Premium "Nunca houve limitação à liberdade académica"

"Nunca houve limitação  à liberdade académica"

A vida profissional de Rui Martins confunde-se com a da Universidade de Macau (UM) ao longo das últimas duas décadas. Desempenha funções de vice-reitor desde 1997, tendo assumido no final de 2018 a tutela dos Assuntos Globais. Em entrevista ao PLATAFORMA, assegura que há liberdade académica na universidade. Martins frisa que o objetivo é dar um impulso à internacionalização da UM, com foco em alunos de fora e uma aposta mais forte na língua portuguesa.

Desde dezembro que passou a ser vice-reitor para os Assuntos Globais. Em que tem sido diferente esta nova função?

Rui Martins - Basicamente tendo estado tanto tempo como vice-reitor, tenho experienciado todo o desenvolvimento da universidade ao longo destes anos. Quando comecei como vice-reitor a universidade tinha cerca de 2800 alunos. Neste momento, já passamos os 10 mil. Em 1997 só havia uma vice-reitoria, portanto eu cobria as áreas todas. Depois houve uma maior especialização na investigação a partir de 2008. Apesar de ter estado a tomar conta da investigação estes anos todos, mantinha uma componente do meu trabalho, que era internacional e que tinha que ver com os países de língua portuguesa.

Com a mudança para as novas funções continuo na mesma com trabalho na área do ensino, investigação e colaboração com universidades, mas em todo o mundo, num aspecto mais alargado.

- Qual é a lógica subjacente à criação desta nova vice-reitoria para os Assuntos Globais?

R.M. - Faz parte da estratégia do novo reitor em tentar internacionalizar ainda mais a universidade em todas as áreas: ensino e investigação. Temos muitos alunos da China continental e são considerados como alunos internacionais, quer aqui, quer em Hong Kong. Temos alunos de intercâmbio e alunos internacionais. Mas os alunos de intercâmbio passam aqui normalmente um semestre, já os internacionais estão cá o tempo todo da licenciatura, mestrado ou doutoramento, e nesse aspecto a universidade ainda tem poucos alunos.

O objetivo é dinamizar quer alunos internacionais quer de intercâmbio e para isso foram criadas bolsas específicas para atrair estudantes. Têm isenção de propinas, alojamento e ainda recebem um pagamento mensal. Com isso pretendemos dinamizar o número de alunos internacionais. Temos neste momento pouco mais de 100 a tempo inteiro.

- Os alunos de países de língua portuguesa representam uma fatia importante?

R.M. - Sim, metade provém dos países de língua portuguesa como Angola, Moçambique, Cabo Verde e Brasil. Temos depois mais de 200 que são de intercâmbio. Passam cá um semestre, a maior parte na área de gestão de empresas, e também temos alunos nossos com intercâmbios lá fora. Creio que normalmente uma parte desses alunos tem bolsas da Fundação Macau, ao passo que a universidade oferece alojamento e isenção de propinas. A nossa ideia é, além dessas bolsas, oferecermos outras para aumentar o número de alunos. Vai levar algum tempo. É uma estratégia a cinco anos. A nossa ideia é multiplicar por três ou cinco este número. Chegar aos 500 alunos internacionais a tempo inteiro e, pelo menos, duplicar o número de alunos dos países de língua portuguesa.

-Muitos dos alunos dos países lusófonos frequentam o curso de Direito em língua portuguesa. A ideia é reforçar a aposta na licenciatura ou ter uma abordagem mais abrangente?

R. M. - O curso de Direito terá 80 a 90 por cento dos estudantes dos países de língua portuguesa, mas também estão em cursos como Gestão, Engenharia e Comunicação. O nosso objetivo não é focarmo-nos só no Direito. É também dinamizar outros programas. Alguns alunos lusófonos estão a candidatar-se a doutoramentos em Ciências da Saúde ou Engenharia. A ideia é diversificar também a esse nível.

- Em anos recentes houve críticas entre a comunidade relativamente a uma falta de aposta na área do português. O que foi feito para responder a esses anseios e preocupações?

