"O reforço da responsabilidade ambiental é urgente para os investidores chineses"

"O reforço da responsabilidade ambiental  é urgente para os investidores chineses"

Ressalvando que a Iniciativa Faixa e Rota (BRI) tem um papel positivo, Pan Yuanyuan considera que a China deveria prestar mais atenção a assuntos relacionados com a proteção ambiental em investimentos externos.
A investigadora no Instituto de Economia e Política Internacional, que está afiliado a um dos principais think thanks chineses - a Academia de Ciências Sociais da China. Pan, que também faz investigação académica no Instituto de Economia da Universidade Cidade de Macau, é uma das participantes no evento Plataforma Conferência, que decorre hoje e amanhã no Instituto Politécnico de Macau.

- As autoridades chinesas reiteram que os projetos incluídos na Iniciativa Faixa e Rota (BRI, na sigla inglesa) terão em conta as melhores práticas ambientais. Como pode Pequim garantir que isso acontece?
Pan Yuanyuan - A Iniciativa Faixa e Rota tem um papel positivo em termos de construção de infraestruturas e na melhoria da tecnologia e dos rendimentos nos países anfitriões. No entanto, a China deveria prestar mais atenção a assuntos relacionados com a proteção ambiental em investimentos externos, especialmente os integrados na iniciativa BRI. Projetos Chineses em países como o Myanmar, Camboja, Namíbia, Zâmbia, Gabão, Indonésia, Mongólia, México ou Peru encontram consecutivas dificuldades ambientais.
- Sim?
P.Y. - Em alguns casos, organizações de proteção ambiental resistem ao investimento, noutros casos há Governos que aprovaram regulações ambientais dirigidas especialmente a investidores chineses. Há outras situações de nacionalismo disfarçado de proteção ambiental. Como participantes de relevo na economia global, as empresas chinesas têm a obrigação de proteger e manter o ambiente ecológico nos países hóspedes [de investimentos]. No passado, algumas empresas chinesas não estavam familiarizadas com as leis locais e não tinham experiência de investimento. Por isso, e no futuro, as empresas chinesas deviam dar mais relevância às questões de proteção ambiental nos seus sistemas de gestão e avaliação de risco. O reforço da responsabilidade ambiental é uma tarefa urgente para os investidores chineses.
- O tipo de investimentos chineses e os países onde são feitos também ajudam a explicar alguns dos problemas ambientais?
P.Y. - Esses investimentos integrados na iniciativa BRI estão concentrados, com a maior parte deles a irem para os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, na sigla inglesa). Alguns desses países dependem profundamente dos recursos naturais e as estruturas económicas não estão suficientemente diversificadas. Há casos de países em que a proteção ambiental tem que ser equilibrada com crescimento económico. A própria distribuição industrial dos chineses também mostra concentração. Antes, o investimento maioritário chinês era feito nas indústrias energética, mineira e de construção de infraestruturas. Estas indústrias dependem de capital e é por isso que os investidores chineses são acolhidos. Após a conclusão destes projetos, estes podem ser ligados à soberania nacional e potencialmente ser usados como pretexto para criticar investidores chineses. Há também uma grande proporção de empresas estatais no investimento externo chinês, o que ajuda a essa perceção de perigo para a segurança nacional. Há grupos de interesse específicos que podem fazer uso das políticas ambientais para influenciar a opinião mediática, instigar o sentimento nacionalista e influenciar investimentos chineses negativamente.
- Em certos dos países que refere as políticas ambientais são muito voláteis e mudam de acordo com os Governos.
P.Y. - Os critérios de avaliação e a tolerância dos Governos recetores dos investimentos são ajustados de acordo com mudanças na política interna. Isso leva a que os padrões ambientais possam não ter muita objetividade e por vezes são feitos com base em preferências políticas ou para ir ao encontro de interesses instalados. O país hospede está numa posição forte para regular as empresas multinacionais de acordo com meios razoáveis e legais. A incerteza das políticas ambientais é grande, por isso os custos operacionais podem crescer rapidamente.
- Os Estados Unidos da América têm em curso a campanha Power Africa que melhorou a eletrificação no continente e teve um papel importante ao apoiar países africanos no uso crescente de energia solar e eólica. Devemos esperar as mesmas consequências da BRI?
P.Y. - Visto de forma geral, o investimento da China nos países integrados na BRI tem crescido rapidamente. Mas a China chegou tarde ao mundo do investimento direto internacional. O investimento em infraestrutura requer um grande volume de capital e um longo período de investimento, usualmente com um retorno estável mas lento. A China precisa de se aliar a investidores de outros países e outras organizações para fazer os investimentos, partilhando benefícios e riscos.
- Qual é o contributo que a Grande Baía Guangdong - Hong Kong - Macau pode ter neste cenário de investimento chinês no exterior?
P.Y. - A área da Grande Baía, especialmente Hong Kong e Macau, tem vantagens únicas como uma plataforma para fluxos de capitais de e para a China. A estratégia da Grande Baía reflete a mudança da economia chinesa de crescimento ultra-rápido para crescimento de alta-qualidade. A economia chinesa experimentou décadas de crescimento rápido e atingiu conquistas notáveis. Neste processo, Hong Kong e Macau têm a vantagem do seu sistema político e da sua estrutura industrial, que contribuem para o rápido crescimento destas áreas. Mas agora que a China enfrenta mais restrições de recursos, precisa de encontrar novas fontes de crescimento. A estratégia da Grande Baía propõe a coordenação de fatores e recursos regionais, incluindo a facilitação da circulação de fatores de produção como capital, trabalho, matérias-primas e capital humano. A China também tenta coordenar outros recursos dentro de diferentes cidades, como educação, assistência médica, cuidados com idosos e transporte.
- Tem havido algumas discussões sobre Macau tornar-se centro de arbitragem comercial entre a China e os países de língua portuguesa. Acha que isso pode concretizar-se?
P.Y. - Para integrar Macau na Grande Baía e promover o seu desenvolvimento e crescimento económico, é necessário considerar a alocação de recursos a Macau, a estrutura industrial existente, a possível dependência de uma só estratégia, potenciais riscos, o posicionamento de desenvolvimento a longo prazo de Macau e quais serão os seus motores de crescimento. Naturalmente, os serviços comerciais e financeiros podem ser indústrias potenciais para Macau no futuro.

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