Premium A luta pela língua portuguesa

Em Timor-Leste, o português é língua oficial, mas ainda não é o idioma das ruas e dos atos oficiais. O mais novo país da lusofonia escolheu o português, do antigo colonizador, como um símbolo da diferença em relação à Indonésia, mas os desafios ainda estão por cumprir.

Na semana em que em Timor-Leste, como no restante mundo lusófono, se assinalou o dia da Língua Portuguesa [5 de maio], vários responsáveis políticos reafirmaram o compromisso com o ensino de uma língua que é hoje falada por mais timorenses do que nunca.

Nem no tempo da presença portuguesa no país, em que o acesso à educação era reservado a uma elite, havia tantos falantes de português como hoje. Também porque as lacunas do tétum, a outra língua oficial, são hoje preenchidas com palavras portuguesas.

Ainda que com uma grafia em versão tétum, mais fonética, a importância reflecte-se inclusive nas palavras com origem no inglês que são importadas para o tétum e acabam com um som que recorda o português.

Alvo de bastante polémica, a questão da língua portuguesa continua a ser tema de debate em Díli, dividindo gerações e setores da população. Ainda assim, o uso da língua vai-se expandindo, com cada vez mais timorenses a terem formação em língua portuguesa.

Um estudo do académico australiano Michael Leach, divulgado em Camberra, analisou as perceções sobre a língua entre alunos do ensino superior em Díli. O estudo - com sondagens realizadas em 2002, 2007, 2012 e 2017 - mostra que houve evolução da língua portuguesa.

Em 2002, por exemplo, menos de três por cento dos alunos dizia ter um conhecimento fluente do português e 24 por cento um conhecimento moderado. No ano passado, o número dos que tinham um conhecimento fluente tinha aumentado para 15 por cento, e a taxa dos que tinham um conhecimento moderado cresceu para 61 por cento. Um em cada três timorenses diz mesmo que o português é uma das línguas que usa em casa. Em 2002, a percentagem era apenas de 11,5 por cento. Apesar das dificuldades, a maioria dos timorenses considera mais fácil aprender português face ao inglês.

Igualmente importante é a crescente importância do português para a identidade nacional.

Em 2002, por exemplo, só cerca de metade dos jovens consideravam a língua portuguesa como relativamente ou muito importante para se ser "verdadeiramente timorense".

Hoje, mais de 54 por cento diz que é "muito importante" e 39,5 por cento diz que é relativamente importante para a identidade nacional.

Mais de 90 por cento consideram, por isso, que o português tem importância no ser-se timorense ainda que só um em cada quatro se identifique como próximo a Portugal, valor muito aquém da "proximidade" vista com a Indonésia (87,5 por cento) e com a Austrália (78 por cento).

A língua da resistência

Essencial para a progressão tem sido, apesar dos solavancos, o investimento que Timor-Leste tem vindo a fazer na promoção da língua portuguesa, mas também o apoio de parceiros internacionais nesta matéria, nomeadamente Portugal.

Daí que, o setor educativo e a língua sejam os maiores beneficiados do novo "Programa Estratégico de Cooperação Portugal-Timor-Leste 2018-2022" (PEC), avaliado em 70 milhões de euros (cerca de 636 milhões de patacas), aprovado em março em Conselho de Ministros, em Díli, e que deverá ser assinado em breve.

O documento reconhece que a relação entre os dois países se alicerça em "importantes afinidades históricas e culturais, partilhando uma língua e matriz jurídica comuns, que têm evoluído de forma dinâmica ao longo dos anos".

Central ao PEC e predominante nas ações de cooperação está a questão da língua portuguesa, uma das duas línguas oficiais em Timor-Leste e em que cujo reforço estão empenhados vários setores do Estado.

Uma questão assinalada durante as várias atividades que decorreram em Timor-Leste no âmbito do dia da Língua Portuguesa, incluindo um voto aprovado pelo Parlamento Nacional em que reafirma o compromisso "com a promoção e difusão da língua portuguesa em Timor-Leste".

O texto reconhece que o português é "cada vez mais falado" pelos timorenses, "fruto da apropriação da língua que é de todos" e "apesar dos obstáculos" que o ensino do português ainda enfrenta.

"A nação e o seu povo têm vindo a desenvolver esforços significativos para a aprendizagem e o ensino da língua portuguesa e para que esta seja, a par do tétum, igualmente falada no quotidiano timorense", refere o texto.

"É através da língua portuguesa que se estabelecem laços transcontinentais e transoceânicos, é através da língua portuguesa que se constrói uma identidade cultural, enriquecida pela diversidade que a caracteriza e que une os europeus, asiáticos, africanos e americanos", nota ainda.

O voto de saudação, em reconhecimento do Dia da Língua Portuguesa e da Cultura da CPLP, marcou a jornada no Parlamento Nacional, com várias iniciativas que envolveram tanto a instituição como várias escolas da capital.

Deputados de várias bancadas recordaram que a língua portuguesa foi a língua da resistência à ocupação indonésia e está consagrada na Constituição timorense, com um grande esforço para a promoção em Timor-Leste.

Numa intervenção na cerimónia, o presidente do Parlamento Nacional, Arão Noé Amaral, lembrou que a língua portuguesa "foi a língua da resistência que acompanhou os timorenses durante os 24 anos" de ocupação indonésia e hoje, a par do tétum, é "parte da identidade e a língua de todos".

Ao reconhecer as dificuldades e desafios que o ensino do português em Timor-Leste ainda enfrenta, o presidente do Parlamento saudou o apoio "absolutamente essencial" de Portugal e do Brasil, especialmente na formação de professores.

Arão Noé disse ser essencial implementar "instrumentos que reforcem a língua portuguesa" em Timor-Leste, adotando estratégias que "permitam combater a escassez de recursos, pela qualificação da população adulta e produtiva e reforço de investimento na política de formação e professores".

Mais, que "palavras de enaltecimento e valorização", disse, a implementação da língua portuguesa "exige políticas claras e estratégias definidas" em que o parlamento nacional "tem uma responsabilidade fundamental" numa tarefa que é de todos.

O presidente da Assembleia Parlamentar da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Francisco Branco, afirmou ser essencial que Timor-Leste "continue a desenvolver instrumentos que promovam o desenvolvimento da língua portuguesa no país".

Apesar dos apoios de Portugal e Brasil, entre outros, "têm de ser de todos os timorenses os passos decisivos para a adoção plena da língua portuguesa, para assegurar a sua utilização nas escolas, universidades, nos serviços públicos, nos órgãos de comunicação social e pela população em geral", disse.

O deputado da Frente de Libertação do Timor-Leste Independente (Fretilin) salientou ainda que é fundamental concretizar "uma política nacional para o ensino língua portuguesa".

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