Premium "Não é uma obrigação exclusiva de Portugal o investimento na língua"

O novo director do Instituto Português do Oriente (IPOR) defende que o apoio à promoção do português é obrigação de todos os que têm interesse na língua. Depois de quase meio ano à frente do IPOR, Joaquim Coelho Ramos revela os planos para o instituto. A Grande Baía e a Austrália são os destinos que se seguem. Mais haverá, se houver apoio das partes interessadas.

- Quando assumiu o cargo, disse que a primeira fase seria de consolidação. A que se referia?

Joaquim Coelho Ramos - Há uma série de projetos que não foi possível concluir, como o laboratório de línguas, que deve estar pronto este ano. Depois há outros que têm que ver com edições de guias nas áreas do léxico jornalístico, administrativo, económico-financeiro, que esperamos concluir também este ano. Queremos continuar com o projeto noutras áreas, como a saúde. Na cultura, produzimos um roteiro ligado a Camilo Pessanha, que acabou de sair, e participámos na produção, em colaboração com Rosa Coutinho Cabral, de dois DVD sobre o escritor, que também já estão terminados.

- Já a segunda fase queria que fosse de "aproximação à rede que está ligada ao IPOR, aos nossos colegas de outros países aqui à volta". Porque não foi feito esse trabalho de forma mais dedicada até agora?

J.C.R. - Na verdade foi. A questão é que a língua portuguesa está a ser um fator de atração, o interesse está a crescer, portanto importa dilatar o processo. O interesse não é só na aprendizagem do português ao nível académico, mas há muita procura para aplicação direta no mercado de trabalho. Quando falo na aproximação do IPOR aos pontos de rede, ou melhor, na construção de uma rede efetiva entre estes pontos nos países vizinhos, falo de colaborar em todas estas facetas.

-Pode ser mais claro?

J.C.R. - Ensino académico, a língua portuguesa técnica aplicada. Temos um memorando assinado com a província de Sichuan para a formação linguística de médicos chineses que vão em missões de cooperação para países de língua portuguesa. Há toda a vantagem de criar uma rede que não se limite à troca de impressões anual do que está a ser feito e que permita troca de materiais, circulação de professores, atualização da linguística.

- O IPOR e o Instituto Camões têm sido negligentes na atenção a esta parte do mundo, ou melhor, despertaram demasiado tarde?

J.C.R. - Não creio. O IPOR tem uma história de 30 anos na região. Os países têm políticas estratégicas, de línguas e de acolhimento de línguas estrangeiras nos sistemas locais, e nós temos de estar alerta para, quando surgem novas oportunidades, sabermos corresponder. E é isso que tem acontecido. Tem sido feito um esforço, desde há muitos anos, de intervenção em países como o Vietname, a Tailândia, Timor-Leste, Indonésia, universidades no interior da China, onde o português está a crescer a um nível exponencial. Vamos tentando dar o apoio que nos é solicitado, à medida que as oportunidades vão surgindo.

- Foi atribuído a Macau o papel de intermediário entre a China e os países de língua portuguesa. O IPOR tem sabido aproveitar a oportunidade?

J.C.R. - Está a ser aproveitada como provam os trabalhos de acolhimento e formação de professores, mas também nas nossas dinâmicas de sair de Macau e ir ao encontro das instituições. Como é o caso do encontro anual que fazemos com os pontos de rede, em que juntamos professores de universidades estrangeiras para nos dizerem que metodologias estão a usar. Também enviamos professores para dar formação de novos docentes. Cheguei agora da Austrália, que está a criar sinergias connosco para se dar um novo fôlego à língua portuguesa, nomeadamente em Melbourne. O IPOR, na medida das capacidades e do interesse dos países, está a dar resposta ao interesse e expansão da língua.

- O que está a ser feito com a Austrália?

J.C.R. - Estamos a trabalhar para criar um posto de ensino de língua portuguesa, apoiado pelo IPOR e Instituto Camões, e parcerias locais - escolas e academias. Notámos que também lá o interesse pela língua portuguesa é uma realidade.

- Como vê o interesse de países que nunca tiveram uma ligação com a língua?

