Premium Juntos na busca de soluções para mitigar os males da seca

Cunene é das províncias do país que sofre com a seca. Uma realidade dura demais para a população, de tal modo que o Presidente da República efectuou, na semana passada, uma visita para constatar "in loco" os efeitos da estiagem na região

O mal afecta 171.488 famílias e já provocou a morte a cerca de 20 mil cabeças de gado bovino. Preocupado com a situação, João Lourenço visitou Ombala Yo Mungu, município de Ombadja, e de lá percorreu mais trinta quilómetros até à povoação de Oshiwanda, onde teve um mais amplo contacto com a população afectada.
Em Oshiwanda, o Presidente João Lourenço viu de perto a forma precária como as populações retiram água dos poços, com 20 a 30 metros de profundidade, para consumo e dar de beber ao gado. A tarefa é também realizada por mulheres e crianças. Há relatos de algumas mortes na povoação, que ocorrem durante o processo e, sobretudo, no decurso da construção dos poços.

Durante as visitas a Ombala ya Mungu e Oshiwanda, o Presidente João Lourenço manifestou a sua solidariedade para com o sofrimento das populações que vivem uma "difícil realidade" social e económica. Apesar das dificuldades por que passam, receberam de forma "calorosa" o Chefe de Estado.
"Sim senhor. Isso é que é Presidente. É um bom gesto o Presidente da República deslocar-se até aqui, para ver de perto os nossos problemas", conversavam duas jovens de Oshiwanda, na sua língua materna. Aliás, é difícil encontrar naquelas paragens populares que se expressam na Língua Portuguesa.
Para a população local, os estudos, as compras, a assistência médica e medicamentosa e a actividade laboral, tudo é feito na Namíbia. Logo pela manhã, homens e mulheres, dirigindo viaturas "volante à direita", deixam às primeiras horas do dia Oshiwanda (cerca de quatro quilómetros da fronteira com a Namíbia), com destino ao país vizinho.
Depois de cumprirem as responsabilidades laborais, regressam ao final da tarde às suas residências, vedadas e circundadas por grandes extensões de terreno, para não permitir interferência dos vizinhos e de estranhos nos seus assuntos. A moeda predominante nestas paragens é o rand sul-africano. Alguns, sobretudo adolescentes, desconhecem o kwanza.

Diferenças
Trinta quilómetros separam Ombala Yo Mungu de Oshiwanda. Quanto mais nos aproximamos da última localidade, as populações apresentam-se com melhor aspecto, em termos de qualidade de vida (bem vestidos, crianças exibindo bom aspecto nutritivo, etc). Mas ao longo dos primeiros quinze quilómetros, até Oshiwanda, a realidade social das populações apresenta-se diferente.
O percurso da sede capital (Ondjiva) até Oshiwanda é feito em mais de cem quilómetros. Durante o trajecto, observa-se, com muita facilidade, a deslocação de grandes manadas, sobretudo de bovinos e caprinos, à procura de pastos (quase inexistentes) e poços contendo água avermelhada, acumulada durante as chuvas do ano passado. É desta água que os pastores e animais (bois, cabritos e até burros) socorrem-se para matar a sede. Mas a regra já está estabelecida: primeiro, bebe o gado e só depois os donos do rebanho.
Foi-nos confidenciado, ou melhor, já é público, que ser detentor de gado bovino na localidade tornou-se numa questão cultural. Cunene é das províncias com o maior efectivo de gado bovino no país.
"Se você não é detentor de cabeças de bois no Cunene torna-se uma pessoa insignificante, mesmo que detenhas um cargo de destaque no Governo", contou um cidadão residente há mais de quarenta anos na Ombala Yo Mungu.
Este criador de gado influente na província solicitou o anonimato apenas para manifestar a incredulidade em relação aos métodos encontrados para apoiar o processo de transumância na região e o receio de que o dinheiro autorizado pelo Chefe de Estado (mais de três mil milhões de kwanzas) para acudir as questões emergenciais provocadas pela estiagem venha a ser desviado. Disse ter comprado feno, quando este produto foi adquirido com o dinheiro do Estado, no quadro da assistência aos criadores da região.
O processo de transumância leva os pastores a caminharem centenas de quilómetros com as manadas à busca de melhores pastos nas margens do Rio Cunene e nalgumas regiões da província vizinha da Huíla, afirmou o criador. Acrescentou que, apesar das autoridades locais optarem por colocar feno nas zonas de convergência, este método algumas vezes redunda em fracasso.
"Algumas vezes, colocam nas zonas de convergência feno sem água. O gado debilitado de tantas caminhadas, depois de consumir o produto, acaba por morrer", afirmou.
São incontáveis os danos provocados pela falta de água na província do Cunene, que detém um dos maiores rios do país (Cunene) e dos mais importantes lençóis freáticos sob a cidade de Ondjiva, sede capital da província. Nesta cidade, escava-se cerca de dois metros e encontra-se água com abundância. A prova está nas folhas muito verdes da maioria das árvores espalhadas pelos diferentes cantos da cidade. Quanto mais nos afastamos da zona urbana, em direcção ao meio rural, mais dificuldades as populações têm para encontrar o precioso líquido.
A verba de 200 milhões de dólares também concedida pela Presidência da República vai permitir a construção de um sistema de transferência de água, a partir do Rio Cunene, na localidade do Cafú, para a zona de Shana (localidade de Cuamato e Namacunde), algumas barragens hídricas, e adoptar um programa integrado inter-provincial e inter-municipal nos corredores de transumância.
Entre as acções a curto e médio prazos, destaque para a criação de um banco de alimentos (feno, milho, sal, farelo e fármacos para os animais), construção e reabilitação de furos, bebedouros, mangas de vacinação do gado, tanques-banheiro e construção e desassoreamento de novas chimpacas.

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