Ministro que escondeu arroz doado resistiu à detenção

Ministro que escondeu arroz doado resistiu à detenção

A Polícia Judiciária da Guiné-Bissau foi impedida de deter o ministro da Agricultura pelos seguranças do Palácio do Governo onde se encontrava na manhã desta quinta-feira, quando foi ouvido pela PJ. Liga Guineense dos Direitos Humanos exige cumprimento do mandado de detenção.

A Polícia Judiciária (PJ) da Guiné-Bissau tentou deter o ministro da Agricultura na manhã desta quinta-feira, 11 de abril, no âmbito do caso do arroz doado pela China, num momento marcado por alguma tensão, mas foi impedida pelos seguranças do governante.

O ministro Nicolau dos Santos foi ouvido esta manhã por elementos da PJ durante mais de duas horas, no seu gabinete no ministério, tendo a polícia dado ordem de detenção, testemunhou a Lusa no local.

Perante a ordem policial, seguranças do governante tentaram impedir a detenção e arrastaram o ministro para uma outra sala, onde se barricaram. Nicolau dos Santos tentou resistir à iniciativa dos seus seguranças, dizendo: "Eu vou, eu vou".

Cerca das 11:30 em Bissau (12:30 em Lisboa), o ministro ainda se encontrava no interior do edifício. A PJ reforçou entretanto a presença no local, incluindo com agentes armados, e acabou por arrombar a porta.

A PJ, que suspeita que o arroz esteja a ser utilizado para fins lucrativos, acabou por abandonar o Palácio do Governo ao final da manhã, e o ministro também saiu entretanto do ministério.

Entretanto, o advogado do ministro da Agricultura da Guiné-Bissau, Emílio Mendes, garantiu que o seu constituinte está disposto a colaborar com a justiça: "O ministro está disposto a colaborar com a justiça, porque o que se pretende é a busca da verdade material. Agora a forma desnecessária, brutal e despótica adotada pela PJ é que me choca".

Na opinião de Emílio Mendes, não era necessário o recurso "à violência para levar o homem à força".

Liga dos Direitos Humanos pede efetivação da prisão

É preciso "exigir ao ministro do Interior para efetivamente retirar todos os agentes que estão neste momento a dificultar o cumprimento do mandado de detenção da PJ. Estamos num Estado de Direito, a sociedade guineense pugna pela justiça, pela verdade, pelos valores de solidariedade, não se pode estar a escamotear a verdade, a esconder factos, porque isto não nos dignifica", afirmou Augusto Mário Silva, advogado e presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos.

Num comunicado, divulgado na sua página nas redes sociais, a Liga denunciou também um "golpe institucional que visa perpetuar a impunidade e, por conseguinte desmantelar os alicerces do Estado de Direito", depois de um número "considerável de efetivos da Polícia de Intervenção Rápida" ter sido colocada na residência do ministro da Agricultura.

"Aqueles que estão por de trás destes atos ilegais de obstrução à Justiça devem saber que cedo ou tarde serão igualmente responsabilizados judicialmente", refere a organização.

A organização dos direitos humanos salienta também que todos os implicados no processo devem observar "serenidade e o respeito escrupuloso das leis em vigor na Guiné-Bissau".

Esta situação ocorre numa altura em que o novo parlamento da Guiné-Bissau, saído das eleições realizadas a 10 de março, se prepara para tomar posse, marcada para 18 de abril, e após o líder da oposição guineense, Braima Camará, ter entregado no Ministério Público alegadas provas de atos de corrupção praticados pelo atual primeiro-ministro, Aristides Gomes.

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