Premium Enclausuradas em nome de Deus

Toda a jovem que entra para a congregação das clarissas, automaticamente deixa de manter contacto directo com o mundo exterior, incluindo com os seus familiares de primeiro grau

Repórteres de O País foram autorizadas a entrar no mosteiro do Sagrado Coração de Jesus e a ficar por mais de um dia.

Viver em regime de clausura durante toda a vida é o propósito que abraçam dezenas de cidadãs que aderem à congregação religiosa Clarissas. As pessoas que dizem ter vocação para tal passam por vários estágios, que incluem votos, designadamente de obediência, castidade e pobreza, à semelhança das diferentes congregações. Todavia, o que as diferencia de outras é o voto de clausura, que é entendido como um isolamento para ficar de forma íntima com Deus.

A equipa de reportagem de O PAÍS passou mais de 24 horas no mosteiro do Sagrado Coração de Jesus, das irmãs Clarissas, situado na avenida Pedro de Castro Van-Dúnem Loy , no bairro Palanca, em Luanda.

O relógio marcava 17h40 quando a nossa equipa, da qual faz parte uma madre da congregação das Missionárias Dominicanas do Rosário, transpôs o portão principal da casa, encontrando as anfitriãs a participar na celebração litúrgica vespertina. Fomos alojadas em alguns dos compartimentos existentes no exterior do mosteiro que servem para albergar as pessoas que se deslocam de outras províncias com o propósito de visitar as suas parentes que adoptaram esse modo de vida. As grades que separam os diferentes espaços em que as freiras "contactam" com a comunidade, nomeadamente a capela, as salas de visita, o refeitório, entre outros,prendem a atenção de quem se desloca para lá pela primeira vez.

A finalidade principal da vida de clausura é a oração permanente durante o dia e a noite, sendo que a vocação essencial é interceder pelas necessidades da sociedade em geral, começou por explicar a madre Esperança Maria, uma das habitantes. As clarissas vivem com o necessário e quem se consagra nesta instituição oferece a sua vida completa a favor do mundo, de acordo com as suas normas. Segundo a "irmã" Esperança Maria, as grades definem o seu espaço de contacto com o mundo interior. Que permite mais intimidade e encontro com Deus sem barulho nem distracção, por imperar um silêncio que não perturba ninguém.

Quem não for chamada não se adapta

Convicta das suas ideias, a nossa interlocutora, de 36 anos de idade, dos quais 18 vivendo nesse convento, afirmou que ser madre Clarissa é estar intimamente ligada a Deus e que a separação que há das outras pessoas não representa fuga, muito menos resultado de qualquer decepção. Explicou que a vida contemplativa não é para as pessoas com desgostos, nem para os que fogem de um determinado problema familiar, ou ainda para esconder-se de situações negativas. "Só vem para o mosteiro das Clarissas quem se sente chamada, se assim não for, não se adapta". Por norma, no convento onde as aspirantes entram é o local indicado para passar o resto da vida, mas quando há necessidade de ajudar uma nova congregação ou se as irmãs superiores de um determinado convento têm já uma idade avança-da e carecem de auxílio, é possível permitir que uma delas vá atender ao seu pedido.

No entanto, quando uma das irmãs cai hospitalizada, ao sair do hospital pode receber visitas directas, se ainda não conseguir chegar até ao "locutor", local onde recebem as visitas, separadas por gradeamentos. Há ainda excepções de saídas, como para tratar documentos pessoais ou por questões de saúde, visitar apenas os pais se estes estiverem doentes. Mas se um deles a falecer, a madre não permanece no local do óbito, tendo de regressar imediatamente à residência religiosa. Segundo as freiras, ausentam-se do óbito para orar com o objectivo de interceder para que a alma defunta se encontre com Deus. Quanto à promoção vocacional, contam que quem se encarrega de o fazer é o "Espírito Santo", uma vez que não saem do convento para evangelizar. Contam que há jovens que manifestam a pretensão de se juntar a elas sem antes conhecerem as regras da congregação e o seu estilo de vida.

