Premium Ataques armados reacendem-se no Norte

Mozambican Army soldiers bring down a structure torched by attackers to be rebuilt as shelter for people fleeing the recent attacks, in Naunde, northern Mozambique, on June 13, 2018. - Until last week, Mozambique's northern district of Macomia was a remote and peaceful place, surrounded by dense tropical forests. Today, that tranquility has been brutally shattered and replaced by fear and suspicion. Macomia has become the latest target of a shadowy jihadist force that has terrorised the country's far north since last October, claiming more than 30 lives. In the coastal village of Naunde, seven people were hacked to death and 164 houses were set alight. (Photo by Joaquim NHAMIRRE / AFP)

A população está aterrorizada. Há campos agrícolas e aldeias abandonadas. Inúmeras atividades afetadas, incluindo, mais recentemente, o recenseamento eleitoral e o apoio humanitário pós-ciclones. As autoridades anunciam detenções e lançam apelos, mas nada têm feito para parar os ataques armados que já atingiram quem trabalha nos megaempreendimentos de gás natural.

O mais recente ataque relatado por quem reside em Cabo Delgado é dos mais sangrentos. Uma emboscada a um camião de carga que levava passageiros matou 16 pessoas, numa contagem que não para de crescer. Desde o ataque inicial a 05 de outubro de 2017, em Mocímboa da Praia, até à emboscada de 28 de maio último já houve, pelo menos, 200 mortos. Os relatórios semanais das autoridades ignoram o assunto e quando se procuram esclarecimentos não costuma haver respostas. Os casos que são conhecidos emergem através dos relatos de residentes. Como muitos acontecem em zonas remotas, teme-se que vários passem despercebidos e que já haja bem mais de 200 mortos.

Fevereiro foi um mês de viragem no conflito que fez parar as obras dos megaprojetos de gás natural. Prevalecem os relatos de que são ataques feitos por gente de Cabo Delgado, aliciada por discursos insurgentes em mesquitas e por algum dinheiro, com alguns estrangeiros envolvidos - alguns de países dos grandes lagos, a norte (os que já tinham atritos com líderes muçulmanos locais desde 2010), mas também asiáticos. Vestem de negro, umas vezes escondem o rosto, andam a pé, usam metralhadoras AK e catanas. Matam, saqueiam as aldeias, raptam mulheres e deitam-lhes fogo. Outras vezes atacam viaturas. Por norma, faziam-no em locais remotos: sem eletricidade, só acessíveis por caminhos em terra batida (alguns quase intransitáveis) e pela calada da noite. Executam os crimes e voltam para a mata, onde têm esconderijos mantidos por mulheres, algumas raptadas. Não fazem reivindicações, nem têm rosto ou liderança, o que tem permitido alimentar as mais diversas especulações sobre quem pode estar a manipulá-los. Em fevereiro, pela primeira vez, atacaram na única via asfaltada da região viaturas de empresas que trabalham nas obras dos grandes empreendimentos de gás natural. Um motorista moçambicano que trabalhava para a firma portuguesa Gabriel Couto foi abatido a tiro, no mesmo dia em que outros seis trabalhadores ligados às obras ficaram feridos em ataques a viaturas.

Na altura, a petrolífera Anadarko suspendeu os trabalhos por falta de condições de segurança, mas mais tarde concluiu que a violência não tinha relação com o projeto. Tanto foi assim que a 7 de maio anunciou que ia retomar as obras e que no dia 18 de junho vai formalizar a decisão final de investimento naquela região, o maior empreendimento estrangeiro de sempre do país. Três dias depois, um trabalhador das obras ligadas ao gás natural foi alvejado num joelho quando o autocarro público em que viajava foi atacado por homens armados. Um outro passageiro foi morto e uma mulher raptada. A empresa mantém a posição de fevereiro: "Não parece que [o ataque] esteja relacionado com o projeto. Estamos a trabalhar com o Governo com vista à obtenção de uma melhor compreensão do que aconteceu. Levamos a segurança do nosso pessoal muito a sério e, por essa razão, não discutimos medidas". Um trabalhador no recinto da Anadarko disse à Lusa que o ambiente mudou: a tensão é evidente entre os trabalhadores, devido à proximidade dos ataques.

Todas as atividades afetadas

As autoridades anunciam detenções e lançam novas pistas sobre os agressores, mas maio foi um mês de reacendimento dos ataques. Os observadores eleitorais do Centro de Integridade Pública (CIP), ONG moçambicana, relataram 13 ataques em maio, com 25 mortes, dezenas de feridos, centenas de casas queimadas e muitas aldeias abandonadas. Os elementos do CIP acompanharam o recenseamento eleitoral, que decorreu entre 15 de abril e quinta-feira da semana passada, e a contabilidade acerca dos ataques ainda não inclui as mortes relatadas a 28 de maio em Quiterajo. O recenseamento eleitoral foi prejudicado, alertaram, à semelhança de outras atividades.

Desde outubro de 2017 que há população a deslocar-se para vilas mais seguras, a deixar para trás hortas onde produziam os seus alimentos, pelo que há mais pessoas com fome, alertam diversas entidades, como a Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome (FEWS Net, sigla inglesa). As movimentações afetam também professores e alunos, logo, as atividades do ano letivo. Mais recentemente, as operações de ajuda humanitária que se seguiram ao ciclone Kenneth (que atingiu o norte de Moçambique em abril) foram obrigadas a rever deslocações e o modo de entregar alimentos. Tudo porque algumas das aldeias sob assistência foram atacadas - embora sem visar equipas das organizações humanitárias.

Polícia lança apelos

O comandante-geral da Polícia da República de Moçambique (PRM) anunciou a 26 de maio que os ataques armados no Norte do país têm sido financiados por garimpeiros ilegais de pedras preciosas da região, em resposta a operações de repressão das autoridades. "Algumas das pessoas que estão a promover guerra em distritos de Cabo Delgado eram garimpeiros. Com ódio, quando fizemos uma operação contra o garimpo, viraram inimigos e começaram a combater-nos", disse Bernardino Rafael, aludindo às detenções de garimpeiros ilegais no início de 2017, meio ano antes do primeiro ataque armado, em Mocímboa da Praia.

Não é a primeira vez que as autoridades anunciam ter identificado os alegados chefes dos "malfeitores" - designação vulgarmente dada aos homens armados de Cabo Delgado. Em dezembro de 2017, anunciaram que tinham identificado cabecilhas e em abril deste ano condenaram à prisão 37 de um total de 189 acusados de violência em Cabo Delgado. No entanto, os ataques têm continuado. "Temos de ser vigilantes para desmantelar, denunciar essas pessoas que transferem valores por m-pesa", um dos sistemas de transferência de dinheiro por telemóvel, "aqui de Montepuez", terra dos garimpeiros, "para os malfeitores", pediu Bernardino Rafael. Dois dias depois, no Niassa, outra província do Norte do país, o comandante-geral da PRM anunciou que a corporação "procura um cidadão de nacionalidade tanzaniana, apontado como responsável pelo recrutamento de um grupo de jovens do distrito de Niassa". O chefe máximo da polícia exortou a população a rejeitar propostas de desconhecidos que pretendam levar os filhos para aprender o Alcorão, escrituras sagradas islâmicas, nas cidades vizinhas. As promessas, disse Bernardino, são falsas e visam reforçar as fileiras dos grupos armados que desestabilizam a província de Cabo Delgado. Até agora, nada os tem feito parar.

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