Gastronomia macaense, a natural fusão entre Oriente e Ocidente

Os chefs Antonieta Manhão e Carlos Cabral junto ao Food Truck de comida macaense, na BTL

Os chefs Antonieta Manhão e Carlos Cabral, da Confraria de Gastronomia Macaense, explicam a originalidade da comida de Macau, um dos trunfos da oferta turística do território.

Açafrão, folhas de louro, cebola e óleo de amendoim formam a base do refogado com o qual se iniciam muitos dos pratos típicos da gastronomia macaense. Uma verdadeira fusão entre o Oriente e o Ocidente, sublinham os chefs Antonieta Manhão e Carlos Cabral, membros da comitiva macaense que desde o início da semana e até amanhã está em Portugal para promover Macau enquanto destino turístico.

A gastronomia macaense, que em 2017 ganhou novo fôlego com a Unesco a reconhecer Macau como Cidade Criativa em Gastronomia, "é muito caseira, surge e mantém a sua identidade dentro das famílias macaenses", explicam os dois chefs, ambos membros da Confraria da Gastronomia Macaense, criada há 12 anos.

"A gastronomia macaense tem que contar uma história", conta ao Plataforma Antonieta Manhão, no stand de Macau na Bolsa de Turismo de Lisboa, onde o território ocupa lugar de destaque no Pavilhão 4. Uma história de 400 anos, que recua aos Descobrimentos e que não resulta apenas do encontro da cultura portuguesa e chinesa. "É também resultado dos contactos que os portugueses fizeram no caminho até chegarem à China. Índia, Goa, Malaca... não é por acaso que o açafrão é tão importante na nossa cozinha", conta Antonieta Manhão.

A esse lado mais universal da História junta-se um ingrediente determinante: os casamentos entre portugueses e chineses. "Em cada casa passa a haver as duas influências, 50-50, e daí surge a gastronomia macaense", continua Antonieta Manhão.

A carne picada, de porco ou vaca, ou ainda uma mistura das duas, é um dos ingredientes mais utilizados na gastronomia macaense e protagonista de dois pratos tradicionais que as famílias macaenses utilizam no quotidiano: capela e minchi. No primeiro caso, para além da carne, usa-se "pão, pinhão chinês, azeitonas verdes ou pretas picadas, queijo ralado, ovo e pão ralado", enumera Carlos Cabral. Tudo junto, "forma-se uma espécie de donut gigante que leva ainda fatias de bacon por cima", completa o chef.

Outra estrela da gastronomia macaense é o minchi que os visitantes da BTL podem provar até domingo no food truck estacionado entre os pavilhões 3 e 4 da FIL. À carne de vaca confecionada com molho de soja juntam-se batatas fritas cortadas aos cubinhos, sendo tudo servido sobre arroz branco, explica Carlos Cabral, como que colocando legendas nos gestos que Berta, macaense há mais de 20 anos a viver em Portugal, vai fazendo. "Esta é apenas uma das 21 maneiras de fazer minchi que atualmente se encontram registadas", sublinha o chef.

Bebinca de nabo, porco bafassá ou galinha à portuguesa são outros pratos típicos da gastronomia macaense. Apesar do nome, "a galinha à macaense é um prato que não existe em Portugal", explica Antonieta Manhão. Marinada em açafrão e cebola, a galinha ganha a companhia do chouriço português, comercializado em Macau em latas de conserva.

O reconhecimento da Unesco, em 2017, de Macau como Cidade Criativa em Gastronomia acendeu o interesse pela cozinha local. "Nestes dois anos aumentou muito o interesse a nível internacional pela comida macaense", garante Antonieta Manhão. Um interesse que na prática resultou também na abertura de muitos restaurantes que oferecem como prato forte a gastronomia local. "Agora resta saber se vão conseguir manter as portas abertas", alerta Carlos Cabral. "Se forem mesmo bons, não interessa o tamanho ou a localização, vão conseguir", assegura Antonieta Manhão.

Num território com quase 31 quilómetros quadrados, são 30 as estrelas Michelin à disposição dos quase 36 milhões de pessoas que em 2018 visitaram Macau, a quarta cidade mais procurada por turistas a nível mundial. "Há espaço para todo o tipo de cozinhas", afirma Carlos Cabral. E para ajudar a manter a autenticidade da cozinha local os dois chefs garantem que a Confraria tem sempre a porta aberta para todos os que queiram aprender. Para assegurar que a singularidade da gastronomia macaense se mantém nas gerações futuras.

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