Viver com alegria e devoção

"É uma vida bonita e cheia de sentido, bem vivida. Não se entra na rotina. Não se entra no cansaço, apesar de que muitas pessoas se perguntam como é possível viver a vida inteira sempre com as mesmas caras e fechada, não se cansam?" Desabafou a madre Esperança Maria, radiante de alegria. Acrescentou de seguida que "quando se tem Deus no meio não há cansaço, porque tudo o que fazemos tem a mão dele e a vida decorre ao longo do dia sempre em silêncio, ferramenta que nos ajuda a interiorizar a sua palavra, assim como meditar". Irmã Esperança aproveitou a ocasião para esclarecer alguns rumores que surgem sempre que alguém opta por viver em clausurada num mosteiro, segundo os quais se deve ao facto de as candidatas estarem a fugir de uma situação difícil que vivem ou viveram, o que não é o caso. Contou que quando se decidiu por viver uma vida contemplativa, também foi alvo de tais rumores por parte de alguns parentes, por ela ter perdido prematuramente a sua mãe.

"Se entramos aqui é porque houve uma chamada da parte de Deus e, respondendo a essa chamada, tentamos viver assim. Quando há uma decepção ou uma fuga aqui não se fica", enfatizou. Acrescentou de seguida que "nestas situações as pessoas estão centradas nos seus pensamentos e tentam refugiar- se na solidão para chorar. Isolam- se e procuram ao máximo estar fora da vida fraterna". Segundo a nossa entrevistada, os que pretendem fugir de uma situação desagradável e optam por viver nas Clarissas não se adaptam, uma semana é o tempo limite para ficarem. Passado um dia, a pessoa sente-se mal por tal escolha. "Aqui fica quem realmente recebe a chamada, e, mesmo recebendo- a, há diversas dificuldades que são ultrapassadas devido à graça de Deus. Cada pessoa que tem a vocação lhe são dadas todas as graças que necessita para poder perseverar", explicou a irmã Esperança Maria. Disse ainda que as que permanecem é porque assumem este compromisso com responsabilidade e liberdade. "Vivemos por graça de Deus que nos convocou para vivermos em clausura".

Formação dura 11 anos

Por outro lado, a adesão a essa comunidade não é um processo fácil e imediato. As candidatas passam por um processo de formação que leva, no máximo, 11 anos, podendo interromper se assim entenderem. O mesmo começa com o pré-postelatado, que dura um ano, de seguida passam à categoria de aspirantes ao mosteiro. A este nível, gozam do "privilégio" de sair de férias durante dois a três meses. Durante esse período, a candidata pode desistir se entender que não é a sua vocação. Passado o período de experiência e férias de reflexão, muitas solicitam poder ser "consagrada" madre. De acordo com a irmã Esperança, há registos de candidatas que desistem mesmo no início da formação, e algumas depois dos votos temporários, que são renovados de três em três anos. No que toca às vestes, ficam de acordo desde o nível de formação, sendo que as que frequentam o pré-postelatado e o postelatado vestem-se de bata e lenço castanho.

Já as noviças vestem o hábito penitenciário (batina). Roupas desenhadas por São Francisco de Assis, em forma de uma cruz, acompanhada de toca, véu preto ou branco e um cordão com os três nós, que simbolizam os votos que professam. A indumentária é composta ainda por medalha e coroa franciscana. Aquando da tomada do hábito, passagem da fase de noviça para madre, as candidatas recebem um nome novo, que é opcional. Entretanto, devem obrigatoriamente acrescer ao nome que escolheram o de Maria. Nessa altura, depois de as jovens entrarem no convento, a formação académica termina e passam a adquirir apenas educação religiosa, ensinamentos que venham ajudar na vida no mosteiro. Tais explicações levaram a dupla de repórteres a acreditar que completar as 24 horas de clausura seria um desafio repleto de histórias emocionantes. Para começar, depois do jantar, às 20horas, só restava desfrutar do silêncio enchia o local, numa noite cujos sinais apontavam que seria tranquila...

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