Premium Imagens de abuso sexual de crianças na internet batem recorde e chegam a 45 milhões

Apesar de esforços, empresas de tecnologia não conseguem impedir a circulação desse material

As imagens são horríveis. Crianças, algumas de apenas 3 ou 4 anos, sendo abusadas sexualmente e, em alguns casos, torturadas.

Fotos de abuso sexual infantil são produzidas e compartilhadas há muito tempo, mas nunca a esse ponto: as empresas de tecnologia registraram um recorde de 45 milhões de fotos e vídeos online de abusos no ano passado.

Mais de uma década atrás, quando o número relatado era inferior a 1 milhão, a proliferação de imagens explícitas já tinha atingido um ponto crítico. Empresas de tecnologia, agências policiais e legisladores em Washington reagiram, prometendo novas medidas para conter o flagelo. Leis de referência foram aprovadas em 2008.

No entanto, o volume de conteúdo detectado continuou crescendo exponencialmente.

Uma investigação do New York Times encontrou um submundo criminoso insaciável que explorou os esforços falhos e insuficientes para contê-lo.

policiais inspecionam laptops Policiais periciam computadores na casa de um suspeito em Seattle, nos

policiais inspecionam laptops Policiais periciam computadores na casa de um suspeito em Seattle, nos EUA

Um artigo publicado recentemente em conjunto com o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas disse que o sistema estava em "ponto de ruptura", relatando imagens abusivas que "excedem as capacidades de organizações independentes e de órgãos policiais tomarem medidas". Ele sugeriu que futuros avanços em machine learning (ou aprendizado de máquina) poderão ser a única maneira de deter os criminosos.

Em entrevistas, as vítimas nos Estados Unidos descreveram em detalhes de cortar o coração como suas vidas foram destruídas pelo abuso. Muitos sobreviventes e suas famílias disseram que sua visão da humanidade havia sido inextricavelmente alterada pelos crimes e pela demanda online por imagens deles.

"Eu realmente não sei como lidar com isso", disse uma mulher que, aos 11 anos, foi filmada sendo abusada sexualmente por seu pai. "Você apenas tenta se sentir bem e não deixar que algo assim defina toda a sua vida. Mas a divulgação das fotos é... é o que mantém a coisa viva."

retrato de sobrevivente de abuso sexual Alicia Kozakiewicz foi sequestrada por um homem que ela conheceu

retrato de sobrevivente de abuso sexual Alicia Kozakiewicz foi sequestrada por um homem que ela conheceu na internet quando tinha 13 anos; ela trabalha no Centro Internacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas

As reportagens do New York Times revelaram um problema de alcance global, mas firmemente enraizado nos Estados Unidos por causa do papel central que o Vale do Silício desempenhou ao facilitar a propagação das imagens e sua denúncia às autoridades.

Embora o material, comumente conhecido como pornografia infantil, seja anterior à era digital, as câmeras de smartphones, as redes sociais e o armazenamento em nuvem permitiram que as imagens se multiplicassem em ritmo alarmante.

Em uma tendência especialmente perturbadora, grupos online estão se dedicando a compartilhar imagens de crianças pequenas e formas mais radicais de abuso. Os grupos usam tecnologias criptografadas e a dark web (área não rastreável da internet), para ensinar aos pedófilos a praticar crimes e a registrar e compartilhar imagens de abusos em todo o mundo.

Após anos de monitoramento inadequado do material, várias grandes empresas de tecnologia intensificaram a vigilância de suas plataformas. Executivos de algumas empresas apontaram o monitoramento voluntário e o aumento das denúncias como indicação de seu compromisso em resolver o problema.

Porém, registros policiais e emails, além de entrevistas com policiais locais, estaduais e federais, mostram que algumas empresas de tecnologia ainda ficam aquém. Pode levar semanas ou meses para que elas respondam às perguntas das autoridades, quando respondem. Às vezes, alegam apenas que não têm registros, mesmo de denúncias que elas próprias iniciaram.

