Premium Mães de militares da Guerra Colonial detestavam as tatuagens dos filhos

Não existem mulheres que tenham estado na Guerra Colonial com tatuagens, mas é a mulher o principal tema do que os militares registavam na pele. "Amor de mãe" é de longe a expressão mais popular entre os ex-combatentes.

té há poucas semanas existia um aspeto da Guerra Colonial (1961-1974) por estudar: as tatuagens. João Cabral Pinto decidiu investigar o tema que abrange uma atitude - e uma estética - que nunca foi apreciada pelas hierarquias militares portuguesas e publicou à sua custa o livro Guerra na Pele - As Tatuagens da Guerra Colonial, em que analisa essa moda que poderá ter sido importada dos soldados norte-americanos da Guerra do Vietname.

A tatuagem não era uma prática desconhecida em África e antes dos militares portugueses já os escravos eram tatuados para o envio de mensagens secretas, mas não é esse o foco que ocupou o autor do estudo que andou por vários arquivos nacionais em busca de fontes documentais para satisfazer a sua curiosidade sobre esta questão que ficou fixada no corpo de muitos soldados. Tudo começou para Cabral Pinto há quatro décadas, quando a avó lhe ofereceu uma coleção de selos do marido e o jovem encontrou o espírito de colecionismo: "Encontrei nos selos informações sobre tatuagens, depois vivi em Angola a partir dos 6 meses e sempre tomei atenção aos factos históricos que a filatelia alude frequentemente; daí até ao interesse em estudos de História foi um salto."

Foram as tatuagens na Guerra Colonial que, depois de outras investigações do género, lhe despertaram o interesse: "Fui procurar mais informações sobre as tatuagens em Portugal e quase nada encontrei após uma longa investigação em bibliotecas e arquivos, principalmente no que diz respeito à Guerra Colonial." Acrescenta: "Nada existe organizado sobre o assunto, embora tenha tido um grande impacto na sociedade portuguesa naquela época."

A razão, considera, é fácil de encontrar: "É conotado negativamente por estar tradicionalmente ligado aos marinheiros e também com a criminalidade e a prostituição." Essencialmente, afirma, quem fez tatuagens "foram os cabos e os praças, só excecionalmente oficiais. Ainda hoje em dia estes não querem ter nada que ver com o assunto porque quem o fez foram as patentes mais baixas. Essencialmente entre camaradas de armas, que faziam uns aos outros as tatuagens, usando tinta-da-china e uma agulha que partilhavam, após desifectada com um fósforo, o que causou muitas infeções, principalmente quando as picadas eram demasiado fundas".

João Cabral Pinto passou os últimos vinte anos a pesquisar a questão, mesmo que tenha perdido tudo ao fim dos primeiros cinco devido a um problema no computador. Mas os últimos quinze anos resultaram no trabalho inédito que agora publicou e no qual chega a várias respostas, amplamente apresentadas sob a forma de estatística, depoimentos e imagens em 192 páginas.

Entre elas o facto de a palavra "amor" ser a mais tatuada, seguindo-se a expressão "amor de mãe". Uma repetição que confirmou em mais de seis centenas de entrevistas e de 350 fotografias que tirou a portadores de tatuagens. Que nem sempre lhe facilitaram a vida para obter informação, pois ao descobrir na rua um ex-combatente tatuado tentava entrar em diálogo e nem sempre isso era possível. Cabral Pinto refere o caso de "um senhor que ia com os amigos para um jogo de futebol e que só parou quando os outros o obrigaram a falar comigo e deixar fotografar a sua tatuagem, isto após ter andado ao seu lado a fazer perguntas centenas de metros". As entrevistas, refere, "eram onde calhava. Na praia foi onde fotografei mais, bem como nos encontros entre ex-combatentes ou no 10 de Junho quando não chovia".

Uma das tatuagens.

Uma das tatuagens.

  |  © DR

Nem todos os depoimentos que obteve foram assim tão difíceis de recolher, pois vários ex-combatentes até o convidaram para almoçar ou jantar enquanto contavam as suas histórias: "Nem todos eram assim, muitos recusavam-se a falar porque diziam que se recordassem certos momentos da Guerra Colonial não iriam conseguir dormir nessa noite e, provavelmente, nas seguintes."

