Premium Falsos medicamentos em África: o mercado da morte

Governos e sistemas de saúde débeis e pobreza favorecem a circulação de remédios contrafeitos no continente negro. Um negócio que alimenta mafias e que mata milhares por ano

No inverno de 2018 a Costa do Marfim anunciou ter apreendido cerca de 400 toneladas de falsos medicamentos. Uma carga que representou uma perda de 150 milhões de euros para a indústria farmacêutica, segundo avançou à agência France Presse um porta-voz do Ministério da Saúde daquele país. O tráfico de remédios contrafeitos está em plena expansão, refere o artigo hoje publicado no Le Monde Afrique.

É um tráfico lucrativo e sem grande risco penal e que atrai inúmeras redes mafiosas. Por cada mil dólares investidos no setor farmacêutico as redes que vivem da contrafação de remédios ganham 500 vezes mais esse valor, segundo o Instituto de Pesquisa Anti-Contrafação de Medicamentos (IRCAM). Um mercado que se alimenta da morte de milhares de pessoas por ano por causa das substâncias falsificadas que tomaram.

"A África subsaariana concentra todas as vulnerabilidades que vão favorecer os fármacos de qualidade inferior ou falsificados: a fragilidade da gestão dos sistemas de saúde, uma oferta de cuidados de saúde e uma malha de farmácias insuficientes, e ainda a existência de um mercado paralelo tolerado, bem como a pobreza das populações", observou no artigo o médico Innocent Koundé Kpeto, presidente da Ordem das Farmácias do Togo.

Segundo as últimas avaliações da Organização Mundial de Saúde, nos países mais atingidos por este tráfico, um medicamento em cada 10 não está conforme às normas de qualidade. "É a primeira vez que a OMS publica uma avaliação sobre o assunto e que foi realizada com recurso aos estudos mais fiáveis de que dispomos", explicou ao Le Monde Afrique Pernette Bourdillon Estève, analista na organização.

Entre 72.000 e 169.000 crianças morrem todos os anos com pneumonias tratadas com antibióticos de qualidade inferior ou falsificados, segundo uma investigação da Universidade de Edimburgo, na Escócia.

Nenhum medicamento está a salvo neste mercado negro de falsificação, dos mais inovadores aos mais antigos, dos que vêm com o selo de laboratórios conhecidos aos genéricos. "Os que vivem da falsificação de fármacos procuram acima de tudo o lucro. A partir do momento em que existe procura é-lhes indiferente que os medicamentos sejam de marca ou genéricos ou qual a empresa que os fabricou originalmente", nota a OMS.

A Organização montou um sistema mundial de vigilância desta atividade criminosa em 2013.

Alguns destes fármacos são fabricados por estas redes sem princípios ativos e outros vêm com substâncias ativas trocadas. Em março, nos Camarões, um antidiabético foi encontrado num medicamento contra a hipertensão. A troca criminosa foi descoberta por causa de hipoglicémias detetadas em vários pacientes que tomavam o remédio falsificado. Mas nem sempre é fácil perceber o logro. Em 2015, 11 pessoas morreram e mais de mil doentes foram hospitalizados depois de terem tomado uma substância que era Diazepam, um sedativo muito conhecido. As vítimas tomaram este fármaco em doses vinte vezes superiores ao recomendado.

Em África, na rua, os pobres conseguem comprar medicamentos falsificados a baixo custo, a crédito ou à medida do que podem pagar. As organizações criminosas só pensam no lucro. E o tráfico continua a subir.

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