R. M. - Julgo que está a referir-se mais à altura de 2015, quando houve restruturação dos nossos programas, o que levou a algumas questões na definição das turmas que ofereciam português, na quota para o número de alunos e na definição de mestrados. Creio que esses problemas estão ultrapassados e o português continua a ser uma das áreas mais fortes aqui da universidade, nomeadamente o Departamento de Português. Isto é uma coisa que é pouco dita mas, fora de Portugal e do Brasil, o departamento de português mais qualificado é o nosso. Temos cerca de 30 docentes, dos quais 90 por cento são doutorados. E a oferta é muito diversificada, na área da linguística, da tradução. Temos o novo centro para a dinamização do português que tem uma série de atividades. Temos um curso muito importante que já vai sua 36a edição que é o curso de português de verão, que reúne todos os anos mais de 400 alunos. Estamos a pensar aumentar para cerca de 500 alunos. São estudantes que vêm da região circundante de Macau.

- A tradução é uma área chave. Como se tem posicionado a universidade?

R.M. - Temos também um projeto de tradução automática de português para chinês em que somos pioneiros e em que desenvolvemos um sistema do ponto de vista científico e de engenharia que é único no mundo. O Google Tradutor, quando tem traduções de chinês-português, tem de vir a Macau porque é o local onde há mais documentos em português e chinês, e o nosso laboratório nessa área também é de ponta com patentes e marcas registadas. Estamos agora a dinamizar um pacote na internet que permite às pessoas acederem e usá-lo em áreas específicas. O português é uma área fundamental. Temos tido vários doutoramentos nesta área.

-Como é que estão ao nível do reconhecimento por parte de universidades portuguesas?

R. M. - Esta é uma questão que está a ser tratada ao nível do Governo de Macau, do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES). Temos a experiência de primeiro termos tido praticamente todos os cursos reconhecidos em Portugal, desde 1997 até 2011, quando foram modificados, e o Direito até 2014. Com este período todo é normal que os cursos sejam adaptados. Entretanto, em Portugal mudou tudo com o Processo de Bolonha e nós só adaptámos os programas mais tarde. Não mudando os programas esse reconhecimento era para sempre. Relativamente a Portugal, os alunos da Universidade de Macau que queiram prosseguir os estudos no país podem fazê-lo. Portugal não reconhece mais cursos. O que tem sido discutido é o reconhecimento mútuo de programas entre Portugal e Macau. Esse reconhecimento já existe entre Portugal e a China, mas Macau é uma região especial e portanto o reconhecimento mútuo está a ser negociado. Creio que em breve irá ser firmado um acordo entre Macau e Portugal nessa área, durante este ano.

-Esteve durante vários anos ligado à área de investigação, a esse nível tem havido uma aposta na capacidade de publicação de artigos em revistas científicas além da participação em conferências internacionais. Está a a universidade a aproximar-se do seu potencial?

R. M. - A Universidade de Macau ainda é jovem. Tem 37 anos. Quando cheguei em 1992 havia talvez um ou outro professor que publicava um paper. Cresceu-se do zero em termos da universidade, mas também em termos de Macau. Não havia nada ao nível de instituições que apoiassem a investigação. De maneira que foi um processo lento. Iniciei um pouco o desenvolvimento na área, reservando sempre um orçamento interno para apoio a projetos de investigação e participação em conferências. E fui sempre todos os anos aumentando o orçamento, o que permitiu em 2008, já como vice-reitor para a investigação, ter um orçamento interno que já era 10 por cento do orçamento total da universidade. Entretanto foi também criado o Fundo para a Ciência e Tecnologia, em 2005, que também apoia projetos, mas apenas da área mais estrita das ciências e tecnologia como Engenharia, Ciências da Saúde, Medicina Chinesa. As Ciências Sociais não são abrangidas e não há forma de apoiar essa área além dos fundos que a universidade tem no orçamento interno. Foi um processo árduo, mas que tem dado frutos. Nos últimos anos temos um crescimento exponencial do número de artigos publicados em revistas académicas. Em 2018, passamos pela primeira vez a barreira dos 1500 artigos em revistas por ano. Passámos também em 2018 as 23 mil citações, o que é significativo. Temos 93 artigos que têm cada um 93 citações ou mais, comparando com 21 há cerca de 10 anos.

Recentemente a professora Teresa Vong da Faculdade de Educação da UM dizia que é bastante difícil para um professor ou investigador colocar em revistas internacionais artigos sobre Macau, o que acaba por desincentivar a investigação sobre temas mais locais. Como encara a questão?