J.C.R. - Tenho uma posição um pouco suis generis. Não acho que haja um interesse recente na língua. Acho que há um interesse externo recente naquilo que é o interesse dos países na língua. Por exemplo, temos uma história de relação linguística com países como a Malásia, Barém, Vietname e Tailândia, que não é conhecida nos media, na dinâmica social do dia-a-dia e não é muito falada nas universidades. O interesse externo é recente e tem que ver com a estratégia dos países - como a China na aposta no mundo lusófono, do crescimento desses países - como é o caso de Angola, da relação histórica - caso de Portugal. Tudo isto deu visibilidade ao português. É uma visibilidade nova num interesse que não é novo.

- A Grande Baía é um dos grandes planos de Pequim. Há interesse do IPOR na região?

J.C.R. - Há. Vejo que há um interesse crescente de empresários que querem investir nos países de língua portuguesa e, portanto, querem aprender português e que a equipa também aprenda. Temos um plano em colaboração com alguns empresários, que nos abordaram, para cursos de formação nas áreas que são do interesse deles: português empresarial, contabilístico, institucional e para negociação, jurídico. Com estes empresários, queremos procurar uma intervenção no eixo da Grande Baía, nomeadamente com uma aproximação a Hong Kong, que é um dos pontos que gostávamos de trabalhar a curto prazo. Vamos ver o que se consegue.

- Está nos planos abrir espaços de ensino nas cidades da Grande Baía?

J.C.R. - Passará por abrir espaços de ensino que não serão diretamente contratados pelo IPOR, mas que surgirão em colaboração com entidades locais. A ideia é enviar um professor do IPOR, num espaço cedido, para dar resposta às solicitações desses locais. É isto que se vai tentar fazer.

- Houve mudanças na estratégia de cooperação com os institutos de língua dos países de língua portuguesa para aproveitar a intenção política de tornar Macau um polo de ligação entre a China e a lusofonia?

J.C.R. - A estratégia que se elabora para a divulgação de uma língua não está necessariamente ligada aos interesses de um ou outro país. Procuramos estabelecer uma linha de intervenção com base científica tendo em conta sempre que o português é uma língua pluricêntrica e que portanto não é uma língua pequena. É a língua mais falada no hemisfério sul, é das mais faladas nas redes sociais. O facto de haver uma visão da China para a promoção do português e de Macau ser uma região com interesse privilegiado no português honra-nos muito e isso verifica-se nas políticas que estão a ser seguidas. Há uma relação de amizade, proximidade cultural e de interesse na língua que serve de base a estas políticas e reforça a nossa motivação. Mas a política de língua não é definida a partir daí. É definida a partir da presença e do interesse, institucional e privado, e também da capacidade que temos de dar resposta.

- O que têm feito para capitalizar o interesse da China no português?

J.C.R. - Formação de docentes, atualização de formadores, produção de materiais didáticos, de manuais, investigação científica, atualização pedagógica e didática.

- Considera que o instituto tem sabido aproveitar e dar resposta a mais esta oportunidade?

J.C.R. - Os contactos estão a cair de maneira muito forte. Estamos a fazer o esforço com os recursos que temos. Não conseguindo o IPOR dar resposta direta, tentamos fazê-lo através de parcerias, por exemplo com empresários. Vamos ver até onde vai o interesse e a chegada de pedidos constantes.

- Está pessimista?

J.C.R. - Não sou pessimista. Espero é que haja o envolvimento de outros parceiros para colaborar na resposta.

- A quem se refere?

J.C.R. - Tecido empresarial.

- De que territórios?

J.C.R. - De Macau, do tecido empresarial que tem interesse na utilização prática da língua portuguesa, do que está numa posição de chapéu na ligação entre Portugal e a China.

- Quer dizer investimento?

J.C.R. - Sim. Parcerias financeiras. As parcerias e apoio financeiro têm sido visíveis. Os parceiros do IPOR têm participado nos nossos projetos. O que está em equação é o aumento da participação porque também há um aumento do interesse.

- Como vê o investimento crescente de Pequim na língua?

J.C.R. - É uma abordagem natural tendo em conta as dinâmicas que se criaram entre a China e os países de língua portuguesa.

- Considera que é relevante ou de certa forma é exagerada a atenção que se lhe atribuí tendo em conta que o número de universidades que abriram cursos de português é irrisório tendo em conta o tamanho do país?

