Premium Os traumas herdados pelos filhos dos ex-combatentes

Passados quase 45 anos sobre o final do conflito com as colónias africanas (1961-1974) ainda há feridas que sangram. A guerra deixou marcas nos ex-combatentes que as passaram para os filhos, vítimas de stress pós-traumático secundário. Histórias de quem não combateu mas herdou outras guerras para travar.

"As piores palavras que ouvi na minha vida foram ditas pela boca do meu pai. Chamou-me de tudo, as coisas mais asquerosas que se possa imaginar." Entre os muitos insultos que o pai lhe dirigiu e as tareias que lhe deu, há uma coisa que Diana não esquece: "Um dia disse-me 'podes sair daqui e dizer que te fiz tudo, só não foste violada'. Disse-me isto na cara."

Diana não esquece, mas perdoa. Perdoou o pai na morte - porque, apesar de ter tanto medo dele que chegava a desmaiar só pela sua presença, e de ter desenvolvido uma infeção no estômago e nos intestinos porque as horas das refeições eram as piores, gostava muito dele. Era o seu pai. O melhor pai do mundo até aos 11 anos, diz. O homem carinhoso que tratava dela e a levava à escola quando a mãe estava a trabalhar. E perdoou-o porque teve coragem de lhe dizer tudo, de bom e de mau. Que ele a maltratava, que era mau, mas também que, ainda assim, o amava.

"Nunca deixei de gostar dele, era o meu pai. E havia certas particularidades que recordo com uma boa sensação. Tentei sempre mudá-lo, tentei falar com ele quando estava sóbrio ou quando não estava, a bem ou a mal, pedi-lhe que mudasse e aproveitasse a vida de outra maneira."

No Exército existem 700 deficientes militares, ou seja, homens com incapacidade igual ou superior a 30% adquirida em campanha, devido a PTSD (post traumatic stress disorder)

O pai de Diana foi combatente na Guerra Colonial, em Angola, e sofria de stress pós-traumático. Diana, de 28 ano, é vítima de stress de guerra secundário, uma doença que afeta as pessoas que vivem em contacto estreito com os veteranos que sofrem daquele distúrbio. O assunto tem sido estudado sobretudo em familiares dos veteranos norte-americanos do Vietname e começa também a ser aprofundado em Portugal. Segundo o Ministério da Defesa Nacional, no Exército (que regista a grande maioria dos casos) existem 700 deficientes militares, ou seja, homens com incapacidade igual ou superior a 30% adquirida em campanha devido a PTSD (post traumatic stress disorder, na sigla em inglês). "Este número não corresponde naturalmente ao universo de ex-combatentes que poderão sofrer de stress pós-traumático de guerra, mas não reúnem os requisitos para serem qualificados como deficientes das Forças Armadas", acrescenta o ministério.

Dos 2073 utentes acompanhados pela Rede Nacional de Apoio criada pelo Ministério da Defesa, 139 são cônjuges e 85 são filhos. A Apoiar - Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra está a seguir Diana e mais 13 filhos de veteranos do ultramar e ainda 36 mulheres.

"Trabalhamos com as esposas e com os filhos o resultado de uma perturbação do ex-combatente, por isso se fala do trauma secundário. Estas famílias são influenciadas pelos sintomas do ex-combatente - o embotamento afetivo, o isolamento social, a depressão, a ideação suicida, o abuso de substâncias, as ideias delirantes. Tudo isto faz que a família seja disfuncional, porque influenciam toda a dinâmica familiar. A família é um sistema aberto, em que cada membro tem o seu papel, e todos se influenciam mutuamente. Se há um elemento que tem uma perturbação, estes sintomas vão influenciar o bem-estar dos outros", explica a psicóloga da Apoiar, Carla Santos.

A grande diferença entre stress pós-traumático e stress pós-traumático secundário é que no primeiro caso o agente que causa o trauma é experienciado pelo próprio; já no segundo caso, o agente causador de stress está associado à convivência com alguém com trauma de guerra.

