Premium Intelectuais chineses recordam Tiananmen com saudade

Volvidos trinta anos desde a sangrenta repressão do movimento pró-democracia de Tiananmen, intelectuais chineses recordam uma "libertação única das paixões políticas do povo chinês", hoje desconhecida por uma juventude focada em prioridades económicas.

Foi há três décadas que o exército chinês matou, no centro de Pequim, estudantes desarmados que pediam reformas políticas, expondo o caráter repressivo do regime chinês, apesar das reformas económicas que começavam a quebrar com a ortodoxia comunista.

"Os protestos pró-democracia da Praça Tiananmen foram uma libertação única das paixões políticas do povo chinês, mais tarde substituídas pela devoção ao dinheiro", resume, num ensaio, o escritor chinês Yu Hua, que tem duas obras publicadas em Portugal e milhões de livros vendidos em todo o mundo.

"Descobri então que povo não era uma palavra vazia de significado", repetida até à exaustão pela propaganda do regime, lembra.

"Em Pequim, andava-se de metro ou autocarro sem pagar. As pessoas sorriam umas para as outras. Vendedores ambulantes ofereciam refrescos aos manifestantes; aposentados doavam parte das suas magras economias aos grevistas. Numa demonstração de apoio, os carteiristas abstinham-se de roubar", descreve.

Os protestos ganharam força durante maio de 1989, pouco após a morte do líder reformista Hu Yaobang, que dividiu a hierarquia do Partido Comunista (PCC) em fações.

Hu era tido como um protetor dos intelectuais e defensor de uma maior liberalização, numa altura em que a liderança chinesa lançava reformas económicas. Ficou também conhecido por iniciar uma discussão pública para pôr fim ao "culto cego" ao fundador da República Popular, Mao Zedong, na sequência da Revolução Cultural (1966-1976), uma década vista hoje como catastrófica.

Mas os desvios da linha ortodoxa do partido - Hu chegou a afirmar que as teorias marxistas-leninistas defendidas por Mao não se aplicavam à China moderna e a pressionar por uma governação mais transparente - levaram à sua queda.

Na sequência de uma primeira vaga de protestos estudantis, em 1986, Hu foi criticado por ser permissivo com os manifestantes, e acabou por ser destituído pela cúpula do partido, em janeiro de 1987, por "falta de firmeza face ao liberalismo burguês".

O luto após a sua morte rapidamente se tornou num protesto político.

"A morte de Hu caiu como uma faísca na atmosfera altamente inflamável, marcada pela divisão entre a elite e insatisfação popular", segundo os autores dos Papéis de Tiananmen, uma compilação de documentos secretos sobre os acontecimentos de 1989.

Os estudantes "lançaram atividades espontâneas de luto, como uma oportunidade para expressar a sua insatisfação com a direção política do país", lê-se naqueles documentos.

"Morreu o homem errado", começou por se ler em cartazes afixados nas universidades, e depois nas ruas de Pequim, antes de os protestos ganharem força na Praça de Tiananmen.

Entre os estudantes, que começaram por exigir a "reabilitação" de Hu e o reconhecimento do seu trabalho reformista, começou-se também a gritar "Abaixo a ditadura", "Viva a democracia e a ciência".

Comboios cheios de manifestantes seguiam todos os dias para Pequim. Cerca de um milhão de pessoas chegou a ocupar a Praça Tiananmen.

A contestação estudantil alastrou a toda a sociedade chinesa e, em meados de maio, o Governo decretou a lei marcial em Pequim.

Inspirada pelos acontecimentos na capital, que lhe chegavam via BCC, através de um rádio de ondas curtas, Zhang Lijia organizou um protesto com cerca de 300 operários na fábrica de produção de mísseis onde trabalhava, em Nanjing, na costa leste da China.

"Sob o olhar dos líderes da fábrica, os operários desfilaram, como se caminhassem para uma batalha. Na frente, erguendo uma bandeira vermelha, tive uma sensação de libertação nunca experimentada antes", descreve, numa mensagem de correio eletrónico enviada à Lusa, a escritora, agora radicada em Londres.

Na noite de 03 de junho, paraquedistas da 15.ª Divisão da Força Aérea chinesa, com as caras cobertas, foram transportadas por passagens secretas para o centro da capital, para, em conjunto com polícias paramilitares e os comandos, suprimirem os manifestantes.

Colunas de tanques chegaram dos subúrbios. No dia seguinte, o sangue dos estudantes, desarmados, correu em Pequim.

E hoje?

Desde então, a China tornou-se, nas palavras da escritora Louisa Lim, a República Popular da Amnésia. No ano seguinte, 12 por cento dos jornais foram fechados, 32 milhões de livros apreendidos, 150 filmes proibidos e muitas dezenas de milhares pessoas presas.

"A China tem sido notavelmente bem-sucedida em eliminar a memória da repressão", explica Louisa Lim, autora do livro "The People"s Republic of Amnesia: Tiananmen Revisited", à Lusa.

Durante o trabalho de investigação, em 2014, Lim admite ter ficado "chocada com o nível de ignorância sobre as mortes dos estudantes".

A educação patriótica promovida após o massacre desviou também a atenção das novas gerações chinesas para as preocupações económicas, em detrimento das políticas.

Muitos jovens na China têm hoje outras prioridades, "mais tangíveis", como "encontrar emprego ou comprar uma casa", aponta Lim.

"O que se passou em Tiananmen pertence à geração dos meus pais", conta à Lusa Chen Xi, 29 anos e gestor de compras num hospital de Pequim. "A política não me interessa muito".

Nascido em 1989, o chinês Jiahao só soube passadas quase três décadas, quando estudava nos Estados Unidos da América (EUA), que a 04 de junho daquele ano o exército do seu país matou centenas de estudantes que exigiam reformas políticas.

Após pesquisar no Google - motor de busca bloqueado na China -, entendeu finalmente o "misto de curiosidade e cautela" com que os colegas norte-americanos lhe perguntavam o que achava do 04 de junho de 1989. "Até então, respondia sempre com uma pergunta: mas o que se passou nesse dia?", recorda à agência Lusa.

Desde 1989, a economia chinesa cresceu o triplo da média global. A China é hoje a segunda maior economia do mundo e principal potência comercial do planeta, tendo-se convertido num "player" capaz de disputar a liderança global com os EUA.

Outros lamentam a atual apatia social.

"As pessoas daquela geração tinham espírito de união. Os estudantes lutaram por um ideal comum", enaltece Cheng Yunhui, 35 anos.

"Se hoje apelares aos estudantes para se unirem em torno de uma causa, duvido que tenham o mesmo voluntarismo", acrescenta.

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