Premium "A China está igual"

Em entrevista ao PLATAFORMA, o artista chinês Badiucao diz que o desenvolvimento económico é ilusório porque em questão de direitos nada mudou. O trabalho do cartoonista estaria na Free Expression Week, em Hong Kong. A exposição foi cancelada por questões de segurança.

Era a primeira exposição internacional a solo do artista chinês Badiucao. Era. O evento foi cancelado por questões de segurança. Em entrevista ao PLATAFORMA, o cartoonista explica porque abdicou da nacionalidade, não revela a identidade e vive fora do país.

Falou ao PLATAFORMA dois dias antes da data marcada para a inauguração da exposição e um dia antes de ser cancelada por questões de segurança. Na altura, disse: "Não antecipo problemas. Caso aconteçam, será mais uma prova de como Hong Kong está cada vez pior." E aconteceram. Badiucao dizia que a exposição, que integrava a primeira edição da Free Expression Week, iria ser um teste à tolerância de Hong Kong.

Plataforma - O que espera da exposição?

Badiucao - Escolhi Hong Kong porque é uma cidade muito importante. Por muito tempo, foi como um farol para a China porque estava na dianteira em termos de processo de democratização e respeito por valores como a liberdade de expressão.

- Pode dar exemplos?

B. - O evento que assinala o aniversário dos protestos de Tiananmen. Todos os anos, centenas de pessoas se juntam na cidade para lamentar o que sucedeu mas também para celebrar o que representou e preconizou. O Movimento dos Guarda-Chuvas é outro exemplo. Foi de uma coragem enorme sobretudo pela forma como enfrentou a brutalidade das autoridades. Não conseguiu alcançar o objetivo do sufrágio universal para a eleição do Chefe do Executivo. E por isso, temos de admitir que falhou. Agora, começa a haver momentos na História recente da região - como o desaparecimento dos livreiros que publicavam obras críticas ao regime chinês, a detenção e condenação dos ativistas do Movimento dos Guarda-Chuvas - que mostram que Hong Kong está a desfalecer e a reduzir as liberdades que a caracterizavam. O futuro de Hong Kong está a tornar-se tão negro.

- A exposição tem um significado especial por isso?

B. - Ter uma exposição em Hong Kong agora significa muito, especialmente tendo em conta que grande parte do meu trabalho é dedicado aos últimos acontecimentos da região e à liberdade de expressão. Também funciona como um teste, para ser honesto. Quero ver até que ponto Hong Kong ainda é tolerante. Não antecipo problemas e espero que não surjam. Caso aconteçam, será mais uma prova de como Hong Kong está cada vez pior.

- A organização refere que "Usa a arte e a internet para desconstruir a arrogância e autoridade da ditadura".

B. - Diria que o meu trabalho se caracteriza por três linhas: os cartoons - estou a desenhar constantemente; a internet - que uso como meio para começar campanhas e performances de activismo político; e as exposições - que uso sobretudo para instalações e trabalhos de arte visual. Os cartoons, com a conotação política que lhes dou, são uma resposta imediata ao que está a acontecer. Não faço "Arte pela Arte", mas sim arte pelo bem da Humanidade. O meu objetivo é dar voz a quem não tem. Trabalho sobre o mundo real, e os cartoons são uma excelente forma de analisar a realidade: são cómicos, rápidos de fazer, irónicos, desafiam o poder e ajudam os que não o têm. Perguntam-me muitas vezes "se acho que o meu trabalho vai mudar a China e o mundo?". É difícil responder. Continuo a construir uma narrativa pessoal sobre a História e, de certa maneira, é uma forma de contrariar a narrativa que é construída pelo Governo.

- O que acha da iniciativa de criar a Free Expression Week?

B. - Fantástico. A prática da liberdade de expressão é quase a única forma de a defender.

- Acha que o evento pode ser encarado como uma provocação aos Governos central e local? Tem medo de retaliações?

B. - Acredito que seja o tipo de eventos que não agrada aos Governos central e de Hong Kong. Mas se houver retaliações contra mim, a organização ou o evento, significa que se está no bom caminho e que são necessárias mais iniciativas como esta. Significa que o Governo sabe o que as pessoas realmente querem e que estão conscientes disso. Há uma frase de um filme que gosto especialmente: "O perigo é real, mas o medo é uma escolha". Acho que pode haver repercussões, mas é uma escolha temê-las.