R. M. - Deve ter razão na sua área específica, mas não concordo que se o estudo for sobre Macau não é viável publicar internacionalmente porque a atenção não será tão grande. Discordo. Sempre acreditei que era possível apostar na investigação relacionada com Macau e dar cartas internacionalmente. Há colegas que têm feito estudos sobre Macau, por exemplo o professor Brian Hall - mas há outros - na área da Psicologia em torno de temas locais com trabalhos publicados internacionalmente. Estão a ser feitos trabalhos de investigação também na área do jogo de Macau com impacto internacional. Isso também pode suceder noutras áreas. Temos prestado mais atenção ao Centro de Estudos sobre Macau. Foi indicada a professora Agnes Lam para diretora. O centro estava muito focado na parte chinesa - publica há vários anos o Journal of Macau Studies, mas é essencialmente em chinês. Agnes Lam está a fazer um esforço para alargar isso às partes portuguesa e inglesa, e creio que a área vai ser dinamizada nos anos que vêm. A Revista de Cultura também foi integrada no centro.

-O Governo Central atribuiu o estatuto de State Key Lab ao Laboratório de Microelectrónica. É uma área que lhe é muito cara tendo feito uma aposta em talentos locais que estão a dar cartas. Que potencial há?

R. M. - Ao longo dos tempos treinei praticamente do zero talentos locais nessa área. Somos competitivos a nível mundial com pessoal local formado nesta universidade. Isso tem uma contribuição importante para a economia e sociedade. Temos cerca de 100 pessoas no Laboratório de Microelectrónica, entre as quais 20 são docentes - quase todos de Macau. Toda a área de investigação, assim como os resultados obtidos a nível internacional, contribuem para a imagem de Macau. Através de instituto que temos em Zhuhai estamos a colaborar diretamente com as empresas - já temos um portfólio de contratos - no âmbito da próxima geração de telecomunicações de 5G. Além disso, desenvolvemos uma outra área que faz a ponte com a biologia em que estamos a aplicar estes conceitos àquilo que se chama medicina de precisão ou medicina móvel, em que os grandes laboratórios e biologia se estão a transformar também em laboratórios móveis. Temos componentes pioneiros desenvolvidos aqui.

- Em anos recentes tiveram lugar casos relacionados com alegações de constrangimentos ao nível das liberdades académica e de expressão, e envolvimento social de académicos. Há motivos para preocupação?

R. M. - Quando se fala em liberdade académica, analisei sempre isto do ponto de vista científico porque, como sabe, as universidades são locais onde temos pessoas de todo o mundo e nesta zona - Macau, Hong Kong, Taiwan e China continental - há muitas sensibilidades que são difíceis de gerir. E há sempre académicos, atores, que tentam intervir na realidade política. Creio que houve alguns problemas com um ou dois professores. Eram muito ativos do ponto de vista da investigação. Os professores em questão nunca foram impedidos de se candidatarem e foram apoiados em vários projetos em áreas sensíveis, políticas, sobre Macau, Hong Kong, Taiwan. Foram financiados. Alguns continuaram a ser financiados mesmo depois de terem deixado a universidade. Nestes anos em que aqui estou, nunca houve qualquer limitação à investigação, à liberdade académica. Poderá ter havido problemas académico-políticos que poderão ter surgido no passado, mas neste momento tenho a impressão que estão resolvidos.

- Tem havido um acentuar da tónica patriótica nos discursos políticos na China continental e em Macau. De que forma se tem reflectido na universidade?

R. M. - Tenho analisado isso em Macau. Na universidade creio que tudo tem decorrido normalmente. Não tenho visto uma grande intensificação nessa área. Além de termos de utilizar o hino da China nas nossas cerimónias oficiais, o que é normal. Também temos uma cerimónia do hastear das bandeiras da China e de Macau nos dias mais importantes em que os alunos participam. Fora isso, não noto nenhuma diferença.

- A sua nomeação é por cinco anos. O que poderá considerar como resultados que indicarão missão cumprida?

R. M. - Esta missão é um pouco diferente das anteriores. Já vou fazer 62 anos. Os cinco anos passam já a idade de reforma, mas o meu objetivo principal, além do acompanhamento do laboratório, é a área de desenvolvimento com mais alunos internacionais, que leva anos. Não se cumpre os objetivos em apenas cinco anos. Espero que nestes primeiros cinco seja criada uma boa base com a coordenação para desenvolvimento futuro.

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