Aos 51 anos, o autor já passou grande parte deles ocupado com o assunto: "É um ângulo da Guerra Colonial que nunca foi tratado e o que fiz foi uma recolha de informação junto de ex-combatentes com um carácter voluntário e sem interesse comercial." Tanto assim que acabou por publicar Guerra na Pele por sua conta porque nenhuma editora demonstrou interesse, tal como as estruturas militares e de ex-combatentes: "Disseram-me frequentemente que a ideia era boa mas nunca veio uma resposta concreta. Creio que existe uma grande relutância relativamente ao assunto por ser uma situação dos militares mas feita informalmente à estrutura militar, que as Forças Armadas não apreciam e restringiram apenas a certas partes não visíveis do corpo enquanto fardado."

As tatuagens não desagradam apenas à hierarquia militar, também as mães dos soldados que foram para as províncias ultramarinas de África desaprovavam: "No geral, as mães não gostavam. É assumido por todos que naquela época a tatuagem era malvista na sociedade portuguesa. Os que se tatuavam diziam que 'fizemos porque queríamos ser diferentes' e também porque a sociedade estava a mudar muito. Havia a tradição dos comandos, dos fuzileiros e dos paraquedistas se tatuarem quando acabavam a recruta e ainda sem terem ido para África. Alguns nem foram mas tatuaram-se, e houve os que se tatuaram duas vezes, uma cá e outra lá."

As razões pelas quais se fizeram tatuagens foram diversas, explica o autor: "Muitas das pessoas que entrevistei, referiram vários aspetos: tinham saudade da família, estavam com os copos, por patriotismo, além de uma certa vaidade, exibicionismo e de mostrar que esteve lá."

Se a palavra "mãe" e a expressão "amor de mãe" são as campeãs das tatuagens entre um milhão de militares portugueses que estiveram em Angola, Moçambique e Guiné, outra conclusão é certa: a mulher era um dos temas preferidos nas tatuagens. "Quiseram trazer essa mulher imaginada para o seu braço", diz Cabral Pinto. E essa mulher reproduzida no corpo, explica, "tanto podia ser a mãe, a namorada ou a mulher, e a razão do porquê de o fazerem é por norma sentirem saudades e falta de amor".

Existem ainda muitas outras ilustrações de mulheres nas tatuagens, como se pode ver em várias fotografias presentes no livro - no total 150 imagens -, e a variedade do desenho é grande: "Muitas são mulheres nuas porque lhes faltava carinho, havia dificuldade nas relações sexuais e a necessidade de manterem uma ligação com uma mulher que não tinham. Entre as imagens mais eróticas estão as sereias."

Cabral Pinto encontrou muitas situações que não estava à espera: "Um homem tatuado com uma corrente quebrada no peito, homens que se começaram a despir e tinham meia dúzia de tatuagens, mas também muita rejeição: as memórias nem sempre eram recordadas com facilidade e quando pedia para fotografar um braço nem todos aceitavam. Ou deixavam-se fotografar mas não falavam." A tatuagem que mais o espantou foi a de um homem que desertou para Espanha e tatuou o nome desse país: "É uma exceção."

Outra exceção são as mulheres militares: "Não conheço nenhuma que tenha estado na Guerra Colonial e tivesse feito tatuagens!"

Esta edição de Guerra na Pele - As Tatuagens da Guerra Colonial foi expurgada de considerações políticas e militares porque, refere, "são assuntos polémicos, necessitam de enquadramento sociológico e receava abordar questões que não seriam bem aceites e compreendidas. A investigação está feita, é a maior já publicada, há vários livreiros que me encomendam exemplares, mas não deixo de pensar num segundo livro maior e que ponha um ponto final na investigação". Até porque estas tatuagens da Guerra Colonial não são eternas: "Foram feitas de forma rudimentar e o natural envelhecimento da pele faz que a tatuagem se vá esbatendo."

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