O negócio dos copos reutilizáveis que não podem ser devolvidos

O sistema dos copos reutilizáveis costuma estar associado ao pagamento de uma caução, mas há empresas que não aceitam a devolução destes copos. Desta forma, dizem os ambientalistas, falha o propósito ambiental e de sustentabilidade desta alternativa aos descartáveis, cuja produção até tem um impacto ambiental maior.

São vendidos a um euro (cerca de nove patacas), apresentados como reutilizáveis e amigos do ambiente, mas, no final, não podem ser devolvidos. Devia existir a possibilidade de o consumidor pagar uma caução e poder devolver o copo, defendem os ambientalistas, mas o Diário de Notícias (DN) sabe que há vários produtores de festivais de música [em Portugal] e outros eventos que se limitam a vender os copos reutilizáveis.

"É um negócio que se está a fazer com os copos reutilizáveis. E não é isso que se pretende. A parte económica está a sobrepor-se à ambiental", diz Carmen Lima, coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus - Associação de Conservação da Natureza Portuguesa.

Para a 5ª edição do Festival A Porta, em Leiria, que decorreu em junho, foi adotado um sistema de copos reutilizáveis, que não funcionou com caução. "Podem ser adquiridos em todos os bares oficiais do festival pelo valor de um euro. Compra o teu copo. Bebe no teu copo. Não haverá devolução, guarda-o como recordação, e leva boas memórias do Festival A Porta para casa", lê-se no site do certame.

Contactada pelo DN, Paula Lagoa, membro da direção, explica que a organização optou por esta solução "porque não existiam condições físicas para a lavagem" dos recipientes. "Não havia condições de higiene e logísticas para receber os copos. Não tínhamos como armazenar milhares de copos no final", explica a responsável, destacando que, "contas feitas, não se ganhou dinheiro com os copos".

Paula Lagoa salienta que "não houve intenção de fazer negócio" e que "a devolução do dinheiro mediante entrega deverá ser pensada em edições futuras". Além disso, adianta, a organização aceitou servir bebidas em recipientes de outros eventos e canecas de metal.

Este tipo de situações acontece um pouco por todo o país, em eventos de diferentes dimensões. Carolina Gouveia, jurista da DECO (Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor), considera que "deve ser dada ao consumidor a oportunidade de fazer a opção: levar o copo para reutilizar noutros eventos ou em casa ou, se não quiser, devolver o copo para que lhe seja entregue o valor da caução". Para a especialista, "essa é que é uma verdadeira política ambiental e de sustentabilidade".

A DECO recebeu, recentemente, uma denúncia de um festival de música onde estavam presentes várias marcas de bebidas, que obrigava os consumidores a comprar copos diferentes para as diversas marcas. "É absurdo. Não pode ser uma atividade lucrativa de vender os copos, mas uma questão de sustentabilidade. O objetivo é que se possa reutilizar o copo o maior número de vezes possível", diz Carolina Gouveia.

"Deve haver a possibilidade de eu ter o meu próprio copo, que levo para eventos e que posso utilizar sempre. Assim é que se promove uma política amiga do ambiente" disse. De outra forma, adianta, estamos diante das chamadas práticas de greenwashing: "Pintam tudo de verde, dizem que são uma empresa amiga do ambiente, mas percebemos que é um negócio tão lucrativo como outro qualquer".

A ideia subjacente à utilização de copos reutilizáveis "é que possam ser usados no mesmo evento ou noutros eventos", defende Carmen Lima. Se isso não acontece, prossegue, "não estamos a diminuir a produção de resíduos, mas a aumentar a produção de bens".

"Não se pretende que haja um negócio, mas nestas questões do ambiente aparecem sempre os negócios de circunstância. É perverso haver negócios do ambiente. Vender copos porque é moda não faz sentido. A caução, sim, faz todo o sentido", salienta a responsável pela área dos resíduos da QUERCUS.

O plástico usado para produzir os copos reutilizáveis é diferente daquele que é usado nos copos descartáveis. "Tem mais impacto ambiental a nível da produção", reconhece Carmen Lima. Contudo, ressalva, para avaliar o impacto é importante analisar o ciclo de vida. Se for reutilizado diversas vezes e se não for deixado ao acaso em qualquer local - como acontecia como os descartáveis -, será, efetivamente, mais amigo do ambiente.

Não há legislação que regule

Neste momento, diz Carmen Lima, ainda não existe legislação específica sobre esta matéria. "Mas a regulação dos plásticos de utilização única vai ser feita nos próximos dois anos. É importante que isso fique esclarecido. Deve ficar definido que os copos devem ser disponibilizados por caução e não por venda".

Por agora, os consumidores devem estar atentos à maneira como os produtores dos eventos apresentam os copos. "O objetivo de uma caução é, de facto, que no final possa devolver o copo e me devolvam o dinheiro. Serve para garantir o bom estado das coisas quando as entregamos. Se a empresa cobra uma caução, tem sempre de aceitar o copo de volta e devolver o dinheiro", explica Carolina Gouveia, acrescentando que, se não o fizer, a organização estará a incumprir em questões contratuais do regime da caução.

Se a empresa informar os consumidores que está a vender os copos, não é obrigada a aceitá-los de volta. Contudo, sublinha, o objetivo deve ser "promover a reutilização".

As políticas variam consoante os eventos. Depois dos copos 100 por cento vegetais usados em 2018, o NOS Alive decidiu este ano doar o dinheiro resultante da devolução dos copos reutilizáveis a duas instituições de solidariedade social: Mansarda e Brigada do Mar.

"Se as pessoas devolvessem o copo para depósito, o dinheiro [um euro] era entregue às instituições", explica ao DN Álvaro Covões, diretor do festival, destacando que a taxa de devolução ainda é reduzida. "O objetivo é que as pessoas que compram o copo possam levá-lo para utilizações futuras. Mas não sabemos se lhe vão dar essa utilização. Assim, tentamos incentivar quem não quer levar o copo, doando o dinheiro a instituições de solidariedade social", explica.

Já o Super Bock Super Rock, introduziu este ano uma alteração com o objetivo de incentivar a reutilização: quem quisesse podia levar os seus copos "amigos do ambiente" das edições anteriores do festival. No evento, que acontece no Meco, são cobrados dois euros no momento em que os festivaleiros levantam o copo, que podem ser recuperados quando este for devolvido. Uma política usada em diversos eventos patrocinados pela cervejeira.

A DECO aconselha os portugueses a "denunciarem e reclamarem" sempre que virem práticas pouco sustentáveis. No mês passado, a associação lançou uma campanha pedindo aos consumidores que denunciem as embalagens com plástico a mais e pretende contactar as empresas para que apresentem alternativas. Até ao momento, diz Carolina, foram recebidas mais de 500 denúncias.

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