- Como vê a situação política da China Continental?

B. - A China é assustadora. Está a engrandecer-se cada vez mais, e tenta exportar os valores que defende e o sistema de controlo a outras partes. A China está igual há 40 anos. Há a ilusão de haver desenvolvimento por causa do crescimento económico, mas em termos de direitos está exactamente na mesma. Basta referir a perseguição a advogados que defendem Direitos Humanos, artistas e dissidentes. Também está a conseguir exportar a influência a países como a Austrália e os Estados Unidos da América. Conseguem expandir o controlo através das comunidades chinesas que vivem no estrangeiro: há uma lavangem cerebral, vigiam-nos, controlam-nos.

- E sobre a relação com as regiões autónomas como Macau e Hong Kong?

B. - Não sei muito sobre Macau. Sei que em Hong Kong há um forte sentimento a favor da independência. Se houvesse a expectativa de que a China estava no caminho certo, não existiria certamente esta ânsia. A população tem de se sentir verdadeiramente desesperada para querer a independência. Não há esperança e é por isso que o movimento a favor da independência de Hong Kong se tornou tão grande.

- Porque abdicou da nacionalidade chinesa?

B. - É uma forma de me proteger. Não é fácil decidir abdicar da nacionalidade. Mas foi uma decisão que tive de tomar para me sentir mais seguro, para me facilitar as viagens pelo estrangeiro e ter acesso ao mundo da arte.

- Já foi alvo de perseguição?

B. - Não é preciso sentir-se na pele os efeitos para se ter consciência de que há potencial para se ser perseguido. Os cidadãos estão a ser controlados. O livreiro que desapareceu em Hong Kong é um excelente exemplo disso. Não saberem quem sou, impede-os de me apanharem. Já recebi várias mensagens ameaçadoras. Fizeram um website falso com o endereço do meu. Sei que recolhem informação sobre mim para tentarem saber quem sou. Fui alvo de difamação várias vezes. Retratam-me como um criminoso na China. Foi por isso que decidi abandonar o país.

- Porque decidiu manter o anonimato e porquê o nome Badiucao?

B. - O nome não tem nenhum significado. O anonimato é apenas por uma questão de segurança. Não me vejo como uma pessoa corajosa, na verdade considero-me um cobarde. Escolhi este caminho da internet e do anonimato. Ao mesmo tempo, quis mostrar que não é preciso ser extraordinariamente corajoso para dizer o que se pensa e que qualquer pessoa comum pode fazê-lo. O activismo ainda é possível.

- Considera que o único caminho para artistas críticos ao regime é o exílio?

B. - Não diria que é impossível viver na China, mas é muito mais complicado. Os que decidem ficar, são realmente corajosos. Têm de abdicar de tudo. É definitivamente mais duro.

- Defende que "os cartoons são uma boa arma contra as ditaduras".

B. - As ditaduras implicam sempre o culto do líder. O líder é sempre grande, bonito e brilhante. E é aqui que surge espaço para os cartoons: é uma forma de trazer Deus à terra, e de dizer às pessoas que o vosso líder é um homem, não é um super-homem, e que deve ser vigiado e criticado. Mas isto é impossível na China. Não há espaço para o humor.

- Que diferença podem fazer os artistas tendo em conta o que tem acontecido aos que discordam e criticam a China?

B. - Os artistas criam novas ideias. As ditaduras procuram manter as antigas. Enquanto fizerem o que é suposto, vão plantando a semente. Os artistas fazem uma leitura própria da História. Mesmo que não haja um impacto imediato, haverá quem olhe para esse trabalho no futuro.

- Disse que "O Homem do Tanque representa algo que se perdeu na geração jovem chinesa de agora - o idealismo, a paixão, o sentido de responsabilidade, e a confiança de que o indivíduo pode fazer diferença". São valores que se perderam?

B. - Se acreditasse mesmo nisso, não teria sentido fazer o que faço. Não está perdido, apenas temporariamente esquecido ou adormecido. Há sempre potencial e responsabilidade em cada um de nós. Acredito muito na capacidade do indivíduo.

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