E quando as empresas de tecnologia cooperam totalmente a criptografia e o anonimato podem criar esconderijos digitais para os autores. O Facebook anunciou em março planos de criptografar o Messenger, que no ano passado foi responsável por quase 12 milhões dos 18,4 milhões de denúncias mundiais de material de abuso sexual infantil, segundo pessoas familiarizadas com as denúncias.

Os relatos às autoridades normalmente contêm mais de uma imagem e, no ano passado somaram 45 milhões de fotos e vídeos, de acordo com o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas.

A lei aprovada pelo Congresso em 2008 previa muitos dos problemas atuais, mas a reportagem descobriu que o governo federal não havia cumprido os principais pontos da legislação.

O Departamento de Justiça produziu apenas dois dos seis relatórios necessários para compilar dados sobre crimes na Internet contra crianças e definir metas para eliminá-los, e tem havido uma rotatividade constante de nomeados liderando as iniciativas do departamento.

O governo federal também não cumpriu as metas de financiamento da lei.

O Congresso aloca regularmente cerca de metade dos US$ 60 milhões em verbas anuais para os esforços estaduais e locais de policiamento. No entanto, o Departamento de Segurança Interna neste ano tirou quase US$ 6 milhões de suas unidades de crimes cibernéticos e os destinou para a imigração.

Prejudicando ainda mais a resposta federal, há deficiências no Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, que analisa os relatórios que recebe e depois os distribui a órgãos federais, estaduais e municipais, bem como a parceiros internacionais.

Essa instituição sem fins lucrativos confia grandemente na tecnologia criada 20 anos atrás, tem dificuldade para manter engenheiros experientes na equipe e, segundo ela, considera interromper a distribuição online de fotos e vídeos que ajudam no resgate de crianças.

ENCOBRINDO OS RASTROS

Os vídeos encontrados no computador de um homem e administrador de sites de Ohio chamado Jason Gmoser foram descritos pelos investigadores como as "imagens mais terríveis e violentas da pornografia infantil". Os vídeos estavam armazenados em um arquivo oculto no computador e também eram criptografados.

Cada vez mais, os criminosos estão usando tecnologias avançadas, como criptografia, para ficar à frente da polícia. Nesse caso, o homem de Ohio, que ajudava a administrar um site na dark web conhecido como Love Zone, tinha mais de 3 milhões de fotos e vídeos em seus computadores.

O site, agora fechado, tinha quase 30 mil membros e exigia que eles compartilhassem imagens de abuso para manter uma boa reputação, segundo documentos do processo judicial. Uma seção privada do fórum estava disponível apenas para membros que compartilhavam imagens de crianças abusadas por eles.

Várias investigações policiais desmantelaram enormes fóruns da dark web, incluindo um conhecido como Child's Play, que teria mais de 1 milhão de contas de usuários.

Os infratores podem encobrir seus rastros conectando-se a redes privadas virtuais, que mascaram sua localização; implantando técnicas de criptografia, que podem ocultar suas mensagens e tornar seus discos rígidos impenetráveis; e publicando na dark web, inacessível aos navegadores convencionais.

O anonimato oferecido pelos sites encoraja os membros a postar imagens de crianças muito pequenas sendo abusadas sexualmente e de formas cada vez mais extremas e violentas.

As provas no caso da Love Zone incluem capturas de tela mostrando que o fórum tinha áreas dedicadas em que os usuários discutiam maneiras de permanecer seguros durante a postagem e o download de imagens.

Depoimentos no processo criminal contra Gmoser revelaram que as autoridades precisariam de "trilhões de anos" para decifrar a senha de 41 caracteres que ele usara para criptografar o site. Ele acabou entregando-a e foi condenado à prisão perpétua em 2016.

'COISAS VERDADEIRAMENTE TERRÍVEIS'

O aumento da atividade criminosa na dark web representou apenas uma fração dos 18,4 milhões de denúncias de abuso no ano passado. Esse número se origina quase inteiramente de empresas de tecnologia com sede nos Estados Unidos.