O terror de Diana: só de ouvir o barulho das chaves ficava com espasmos

A vida de Diana tem sido bastante influenciada pelo trauma de guerra sofrido pelo pai. A mesma vida que, afinal, lhe deu dois pais. O mesmo homem que conseguiu ser o melhor pai do mundo até aos seus 11 anos e o pior a partir daí. Para a filha, o marco que representa essa terrível mudança, a forma agressiva, verbal e física, com que começou a tratá-la, foi o casamento da irmã. "Parecia que ele não queria que ela saísse de casa." Nesse dia o pai apareceu de cabelo rapado a pente zero, com uma cara diferente, nem parecia a mesma pessoa. E tudo mudou a partir daí. Pelo menos, no mundo de Diana e da sua mãe.

"Aos meus 16 anos, o meu pai teve um princípio de enfarte do miocárdio, disseram-lhe para comer e beber de outra maneira. Deixou de trabalhar e as coisas pioraram porque começou a beber frequentemente e o resultado já não era o de antes." Antes, contava a mãe de Diana, quando bebia o marido era uma pessoa alegre. Mas mudou, com ela e com a filha: "Passou para o ataque, a querer discutir comigo por tudo e por nada. Se eu respondia, ele ofendia-me, chamava-me nomes, queria bater-me... às vezes batia. Eu dizia que não queria discutir mais, ia para o meu quarto e ele quase partia a porta. Não tenho dedos nas mãos para contar quantas vezes isso aconteceu."

A relação de Diana com o pai transformou-se num filme de terror, a ponto de ela ter desenvolvido uma infeção no estômago e nos intestinos, porque as refeições eram os piores momentos.

Os combatentes aprenderam a libertar a parte emocional através da emotividade e da agressividade em contexto de guerra, explica a psicóloga Carla Santos. "Como é que lidamos com as nossas emoções? Com a agressividade. E eles trazem esse padrão da guerra." Mas alerta que nem sempre é o trauma que traz a violência, mas sim o abuso de substâncias. "A pessoa está doente, tem embotamento afetivo, é pressionada socialmente para estar no seio familiar, e para aguentar faz o quê? Ou vai beber ou vai consumir substâncias, porque a ajudam a ficar mais descontraída. Dão uma representação mental às drogas e ao álcool para o conseguir e é neste contexto de abuso de substâncias que muitas vezes passam ao ato."

A partir dessa altura, dos seus 16 anos, Diana não se lembra de o pai não beber. Parecia que vivia num filme de terror, sempre que o pai estava em casa havia discussões. "Até que o meu organismo começou a reagir, comecei a ter ataques de pânico, a desmaiar. Só de sentir as chaves a entrar na porta começava-me a passar, a suar ou a ficar totalmente fria, começava a ter espasmos, parecia que estava a ter um ataque de epilepsia. Tinha vómitos, diarreias, dias a fio, que foram mal diagnosticadas como viroses e gastroenterites. Só passado muito tempo é que se percebeu que eram ataques de ansiedade, mas entretanto desenvolvi uma infeção no estômago e nos intestinos."

As nossas refeições eram o pior momento do dia. O meu pai dizia-me 'és uma merda, uma cabra, uma drogada, uma puta'.

Diana volta a entregar-se às terríveis imagens do passado, fala com clareza mas desvia o olhar. "As nossas refeições eram o pior momento do dia. O meu pai dizia és isto, és aquilo, não vales nada, descredibilizava a minha mãe e às vezes íamos embora. A mim não me deixava comer, dizia 'és uma merda, uma cabra, uma drogada, uma puta'. Depois chegou à minha mãe. Devias morrer, não vales nada..."

Foi aos 23 anos que começou a descompensar. Teve dois esgotamentos, entrou num processo depressivo que ainda hoje tem altos e baixos - os ataques de pânico não a deixavam trabalhar. As consultas e o acompanhamento psicológico ajudaram a prever e a controlar os ataques de ansiedade, mas a infeção no estômago e nos intestinos ainda não está totalmente curada.

São tantos os episódios que a marcaram, como aquele dia na sala em que estava a comer gelado e, como já não aguentava mais, atirou a taça ao chão para não a atirar ao pai. Dessa vez, a reação dele não foi bater-lhe. "Partiu a casa toda..."

