros de saúde por outras questões acabaram por ser contagiadas com o vírus do ébola.

Por essas razões, Peter Salama declarou que há fortes probabilidades de que os centros de saúde sejam "potenciais" focos de contaminação e salientou ainda que "é muito provável" que alguns casos de ébola tenham sido mal diagnosticados como malária, porque os primeiros sintomas são idênticos.

Enfermeiro prepara-se para administrar vacina a um doente com ébola na província de Kivu Norte

Enfermeiro prepara-se para administrar vacina a um doente com ébola na província de Kivu Norte

"Provavelmente, mais de 50 por cento dos casos em Beni tiveram origem nessas instalações tradicionais de saúde, onde as práticas de higiene são relativamente inseguras", disse.

Salama disse que o atual surto de ébola na RDCongo é "possivelmente o contexto mais difícil" que a OMS encontrou, apontando as atividades de dois grupos armados de oposição no leste daquele país africano.

Administração de vacina a um congolês que esteve em contacto com infetados pelo vírus do ébola em Mangina

Administração de vacina a um congolês que esteve em contacto com infetados pelo vírus do ébola em Mangina, Kivu Norte

Salama observou que os congoleses parecem suspeitar de estrangeiros, funcionários públicos e organizações externas, mas que muitos também acreditam na eficácia dos medicamentos.

O número de mortos por contaminação de ébola nas províncias de Kivu Norte e Ituri aumentou para 209 desde um de agosto, divulgou nesta terça-feira a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Pessoal médico tem de usar poteções especiais para evitar o risco de contágio

Pessoal médico tem de usar poteções especiais para evitar o risco de contágio

Dados da OMS indicam que 23 pessoas morreram em consequência do contágio do vírus desde a última atualização, em 4 de novembro, até ao passado domingo.

O número mais expressivo de mortos devido ao contágio pelo vírus ocorreu na província de Kivu Norte, nas localidades de Beni (91), Mabalako (67) e Butembo (18).

Peter Salama é entrevistado pela Reuters sobre o quadro que encontrou na visita às províncias de Kivu

Peter Salama é entrevistado pela Reuters sobre o quadro que encontrou na visita às províncias de Kivu Norte e Ituri na RDCongo

Os registos de casos - a grande maioria confirmados - aumentaram também, de 300 em 4 de novembro para 333. Em ambos os casos, o número de situações prováveis foi de 38.

Esta epidemia de ébola foi constatada em Mangina, nas províncias de Kivu Norte e Ituri, alastrando até perto da fronteira com o Uganda, em Beni, região do grupo armado ADF, que multiplicou os ataques contra civis, o que complicou a resposta sanitária.

Unidades biosseguras para tratamentos de emergência (CUBE) no exterior do hospital de Beni, a cidade

Unidades biosseguras para tratamentos de emergência (CUBE) no exterior do hospital de Beni, a cidade da RDCongo mais atingida pela epidemia

Para prevenir que a epidemia alastre, o Uganda realizou um programa de vacinação de funcionários na fronteira com RDCongo, atravessada diariamente por centenas de pessoas, num trânsito normal.

A epidemia de ébola é já a maior da história do país relativamente ao número de contágios, anunciou o Governo, no sábado passado.

"[Esta epidemia] acaba de ultrapassar o da primeira epidemia registada na história [da RDCongo] em 1976", afirmou o ministro da Saúde congolês, Oly Ilunga Kalenga, num comunicado divulgado pela agência de notícias espanhola Efe.

Contagiada pelo ébola celebra a notícia da sua cura num campo em Beni

Contagiada pelo ébola celebra a notícia da sua cura num campo em Beni

A RDCongo foi atingida nove vezes pelo ébola, depois de o vírus ter aparecido pela primeira vez no país africano, em 1976.

Em 1995, o vírus do ébola, que se transmite por contacto físico através de fluidos corporais infetados e que provoca febre hemorrágica, provocou a morte a 250 pessoas na cidade de Kikwit, na província de Kwilu, no sudoeste da RDCongo.

É a primeira vez que uma epidemia de ébola é declarada numa zona de conflito, onde existe uma centena de grupos armados, o que leva à deslocação contínua de centenas de milhares de pessoas que podem ter estado em contato com o vírus.

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