As empresas sabem há anos que suas plataformas estavam sendo usadas por predadores, mas muitas delas basicamente olhavam para o outro lado. E embora muitas empresas tenham feito progressos recentes na identificação do material elas demoraram a responder.

A recente onda de empresas de tecnologia apresentando denúncias de abuso online "não existiria se tivessem feito seu trabalho antes", disse Hemanshu Nigam, ex-promotor federal em casos de crime cibernético e exploração infantil que hoje administra uma empresa de consultoria em segurança cibernética.

"As empresas sabiam que a casa estava cheia de baratas e tinham medo de acender as luzes", disse Hany Farid, que trabalhou com a Microsoft em 2009 desenvolvendo tecnologia para detectar material de abuso sexual infantil. "E então, quando elas acenderam as luzes, era pior do que esperavam."

policiais caminham em jardim em direção à porta de frente de uma casa Policiais realizam busca e apreensão

policiais caminham em jardim em direção à porta de frente de uma casa Policiais realizam busca e apreensão em casa de Salt Lake City, no estado de Utah

A lei federal exige que as empresas preservem material sobre relatos de imagens de abuso durante 90 dias. Mas, dado o grande número de denúncias, não é raro que as solicitações das autoridades cheguem tarde demais às empresas.

A maioria das empresas de tecnologia tem respondido rapidamente a perguntas urgentes, mas as respostas em outros casos variam significativamente.

Policiais em Missouri, Nova Jersey, Texas e Wisconsin apontaram o Tumblr, site de blogs e redes sociais com 470 milhões de usuários, como uma das empresas mais problemáticas, lamentando suas fracas respostas aos pedidos.

As autoridades policiais também apontaram problemas no mecanismo de busca Bing, da Microsoft, e na Snap, empresa controladora da rede social Snapchat. Dizia-se que o Bing apresentava regularmente relatórios que careciam de informações essenciais, dificultando as investigações. O Snapchat foi projetado para excluir a maior parte de seu conteúdo em um curto período de tempo.

O Facebook sabe há muito tempo sobre imagens abusivas em suas plataformas, incluindo um vídeo de um homem agredindo sexualmente uma criança de 6 anos que se tornou viral no ano passado no Messenger. Quando Mark Zuckerberg, executivo-chefe da empresa, anunciou em março que o Messenger adotaria a criptografia, ele reconheceu o risco representado por "coisas realmente terríveis, como a exploração infantil".

'MUITO INADEQUADO'

O financiamento anual para investigações estaduais e regionais autorizado é de US$ 60 milhões, mas apenas cerca da metade é aprovada e alocada regularmente. Ele aumentou apenas um pouco em relação aos últimos dez anos, considerando-se a inflação.

O senador democrata Richard Blumenthal, de Connecticut, um dos autores da lei que liberou os recursos, afirmou que não havia "nenhum explicação adequada ou lógica e nenhuma desculpa" para o fato de que não há mais dinheiro alocado. Mesmo se todos os US$ 60 milhões anuais fossem completamente gastos, a quantia ainda assim seria "amplamente insuficiente".

Mesmo os relatórios estratégicos bienais mais recentes publicados pelo Departamento de Justiça, em 2010 e 2016, não incluíram dados sobre algumas das preocupações mais prementes, como o comércio de imagens ilícitas.

Quando a lei aprovada pelo Congresso em 2008 foi autorizada novamente em 2012, o papel de coordenador deveria ser elevado a um cargo executivo sênior. Isso não aconteceu.

O Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas também lutou com as demandas para conter a propagação das imagens.

Conforme a exploração infantil crescia na internet, o centro não a acompanhou. A tecnologia usada para receber e revisar denúncias do material foi criada em 1998. Para realizar atualizações importantes e ajudar a modernizar o sistema, o grupo contou com doações de empresas de tecnologia como Palantir e Google.

