Seis mulheres escalam o Kilimanjaro contra a discriminação dos albinos

Escalada começa a um de outubro. O Kilimanjaro é a mais alta montanha de África mas o grupo de mulheres "está preparada para uma expedição que, certamente, não está ao alcance da maioria das pessoas".

Seis mulheres africanas com albinismo que superaram abusos, violações e a ameaça da morte preparam a escalada do ponto mais alto de África, Monte Kilimanjaro, para chamar a atenção para as perceções negativas em torno de pessoas afetadas por esta mutação genética, escreve nesta quinta-feira a Reuters.

As alpinistas - com idade entre 26 e 35 anos, naturais do Quénia, Tanzânia, Nigéria, África do Sul, Zimbábue e Senegal - dizem que a sua caminhada de sete dias até à altitude de 5895 metros na Tanzânia é para celebrar pessoas com albinismo. "Estamos cansados ​​de nos dizerem que somos incapazes, pessoas amaldiçoadas e que não podemos ser parte da sociedade", diz Jane Waithera, ativista queniana e coorganizadora da expedição "Climb for Albinism", que começa no primeiro dia de outubro.

"Somos seis mulheres africanas com albinismo, que tiveram sucesso em suas vidas apesar das dificuldades, e vamos escalar a mais alta montanha do continente para dar voz às pessoas com albinismo - e esperamos ser uma inspiração para os outros."

Com Waithera, estão o baixista senegalês Maah Koudia Keita, a optometrista nigeriana Onyinye Edi, a atriz e cantora sul-africana Regina Mary Ndlovu, a empresária tanzaniana Mariamu Staford e a professora zimbabueana Nodumo Ncomanzi.

Pessoas com albinismo - falta de pigmentação na pele, nos cabelos e nos olhos - são frequentemente evitadas e atacadas em África, por falta de conhecimento sobre esta rara deficiência genética. Em alguns países, as suas partes do corpo são valorizadas para atos de feitiçaria, uso como amuletos ou para elaborar "poções mágicas". As mulheres arriscam a violação devido a mitos a sugerirem que o sexo com uma mulher com albinismo pode curar a sida.

Numerosos relatórios sobre assassinatos rituais e atos de bruxaria em países como Tanzânia, Malawi e Burundi nos últimos anos levaram as Nações Unidas a nomearem um enviado especial para proteger as pessoas com albinismo.

Braços decepados
As seis mulheres da expedição viveram situações terríveis - algumas mais terríveis do que outras - e querem agora chamar a atenção para o estigma que paira sobre pessoas como elas.

Há dez anos, Staford teve seus braços decepados por três homens enquanto dormia com o filho recém-nascido. Mas com a ajuda de uma instituição de caridade que lhe permitiu adquirir próteses para os braços, além de uma máquina especial, começou seu próprio negócio de tricô e agora é uma ativista proeminente na Tanzânia.

"Muitas coisas aconteceram na minha vida, mas aqui estou. Cortaram-me os braços, mas não a minha vontade de sobreviver e de ser alguém", diz Staford, de 35 anos, à Thomson Reuters Foundation. "Quero que todos entendam que as pessoas com albinismo podem fazer grandes coisas se tiverem oportunidades."

As outras mulheres contaram histórias de como foram abandonadas pelos pais quando nasceram, como foram maltratadas na escola ou violadas. Algumas delas dizem que nem sequer sabiam que eram albinas até à idade adulta - com dificuldades na escola, devido à má visão (uma das características do albinismo) e não entendendo por que não podiam brincar ao Sol, devido à sensibilidade da sua pele. "Nunca pude ver o quadro nas aulas corretamente, mas a professora nunca acreditaria em mim se eu o dissesse. Como resultado, não sabia ler nem escrever até aos 25 anos", recorda Ndlovu, de 29 anos.

Dificuldades
Mas a ascensão do Kilimanjaro não será fácil. Como parte do seu treino, em maio, escalaram o Monte Quénia, com 5199 metros. Mas duas acabaram por desistir.

Elia Saikaly, cineasta e cofundador da expedição, afirma que as mulheres vão enfrentar temperaturas abaixo de zero perto do topo do Kilimanjaro, e a altitude extrema dificultará a respiração - mas todas as precauções foram tomadas. A expedição leva óculos de sol e protetor solar personalizados para cada uma para proteção dos olhos e da pele. Há uma equipa de cerca de 50 pessoas - médicos, carregadores, guias e equipa de filmagem - para apoiar o grupo da escalada.

"Kilimanjaro não é pera doce. É muito difícil de escalar", diz Saikaly. "Mas eu sei que elas são capazes porque estão prontas - e, francamente, todas elas escalaram montanhas muito maiores em suas vidas." A subida começa a um de outubro e realiza-se por quatro a cinco horas por dia. Esperam chegar ao topo a 7 de outubro.

"Esta é uma maravilhosa iniciativa, que nos inspira de tantas formas. O Kilimanjaro foi conquistado por milhares de alpinistas, mas nunca por um grupo como este", garante Marcella Favretto, do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. "A escalada destas mulheres conta uma história de resistência extraordinária e de heroísmo - passaram pela exclusão e, em alguns casos, por incrível dor física, mas aqui estão preparadas para uma expedição que, certamente, não está ao alcance da maioria das pessoas."

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