Mas apesar de o ter perdoado, lamenta que o pai tenha morrido subitamente sem nunca ter havido uma conversa profunda entre os dois. Diana queria ter tido essa conversa, embora acredite que não iria mudar nada, que ele não iria perceber o seu lado, as suas mágoas: "Nunca percebeu o mal que me fez."

Até porque mesmo que não estivesse alcoolizado era igual. "A minha mãe diz que quando ele falava comigo era como se se transformasse noutra pessoa, ficava com os olhos enormes, parece que estava a ver o diabo, como se tivesse de descarregar toda a raiva em cima de mim."

A minha mãe diz que quando ele falava comigo era como se se transformasse noutra pessoa, ficava com os olhos enormes, parece que estava a ver o diabo.

Diana continua a sofrer das doenças que contraiu com o convívio paterno. Mas além do perdão encontra também justificações para o temperamento do pai: "São outras as variáveis que entram na história do meu pai, não é só a questão da guerra." Veio de um meio pobre, de uma vila em Trás-os-Montes, passou fome, andava descalço na neve. Tinha 12 irmãos e era filho de pai incógnito, alguns irmãos acabaram "por morrer de fome."

"Dos homens, o meu pai foi o único que chegou à vida adulta. Não tinha presença do pai. O facto de ser filho de pai incógnito era uma vergonha para ele, a minha mãe conta que às vezes chorava por isso."

A triste infância de Ilda: as tareias em vez dos abraços

"Não me lembro de o meu pai me dar carinho, sou a mais velha de sete filhos e não me lembro de andar ao colo. Quando ele chegava do trabalho, a minha mãe fazia questão de eu já estar a dormir porque pela mais pequena coisa havia logo um estalo... Às vezes olhava para outras crianças na escola e fazia comparações, via os pais a passar a mão pela cabeça dos filhos e pensava que gostava que o meu pai me fizesse o mesmo."

Ilda Rodrigues, 49 anos, revive momentos da sua infância, que foi tudo menos feliz. Uma infância feita de pancada, de falta de afeto. Vivia apavorada - "era mesmo medo" - com a figura paterna. Tudo o que fizesse, sabia, podia ser motivo para levar pancada, ela, os irmãos e a mãe - fosse porque o pai estava sentado à mesa e ainda faltavam uns minutos para acabar de fazer o almoço, fosse porque se distraía com uma brincadeira e levava mais de meia hora a fazer a pé os dois quilómetros entre a sua casa e a escola... Ilda questionava-se: "Porque é que ele me bate?"

Foram anos disto, até que aos 16 foi servir para casa de uns professores em Castelo Branco e quatro meses depois para a casa de uns médicos em Lisboa. Foi aqui que lhe fizeram pela primeira vez uma festa de anos, aos 18 ofereceram-lhe a carta de condução, levavam-na a passar o verão no Algarve... Ficou lá até 1990 e viu como vivia uma família sem violência. Dizia de si para si: "Quero ter uma família assim."

"Aquela vivência era tão diferente do que eu estava habituada, às vezes sentava-me a observar." E pensava: "Um dia que seja mãe, não vou fazer aquilo que me fizeram. Vou tentar ser mais compreensiva, dar mais carinho aos meus filhos." Garante que a repulsa dos afetos que afetaram as suas relações conjugais nunca se estendeu aos filhos.

Casou-se, teve duas raparigas, mas as mossas de uma infância sem afeto e sem felicidade estavam lá e começaram a influenciar a relação. Ilda começou a rejeitar o carinho do marido, empurrava-o. Voltou a acontecer com o segundo companheiro, de quem tem um filho. Não achava normal: "Rejeitar porque deixaste de gostar ou ter complicações é uma coisa, mas assim... Pensei, deve ser alguma coisa que tenho, tenho algum problema. Andava ansiosa."

E foi a assunção de que alguma coisa deveria estar errada que a levou a procurar ajuda psicológica e a descobrir que o medo dos afetos estava relacionado com o seu passado, a sua triste infância. É acompanhada há cerca de quatro anos na Apoiar, onde o pai, ex-combate na Guiné, e a mãe também são apoiados.

As crianças levavam ex-combatentes a buscar recordações de situações traumáticas que viveram na guerra.

