Premium Rebeldes compram armas a traficantes enquanto negoceiam a paz

Comboio das Nações Unidas em Bambari, na RCA

Os rebeldes muçulmanos continuam a ser abastecidos de armas por traficantes do Sudão, apesar de estarem envolvidos nas negociações de paz em curso

A denúncia consta de um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado na terça-feira, 2 de janeiro. Da autoria da comissão encarregada de seguir a aplicação das sanções à RCA, o documento salientou que os rebeldes muçulmanos, líderes do movimento designado ex-Seleka, se rearmaram perante a deslocação de tropas governamentais, recém-formadas, para as zonas sob a sua influência.

Os rebeldes tomaram o poder brevemente em 2013. "A chegada de armas do Sudão, constada desde janeiro de 2018, levou a que os combatentes da UPC e da FPRC sejam cada vez mais vistos com pistolas e espingardas de assalto do tipo AK, tal como com lança-granadas e metralhadoras instaladas nos seus veículos", especificou-se no documento apresentado ao Conselho de Segurança.

As milícias Unidade para a Paz na RCA (UPC, na sigla em Francês) e da Frente Popular para o Renascimento da RCA (FPRC) são duas fações resultantes da ex-Séléka, rebelião maioritariamente composta por muçulmanos do norte do país, que tinha tomado o poder em Bangui entre março de 2013 e janeiro de 2014.

Em resposta, as milícias de autodefesa anti-balaka, composta por centro-africanos cristãos e animistas, fizeram uma contraofensiva.

Desde 2013 que a ONU interditou à RCA a compra de armas e munições. Mas o Conselho de Segurança aprovou a venda excecional de armas por parte de França, Federação Russa, China, EUA e Bélgica ao Governo de Bangui, para consolidar um exército centro-africano mal equipado.

Formadores militares, da Federação Russa e União Europeia, também foram enviados para o país.

"Para reforçar a sua posição militar com vista a um diálogo futuro e preparar-se para um futuro confronto com as forças nacionais de segurança e defesa, os grupos da ex-Seleka continuaram a adquirir armas", apontaram os membros da comissão, no documento.

Segundo o relatório, a UPC recebeu um fornecimento de espingardas de assalto, metralhadoras e munições em abril e um novo acordo foi realizado em setembro com traficantes sudaneses, correspondente a uma encomenda equivalente a 165 mil dólares (145 mil euros)

A União Africana está a tentar, desde julho de 2017, sentar à mesa das negociações os grupos armados e o Governo.

O relatório foi divulgado esta semana antes de uma votação no Conselho de Segurança, prevista para 30 de janeiro, sobre designadamente a renovação do embargo de armas à RCA.

A RCA caiu no caos e na violência em 2013, depois do derrube do ex-Presidente François Bozizé por vários grupos juntos na designada Séléka (que significa coligação na língua franca local), o que suscitou a oposição de outras milícias, agrupadas sob a designação anti-balaka.

O conflito neste país, com o tamanho da França e uma população que é menos de metade da portuguesa (4,6 milhões), já provocou 700 mil deslocados e 570 mil refugiados, e colocou 2,5 milhões de pessoas a necessitarem de ajuda humanitária.

O Governo do Presidente Faustin-Archange Touadéra, um antigo primeiro-ministro que venceu as presidenciais de 2016, controla cerca de um quinto do território.

O resto é dividido por 18 milícias que, na sua maioria, procuram obter dinheiro através de raptos, extorsão, bloqueio de vias de comunicação, recursos minerais (diamantes e ouro, entre outros), roubo de gado e abate de elefantes para venda de marfim.

Portugal participa na Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA, comandada pelo tenente-general senegalês Balla Keita, que já classificou as forças portuguesas como os seus 'Ronaldos'.

"Ronaldo é o melhor jogador do mundo e quando as nossas tropas são classificadas de 'Ronaldos' isso tem uma leitura muito clara. Sentimos orgulho pela forma como o seu trabalho é reconhecido", disse o ministro da Defesa Nacional, João Gomes Cravinho, à agência Lusa.

Portugal tem 214 militares empenhados em missões na RCA, dos quais 159 na MINUSCA - uma companhia de paraquedistas e elementos de ligação -, e 45 na Missão Europeia de Treino Militar-República Centro-Africana (EUMT-RCA).

A importância da participação portuguesa é ainda salientada pelo facto de o 2.º comandante da MINUSCA ser o general Marco Serronha e o comandante da EUMT-RCA ser outro oficial general português, o brigadeiro-general Hermínio Teodoro Maio.

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