Premium Um salto de 40 anos

Trabalhou 37 anos nos Serviços de Saúde de Macau (SSM). Alexis Tam, que tutela a área da saúde, deixou-lhe um louvor pelos serviços prestados, na hora da aposentação. Mário Évora diz-se realizado por uma carreira em que devolveu à terra que o viu nascer o melhor do seu esforço. Tem alguns lamentos, mas considera que o sistema de saúde local deu "um grande salto em frente" ao longo destas quatro dezenas de anos.

- Como observou, "a partir do interior", a evolução do sistema de saúde de Macau nas últimas quatro décadas?

Mário Évora - Olhando para trás, penso ter tido o privilégio de ter assistido e ter sido protagonista do "grande salto em frente" no que respeita o sistema de Saúde em Macau.

- E onde foi mais visível essa evolução?

M.É. - Naturalmente de forma mais percetível foi a evolução material, "física", desde logo com a demolição do "velho" Hospital Conde de São Januário e a construção do atual "Centro Hospitalar Conde São Januário", e a subsequente aquisição de equipamento mais moderno e sofisticado com impacto imediato na qualidade dos cuidados disponibilizados à população de Macau. Mas tão ou mais importante que este investimento no "hardware" foi a aposta no investimento no "software", ou seja, em diferenciar os recursos humanos locais na área médica.

- Quer explicar?

M.É. - Fiz parte do primeiro recrutamento ao abrigo do protocolo que tornou extensivo a Macau, o Serviço Medico à Periferia que trouxe ao território os primeiros quatro "mosqueteiros": eu, o meu irmão Humberto, o Nuno Simões e o João Frexes. Fomos enviados para fazermos a formação em diferentes especialidades no intuito de voltarmos a Macau com as diferenciações que nos permitissem alavancar a autonomia de Macau relativamente à cronica dependência do recrutamento ao exterior.

- Missão cumprida?

M.É.- Sim, sim. Voltámos com a missão cumprida. Eu como cardiologista, o Humberto especializado em medicina desportiva, o Nuno na pediatria e o Frexes cirurgia geral. Outros se seguiram e assim se foi construindo, pela primeira vez em Macau, um núcleo de especialistas residentes, em contraste com o caracter temporário que é inerente ao contrato ao exterior.

- E esse investimento no "software" traduziu-se, na prática, em quê?

M.É. - Nasceram ou foram desenvolvidos serviços que não existiam ou eram mais rudimentares, caso da Cardiologia, Cuidados Intensivos, Medicina Desportiva (Humberto Évora), Pediatria (Jorge Humberto-Nuno Simões), Cirurgia Plástica e Queimados (João Peixoto), Cirurgia Geral (João Frexes), Medicina Interna (António Vital), e por aí adiante. Tudo isto teve um "autor" que faço questão em nomear e prestar neste momento a devida homenagem: o então diretor dos SSM, Dr. Paz Brandão.

- E que outras decisões recorda no caminho do "grande salto em frente", de que falou no início?

M.É. - Seguiu-se outro passo importante, para o qual também a oportunidade de contribuir e que passou pela abertura da formação de especialistas locais, como hoje é bem visível mas que não era na altura um dado adquirido. Naturalmente, em quatro décadas, muitos outros aspetos mereceriam, por ventura, igual destaque, mas por um critério de "economia", opto por sublinhar os acima referidos.

- O que pensa ficou por fazer ou poderia ter sido feito de forma diferente?

M.É. - É sempre um exercício especulativo, conhecendo o " futuro", dizer o que faríamos no "passado". Mas opto por lamentar dois aspetos. Primeiro, o tempo que o poder administrativo demorou a compreender e implementar os investimentos necessários mais rapidamente. Demorou-se muito tempo. Em segundo lugar, não ter conseguido executar um plano de formação assente em dois itens: enviar para o exterior um grupo de seis a dez médicos locais (para Portugal, Inglaterra, Austrália, Estados Unidos, etc) que voltariam já especialistas, e simultaneamente, a contratação de especialistas para formar "formadores" localmente.

- Em concreto o que se poderia ter feito mais rapidamente?

M. É. - Na altura em que se preparava o fim do monopólio do jogo e a abertura a novos atores, tive a oportunidade de propor que fosse incluído no caderno de encargos para os novos contratos a construção de um hospital, entregue chave na mão... e estávamos no início do primeiro Governo pós transição de soberania. As consequências teriam sido assinaláveis na evolução do sistema de saúde de Macau.

- Como avalia a resposta dos SSM às necessidades da população do território?

M.É. - No que diz respeito aos aspetos técnicos, manteve-se uma adequada evolução na capacidade de resposta, seguindo-se princípios e estratégias internacionalmente aplicadas nestes contextos. Do ponto de vista do trabalho administrativo no dia-a-dia, tem sido cada vez mais complicado para quem não domina o chinês escrito. A capacidade de resposta em matéria de tradução dos documentos é inferior ao ritmo dos trabalhos exigidos.

- O Conde de São Januário, a cuja direção pertenceu, assinala este ano o 30º aniversário. Um segundo hospital público está na calha, mas vai chegar com anos de atraso. Há queixas da população, designadamente no tempo de espera pela prestação de alguns serviços. Quer comentar?

M.É. - Se olharmos, por exemplo, para a área de atendimento de Lisboa, onde trabalhei alguns anos, vemos que para responder a uma população aproximadamente semelhante à nossa, existem inúmeros hospitais e vários serviços de urgência. É, por isso fácil concluir que o novo hospital será útil para responder à grande pressão que se faz sentir para absorver os doentes que recorrem ao hospital, quer para as urgências, quer para a consulta externa, além de outras vantagens inerentes.

- Pensa que Macau tem escala, dimensão suficiente, para justificar uma Faculdade de Medicina?

M.É. - Acho que uma Faculdade de Medicina em Macau faz todo o sentido. Embora não tenha tido acesso ao estudo de viabilidade em que se baseou a abertura no corrente ano da Faculdade de Medicina da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau MUST (ensino privado) , penso que se deve olhar para o território no contexto definido pelo poder central, plasmado na política designada para a Grande Baía da República Popular da China, onde é suposto Macau integrar-se. Por isso, considero a faculdade, a par da criação da Academia Médica de Macau, dois pilares muito importantes para garantir a qualidade e o bom nível da prática da Medicina em Macau. A primeira focando-se no ensino pré graduado, a segunda dedicando-se à regulamentação das especialidades.

- Olhando para todos esses anos de prestação na saúde em Macau, que comentário lhe ocorre fazer relativamente à sua longa carreira nos SSM?

M.É. - Que foi gratificante a oportunidade de devolver à terra onde nasci e me criei, o melhor do meu esforço, e ficar com a sensação de que fui útil.

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