O centro disse que pretende fazer melhorias significativas em sua tecnologia a partir de 2020, mas os problemas não param por aí. A polícia reclama que os relatos mais urgentes não são priorizados ou são enviados ao departamento errado. E, apesar das normas que o criaram, o centro não está sujeito às leis de registros públicos e opera com pouca transparência.

O Times descobriu que havia uma estreita relação entre o centro e o Vale do Silício que levantava questões sobre práticas de governança. O centro recebe dinheiro e doações em espécie de empresas de tecnologia, enquanto os funcionários das mesmas empresas às vezes são membros de seu conselho. Essa prática, disseram os que trabalham na área de proteção infantil, pode elevar os interesses das empresas de tecnologia acima dos das crianças.

O relacionamento próximo com empresas de tecnologia pode estar ameaçado. Em 2016, um tribunal federal sustentou que o centro nacional, embora privado, qualificava-se juridicamente como uma entidade governamental porque desempenhava várias funções essenciais do governo.

Se essa visão se reforçar, os desafios da Quarta Emenda sobre buscas e apreensões por parte do governo podem mudar a maneira como o centro opera. E nessas circunstâncias, se as empresas colaborassem muito estreitamente com o centro, também poderiam ser vistas como atores governamentais sujeitos a novos requisitos legais e desafios judiciais quando policiam seus próprios sites.

UM REFLEXO FEIO NO ESPELHO

Era uma tarde ensolarada de julho, e uma van da polícia sem identificação estava estacionada em frente a uma casa rosa em Salt Lake City.

Na parte de trás da van, estava sentado um morador da casa, enquanto os oficiais catalogavam discos rígidos e vasculhavam os históricos da web em seus computadores. O homem compartilhou vídeos sexualmente explícitos online, informou a polícia.

O ano mal havia passado da metade e a equipe da delegada Jessica Farnsworth, autoridade do escritório do procurador-geral de Utah que liderou uma batida na casa, já havia realizado cerca de 150 dessas operações em Utah. O grupo especialmente treinado, um dos 61 em todo o país, coordena o combate a crimes contra crianças na Internet.

O grupo de Utah espera prender quase o dobro de pessoas neste ano do que no ano passado, mas o financiamento federal não acompanhou o ritmo. O financiamento para as 61 forças-tarefa de 2010 a 2018 permaneceu relativamente estável, mostram dados federais, enquanto o número de pistas enviadas a eles aumentou mais de 400%.

Grande parte da verba federal se destina ao treinamento de novos funcionários, porque os casos abalam profundamente os investigadores, resultando em constante rotatividade.

O volume de trabalho também obrigou as forças-tarefas a fazer escolhas difíceis. Algumas se concentraram nas vítimas mais jovens e mais vulneráveis, enquanto outras reduziram as operações secretas.

A Internet é conhecida como um refúgio para discursos de ódio, conteúdo relacionado a terrorismo e atividades criminosas, os quais despertaram alarmes e estimularam debates e ações públicas. Mas o problema do abuso sexual infantil recebe pouca atenção porque poucas pessoas querem enfrentar a enormidade e o horror do conteúdo.

Alguns legisladores estaduais, juízes e congressistas se recusaram a discutir o problema em detalhes, ou evitaram participar de reuniões e audiências, de acordo com entrevistas com policiais e vítimas.

Steven Grocki, que lidera um grupo de especialistas em políticas e advogados na seção de exploração infantil do Departamento de Justiça, disse que a relutância é um problema social. "Eles se afastam porque é um reflexo muito feio no espelho", disse ele.

Embora as imagens sejam frequentemente definidas como "pornografia infantil", os especialistas preferem termos como imagens de abuso sexual infantil ou material de exploração infantil para enfatizar a gravidade dos crimes e evitar confundi-los com a pornografia adulta.

"Toda e qualquer imagem é a representação de um crime em andamento", disse o sargento Jeff Swanson, comandante da força-tarefa no Kansas. "A violência infligida a essas crianças é inimaginável."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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