"Quando estes homens vinham da guerra não tinham capacidade de se vincular com as crianças. Devido aos seus sintomas, não conseguiam ter emoções, afetos. Ou porque tinham embotamento afetivo ou porque as crianças daquela idade, de alguma forma, os levavam a buscar recordações de situações traumáticas que viveram na guerra. Há muitas recordações traumáticas nestes homens, e daí o sentimento de culpa. Ao olharem para um filho daquela idade, iam buscar o que viram. Até podem não ter feito, mas assistiram", explica a psicóloga.

Ilda ainda se lembra do dia em que vinha da escola a brincar ao eixo com os colegas e de como a meio do caminho o pai lhe bateu porque não estava em casa à hora marcada. "Deu-me com o cabo de uma sachola, caí logo no chão." Outras vezes jogava futebol, mas para que isso acontecesse, havia outra criança que ficava em cima de umas pedras a ver se o pai dela aparecia... mal o via a aproximar-se, avisava-a e ela corria para casa. Ou quando estava a lavrar o campo - até aos 7 anos viveu em Lisboa, mas foram de férias para uma aldeia de Cinfães do Douro e nunca mais voltaram - e um animal fugia. Aí o pai "desorientava-se, pegava na sachola, era o animal e nós que levávamos".

Viveu pouco anos com os pais, mas foram suficientes para lhe deixar marcas profundas. "Foi uma infância triste. Às vezes diziam-me 'não sei o que tu tens porque não sorris para ninguém'. Foi uma infância com falta de carinho e atenção. Mas os tempos eram outros, hoje falo com os meus filhos o que antes era impensável."

Havia guerra por tudo e por nada. "Já não sei se eram gritos, só a voz metia um respeito, era medo mesmo! Era do estilo de a televisão estar ligada e nós termos de a apagar quando o meu pai chegava porque sabíamos que podia haver logo confusão." Mas também podia haver pelo contrário, era imprevisível...

A vida que teve até aos 16 anos na casa dos pais não lhe abalou só o campo dos afetos: "A violência afetou-me, estou sempre alerta, desconfiada. Estou sempre à defesa, mesmo com os colegas." Ilda vai desfiando as recordações, mas ri-se de algumas situações. "Vou chorar? Já chorei muito..." Uma defesa. Ou a aceitação de um passado que não pode mudar, que fez mazelas fortes no seu presente mas que procura minimizar no futuro.

É como se tivesse virado a página. Mas perdoou? "Perdoar, perdoar... há coisas que não se perdoam, mas há coisas de que me esqueci."

João: "Não me lembro de alguma vez o meu pai dizer que gostava de mim"

O pai de João Campos combateu cerca de dois anos em Angola. Na pré-adolescência, embalado pelo romantismo dos filmes de guerra, e sabendo que tinha um ex-combatente em casa, perguntava-lhe sobre essa experiência. O pai ainda lhe falou da vez que teve mais medo, quando esteve na iminência de ser atacado por fogo amigo, ou do camarada que morreu a seu lado.

Era primeiro-atirador, por isso o filho não tem muitas dúvidas de que possa ter disparado a matar. Mas quando o questionava diretamente sobre isso, as respostas eram sempre evasivas. "Não sei" ou "a guerra não é como nos filmes" foram algumas das respostas que obteve. Quando as teve. Porque o assunto era tabu e só vinha à baila por insistência, nunca espontaneamente.

Os anos foram passando, João tem agora 34 e dois filhos. É ele que procura ajuda psicológica na Apoiar. O pai nunca lá foi. E esse vai ser o assunto de uma conversa que está a preparar para ter com ele. Com muito jeito, até porque conversas profundas não fazem parte da relação entre os dois. "Falamos de coisas banais. Mas também podemos estar dois anos sem falar. A última vez que falámos foi em novembro porque fui pai e perguntei-lhe se não queria conhecer a neta."

João isola-se, tem um problema com os afetos. O mesmo que identifica no pai, embora no seu caso ainda não seja possível apontar se é resultante da experiência de guerra. Mesmo que João tenha poucas dúvidas de que ele sofre de stress pós-traumático. "Acho que o meu tem plena consciência de que ficou traumatizado. Não é por falta de conhecimento, é por não querer reconhecer."