J.C.R. - Não acho que haja aqui uma visão ultra patriótica de Portugal sobre aquilo que é o interesse e o apoio que as entidades chinesas estão a dar à língua portuguesa. É um interesse genuíno que tem que ver com o próprio caráter da língua. Os nossos amigos chineses já perceberam a verdadeira dimensão do português no campo dos negócios, diplomático, da política externa. Portanto acho que é uma atenção normal. Não acho que haja uma visão patriótica de Portugal do que é uma realidade pequena ou relativizável.

- Tendo em conta que Portugal é o país berço do português, não há um desfasamento do investimento face ao de Macau e da China continental?

J.C.R. - Não é o meu ponto de partida e não me parece que seja o da comunidade científica. O português é uma língua pluricêntrica, não é uma língua de Portugal. Pertence a quem a fala, a quem a usa, a quem trabalha com ela. Portanto não vejo que seja uma obrigação exclusiva de Portugal o investimento na língua. Há um interesse na defesa e promoção da língua portuguesa em Macau. Portugal apoia a vontade do Governo de Macau, mas tem recursos limitados para atender ao interesse no português no resto do mundo. É apenas natural que se veja a relação com Macau e com a China não como uma relação de quem contribui mais, mas de efetiva parceria com um objetivo comum. Julgo ser esta abordagem que se deve ter.

- Mostrou interesse na "diplomacia cultural", apontada como uma das prioridades pelo novo cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, Paulo Cunha Alves.

J.C.R. - Vejo com muita expectativa para ver de que forma podemos colaborar.

- Tem havido uma aposta do IPOR na divulgação da cultura contemporânea. É para continuar?

J.C.R. - A aposta clara na cultura portuguesa contemporânea faz parte das linhas estratégicas da ação cultural externa de Portugal já há alguns anos. Este ano, até porque se trata de um ano especial, vamos dar atenção a várias áreas. Estamos a avaliar a possibilidade de ter uma exposição de artistas portugueses e chineses das artes visuais, plásticas. Vamos tentar incrementar a oferta tendo sempre como linha condutora a arte contemporânea.

- Já há artistas confirmados?

J.C.R. - Já, mas não quero divulgar porque o plano de atividades ainda não foi submetido à assembleia-geral e seria deselegante adiantar pormenores antes.

- Disse que havia margem para aumentos. Também foi uma promessa do seu antecessor. De facto houve aumentos, mas, e em alguns casos, irrisórios. Serão significativos agora?

J.C.R. - Existe uma proposta que vai ser submetida à assembleia-geral, agendada para o início de março. Concordo que é necessária uma atualização das condições. Mas é preciso dizer que as condições não se limitam aos aumentos de salários. Os funcionários do IPOR têm recebido outras compensações que de alguma maneira procuram diminuir o desagrado, por exemplo com o acesso ilimitado à saúde. Mecanismos que vão complementar o que é o vencimento clássico. Não significa que o que disse antes se dilua. Não há dúvida que é preciso atualizar os salários.

- Tendo em conta o perfil de alunos do IPOR, faz sentido contratar mais professores bilingues?

J.C.R. - Faz. Tem sido discutido e agora há um concurso a decorrer. Temos a intenção de contratar mais bilingues sobretudo para as áreas iniciais.

- O mandato no IPOR é de três anos. Não é um período curto?

J.C.R. - É, se encararmos a função de uma direção como um período estanque. Não é a minha visão do cargo. Vejo-o como um prolongamento: a atual direção pega nos projetos da antiga e acrescenta estratégias que julga necessárias, e a seguinte fará o mesmo.

- O IPOR e o Consulado ganharam novos líderes quase ao mesmo tempo. É o início de uma nova era?

J.C.R. - Não estou certo que se possa dizer que se abre um novo caminho de forma radical. Não podemos no entanto ignorar que há cunhos pessoais que são implementados nas lideranças. No que diz respeito ao IPOR, essa visão, que não é autónoma mas delineada no contexto de equipa, vai ter diferenças de estilo, na maneira de dirigir a instituição, sempre considerando que o objetivo estatuário esta cá para delimitar a nossa ação.

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