Premium Hospital virtual contra a insularidade

A criação de um hospital virtual que garanta o atendimento de doentes de todas as ilhas de Cabo Verde por especialistas, 24 horas por dia, é a grande ambição dos responsáveis do programa de telemedicina no arquipélago.

Os 129 quilómetros que separam as ilhas Brava e Santiago, em Cabo Verde, deixam de existir quando o médico no Hospital Agostinho Neto, na cidade da Praia, estabelece uma ligação vídeo e áudio com o consultório onde um colega segue uma doente que se queixa de tonturas e enxaquecas.

Através de duas televisões e de ligações de som e imagem, o neurologista na Praia inteira-se dos dados da doente na ilha Brava e do que a levou a procurar uma consulta desta especialidade, neste caso uma teleconsulta.

Caso não existisse a possibilidade desta prestação de cuidados de saúde à distância, a doente teria de solicitar uma consulta de neurologia no único hospital do país que a disponibiliza (Hospital Dr. Agostinho Neto), aguardar pela vez e viajar da Brava para Santiago, regressando depois. Senão tivesse esta possibilidade de deslocação, ficaria sem ser consultada.

Uma década de teleconsultas

Devido à condição de arquipélago, a telemedicina cedo se apresentou como uma solução para a prestação de cuidados médicos à distância, conforme contou a diretora do Serviço Nacional de Telemedicina em Cabo Verde, Vanda Azevedo, cardiologista de profissão e que também realiza estas teleconsultas.

A telemedicina em Cabo Verde deu os primeiros passos em 2009 e arrancou em força três anos depois, graças a um financiamento da Eslovénia, através da International Telemedicine Foundation (ITF).

Atualmente, todas as ilhas cabo-verdianas estão cobertas pelo serviço de telemedicina, algumas com vários postos.

Existem 14 postos de telemedicina e dois hospitais centrais que servem de referência. Em cada ilha há pelo menos um centro, mas algumas têm dois: Santo Antão (Porto Novo e Ribeira Grande) São Nicolau (Ribeira Brava e Tarrafal de São Nicolau) e Fogo (Mosteiros e São Filipe).

Os postos dispõem de consultas nas especialidades que existem nos hospitais centrais Agostinho Neto (Praia, na ilha de Santiago) e Batista de Sousa (em São Vicente).

Segundo Vanda Azevedo, este serviço de telemedicina realizou em 2017 consultas em 24 especialidades, sendo a neurologia a mais procurada e que só existe no Hospital Agostinho Neto. Anualmente, são feitas entre 500 a 600 teleconsultas.

Apesar da boa resposta dos profissionais de saúde a este tipo de consultas - realizadas em função da disponibilidade dos clínicos - a falta de especialistas impede maiores avanços e este é, para já, o principal entrave à criação de um hospital virtual em Cabo Verde, que funcione 24 horas por dia, fornecendo consultas em todas as especialidades a quem mora nas ilhas.

A "portabilidade móvel" terá um papel "chave" neste hospital virtual, nomeadamente para receber e interpretar exames, mas tal só acontecerá com um nível de segurança absoluto para o doente.

"Falamos sempre na segurança e privacidade do doente. Falar pelo ´Whatsapp` ou ´Viber` é mais rápido, mas não é seguro", disse Vanda Azevedo.

Ganhos na saúde

e financeiros

A médica sublinhou a importância da telemedicina na triagem dos doentes para as consultas de especialidade, pois agora chegam aos hospitais os casos que efetivamente justificam uma deslocação, provocando deste modo poupanças consideráveis.

"Temos grandes despesas com as deslocações para os centros hospitalares. Quando fazemos as teleconsultas, estamos a triar os doentes que devem vir para os hospitais centrais e, dessa forma, otimizamos as evacuações. As pessoas não vão todas fazer as consultas nos hospitais", frisou.

Segundo Vanda Azevedo, "o médico que faz a teleconsulta - na presença do médico assistente e do doente - é que determina se é preciso ou não ir a um hospital central".

A responsável assegurou que, ao longo destes anos, foram vários os casos em que as teleconsultas foram determinantes para um desfecho positivo para os doentes.

A esse propósito, partilhou o caso de uma mulher que ia ser operada ao coração, pois encontrava-se numa fase crítica. Quando estava para ser transportada para Portugal para realizar a cirurgia, descobriu que estava grávida, situação que impedia a intervenção.

Decidiu interromper a gravidez, mas durante um exame soube que estava grávida de gémeos, o que levantou "muitas questões".

A equipa de cardiologistas estabeleceu contacto com a equipa do cardiologista pediátrico português Eduardo Castela, do Hospital Pediátrico de Coimbra, a quem apresentou o caso.

"O doutor Castela falou com o cardiologista de intervenção e propuseram uma alternativa: em vez de ser operada logo, fazia-se apenas uma dilatação do anel [mitral] e poderia aguentar a gravidez, caso contrário não tinha condições clínicas para aguentar a gravidez, pois já estava em insuficiência cardíaca", disse.

"Com este contacto através da telemedicina e os exames feitos à mãe, mandámos a menina para Coimbra, fez-se esta dilatação do anel, para suportar a gravidez, ela veio para Cabo Verde, fez a gravidez tranquila, o parto, e só depois foi operada. Neste caso, conseguimos permitir que uma mãe e os bebés tivessem um final feliz", referiu, visivelmente orgulhosa.

Formação à distância

Esta ligação a profissionais portugueses permitiu, além de um diagnóstico mais correto às crianças, que os profissionais ganhassem uma autonomia em cardiologia pediátrica, disse.

Mas a telemedicina trouxe outros ganhos, como ao nível da formação: "Como ilhas que somos, os colegas mais à periferia não tinham a possibilidade de serem atualizados como os que estão nos hospitais centrais".

"Podemos partilhar sessões técnicas e já transmitimos congressos de hipertensão diretamente do Algarve [em Portugal] para as ilhas", disse.

Esta equipa de telemedicina cabo-verdiana tem atualmente discussões de casos com especialistas portugueses, mas também com profissionais do Brasil, Estados Unidos e Canárias (Espanha). Foram ainda criados grupos de discussão, como o da patologia da mama.

"O cancro é um dos nossos problemas maiores e uma das principais causas de evacuação para o exterior. Antes de se decidir a atitude a tomar, há um grupo que discute estes casos e toma a melhor opção, também para otimizar as evacuações", explicou. O objetivo da equipa é "fazer isto para todas as especialidades".

"Temos um acordo para as evacuações com Portugal. O nosso objetivo maior é, antes dessa evacuação, discutirmos o doente com a equipa que vai recebê-lo. Assim, os hospitais portugueses estão preparados para receber os doentes e nós também já sabemos o ´timing` em que mandamos os doentes e isso em todas as áreas", esclareceu.

Além da oncologia, as discussões de casos abrangem ainda áreas como a reumatologia, a medicina interna e infecciologia. Para 2019, esta equipa aposta na internacionalização, mais virada para os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Ao nível desta comunidade, Cabo Verde está "à frente de todos os países africanos. Portugal já tem uma estrutura mais forte e com mais experiência. O Brasil tem uma grande rede, uma grande estrutura, mas não faz teleconsultas, porque a associação médica não permite. Depois de Portugal e o Brasil estamos nós".

Segundo Vanda Azevedo, o programa de telemedicina cabo-verdiano "serve de exemplo a outros países", nomeadamente a forma como começou e a sustentabilidade que tem vindo a conquistar.

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