"Os comportamentos dele eram normais, mas olhando para trás sei que havia algumas coisas... Não me lembro de alguma vez que me tenha dado um abraço, que tenha dito que gostava muito de mim. Não é que eu não me tenha sentido amado, mas não havia este tipo de demonstrações de afeto. E a forma como se distancia das pessoas, também eu demonstro."

João fala da falta de afetos por parte do pai. Tal como Ilda. É um dos sintomas do PTSD, que se traduz na ausência ou na diminuição da expressividade emocional - os especialistas chamam-lhe famílias "alexitímicas" ou "congeladas", sem intimidade, com fronteiras estabelecidas e padrões disfuncionais. Por outro lado, o embotamento afetivo é também uma forma de o ex-combatente se proteger de tudo o que possa sentir, mesmo que isso o distancie da mulher e dos filhos.

O isolamento social e a dificuldade de mostrar afetos a quem ama atormentam João. Quer pôr um ponto final nisso, culpabiliza-se por não conseguir dar mais, mesmo que queira. Procurou ajuda para que abraçar os filhos ou a mulher seja algo espontâneo, que não o retraia. E para que à mínima coisa que o desagrade não o leve a fechar-se em si mesmo durante dias e dias. Sempre a implodir, nunca a explodir.

Sempre evitou multidões, nunca gostou do toque de pessoas que não lhe são próximas. Mas, de há uns cinco anos para cá, a situação piorou. Piorou de tal forma que começou a ter ataques de pânico. Primeiro foram os vómitos constantes, mesmo que não tivesse nada no estômago, depois as sensações de falta de ar e de desmaio. Já lhe aconteceu no trânsito. "Basta sentir que não tenho forma de escapar."

O que mais lhe custa é saber que também causa sofrimento à família. E tem feito um esforço para conseguir exteriorizar as emoções. Com o pai, vai começar por ter uma conversa. Mas custa-lhe tanto falar, expor-se. Prefere os sms. Está a trabalhar para ganhar coragem e passar às palavras ditas.

Semanas sem dormir e o coração de Sandra a mil

Sandra Mendes, 37 anos, vive a mil à hora. A uma velocidade tão rápida que às vezes chega a passar dias e dias pela cama sem dormir. É uma ansiedade inexplicável, com o coração a bater tanto que às vezes até lhe parece que a cama está a tremer. "Sinto que vou desmaiar, começo a transpirar, a ficar maldisposta, é um aperto no peito."

Partilha esta ansiedade com o pai, que combateu em Moçambique. Foi um episódio paterno que a levou pela primeira vez à Apoiar, para o ajudar a ele. Agora é ela que é lá seguida, ele foi encaminhado para outra psicóloga e deverá passar a ser acompanhado no Júlio de Matos porque "não está a ter progressos". Sofre de stress de guerra.

Sandra mantém-se na Apoiar. Os dois entendem-se muito bem, às vezes pai e filha vão dar uma volta para falar, desabafar. Foi há sete ou oito anos que o pai bebeu de mais e começou a disparatar com outro homem, uma coisa inusitada, do nada, que o levou a ir pedir desculpa no dia seguinte, mesmo sem se lembrar do que tinha dito ou feito. Outros episódios estranhos se seguiram, como o do Dia de Todos-os-Santos, quando caiu na garagem e ali ficou até que o foram buscar.

A família já tinha reparado que de cada vez que dava uma notícia sobre a guerra ou mesmo sobre a atualidade moçambicana, ele desatava a chorar. "Ficava cheio de nervos, ansioso, e isso tem vindo a piorar com a idade." Até as fotos daqueles tempos estão guardadas, porque lhe fazia mal vê-las.

Quando está com crises de ansiedade, Sandra Mendes chega a estar duas semanas sem dormir.

"A minha mãe contava que, quando se casaram, o meu pai se escondia debaixo da cama por causa dos foguetes, não podia ouvir barulhos, era um pouco agressivo com os animais. Mas nunca foi agressivo para a minha mãe, nem para nós", conta Sandra.

Sandra diz que ainda não é líquido que as suas crises de ansiedade têm que ver com as do pai, "mas há um paralelismo". "O meu pai também é muito acelerado, já não dorme se tem alguma coisa."

Basta ter uma pedrinha no sapato, uma fase de maior pressão no trabalho, para entrar em crise. "Quero dormir, estou morta de cansaço, mas não consigo. Levanto-me, deito-me, vou beber leite, penso a uma velocidade estonteante, nos pequenos espaços que durmo ainda acordo mais cansada porque a minha cabeça não para. E não posso ficar prostrada, não posso ficar sem energia porque preciso dela." E assim chega a estar uma ou duas semanas sem pregar o olho.

Foi nos tempos da faculdade, entre os 21 e os 25 anos, que começaram as crises de ansiedade - trabalhava no Saldanha, em Lisboa, e estudava no Monte de Caparica. "Andava numa correria. Passava muitas noites sem dormir, fazia diretas a estudar e ia das diretas para os exames. As minhas colegas iam dormir e eu voltava para o trabalho. No início chorava baba e ranho, pensava que estava a acontecer-me alguma coisa muito grave, até a cama parece que abanava com o bater do coração. Pensava que ia morrer."

A gravidez trouxe-lhe as melhores noites de sono, diz Sandra. Hoje está a aprender a controlar a ansiedade, a não entrar em pânico. É medicada para dormir. E já sabe que não pode beber café ou chá, e uma simples meia de leite deixa-a a mil.

O papel de cuidadoras das mulheres dos veteranos

Problemas conjugais são um padrão nas famílias dos veteranos de guerra com PTSD - a agressividade e a violência contra as mulheres estão muitas vezes presentes. Elas, contudo, adotam um papel de cuidadoras e de apaziguadoras - como a mãe de Ilda, que a adormecia antes de o marido chegar para evitar conflitos.

Carla Santos, psicóloga da Apoiar, diz que as famílias de veteranos com trauma de guerra são muitas vezes famílias que não falam sobre emoções.

"Estas esposas assumem o papel de cuidadoras nestas famílias, o papel de mãe, de amigas. Têm um papel de cuidadoras dos maridos e tentam proteger muito os filhos. Ouvimos muito os filhos dizerem que desde pequeninos as mães dizem 'fala baixo, não enerves o teu pai, tens de ser um bom menino, o pai está a descansar'. E ao terem este papel estão a reforçar também o seu embotamento afetivo e o isolamento social. Quando a criança não tem interação porque a mãe diz para não aborrecer o pai, também está a fazer que a criança se afaste da dinâmica que se tem com o pai...", explica Carla Santos.

São elas que em regra assumem todas as tarefas da casa e relegam as suas necessidades para segundo plano. Mas têm uma vida de dor, medo, zanga, depressão, falta de intimidade emocional e até disfunção sexual. Mas também são elas as primeiras a pedir ajuda - o homem evita mostrar fragilidades. Estas mulheres chegam à Apoiar já cansadas, deprimidas, ansiosas. O pedido de ajuda surge muitas vezes quando os filhos são adultos e já saíram de casa. "É agora que elas se permitem deprimir, até então tinham de ser as cuidadoras tanto do marido como dos filhos."

A rede de apoio aos ex-combatentes

Veteranos de guerra, filhos, esposas, todos afetados pelos traumas de guerra... Existe uma Rede Nacional de Apoio (RNA) para acompanhar os militares com perturbação psicológica crónica resultante da exposição a fatores traumáticos de stress durante a vida militar. Esta rede tem o objetivo de informar, identificar e encaminhar os casos de PTSD adquiridos em contexto de guerra, e prestar serviços de apoio médico, psicológico e social aos utentes da RNA, em articulação com o Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Segundo o Ministério da Defesa, há 2073 utentes da rede inscritos nas cinco associações protocoladas: Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA), Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra (APVG), Associação de Apoio aos Ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra (APOIAR), Associação de Combatentes do Ultramar Português (ACUP) e Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar (ANCU). Das pessoas que recebem apoio desta rede, 139 são mulheres e 85 são filhos.

As associações são apoiadas financeiramente pelo governo através de protocolos, embora também sobrevivam com as quotas dos seus associados. Ao todo, o apoio anula ronda o meio milhão de euros.

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