"Há quem ache que já está em curso uma pequena revolução cultural"

"Há quem ache que já está em curso uma pequena revolução cultural"

Voltou a Macau depois de um ano e meio de se reformar. Apesar de viver nos Estados Unidos da América, Hao Zhidong não perde de vista Macau, onde deu aulas mais de uma década. O sociólogo, especialista em assuntos políticos, alerta que a liberdade académica está cada vez mais ameaçada em todo o mundo, mas há sítios piores que outros. A China, diz, está no topo como mostra a investigação em que está envolvido e que deverá ser publicada no próximo ano.

- Reformou-se há cerca de dois anos. Chegou o momento ou estava descontente na Universidade de Macau (UM)?

Hao Zhidong- A idade da reforma é aos 65 anos, portanto é a altura normal.

- Há dois anos, numa entrevista, dizia que a liberdade académica tinha diminuído na UM. Sentiu isso?

H.Z. - Na verdade estou a trabalhar num estudo sobre liberdade académica que compara a situação da China Continental, Macau, Hong Kong, Taiwan, Austrália, Estados Unidos da América (EUA), Coreia do Sul e Japão. Temos um relatório dedicado a cada região. É um problema em todo o mundo.

- Em todo o mundo?

H.Z. - As faculdades estão gradualmente a perder poder com a ascensão de líderes autocráticos. Mesmo nos EUA, onde há uma grande tradição de liberdade académica, os académicos sentem que estão a perder poder para a administração das universidades, que cada vez mais tomam decisões sem consultar os membros das faculdades. Os EUA têm uma longa tradição de liberdade académica, mas outros sítios, como o Continente, têm uma tradição muito fraca. A academia em Macau é muito recente e nem há muita noção do que isso significa. Hong Kong já é melhor por causa do movimento democrático. Taiwan também. Na verdade, todo o mundo se sente ameaçado pelo aumento do autoritarismo da China porque o Governo central está a tentar influenciar o resto do mundo. Quando falamos da liberdade académica de Macau, temos de nos lembrar que Macau pertence à China, apesar de existir o princípio Um País, Dois Sistemas. Em Hong Kong, cada vez mais se diz que não há Um País, Dois Sistemas, mas sim Um País, e Um Sistema e Meio.

- A que conclusões chegou com o estudo?

H.Z. - A liberdade académica é um problema no mundo inteiro. Um dos fatores que contribui para a sua erosão é a comercialização do ensino superior. A preocupação passou a ser o dinheiro. Os EUA, por exemplo - onde há mais de 300 mil estudantes chineses nas universidades, a Austrália - onde são ainda mais e o ensino superior é a segunda maior fonte de receita - são países que se preocupam bastante com a possibilidade de perder os alunos da China e se o Governo central os proíbe de irem para lá. No mundo, há cerca de 600 Institutos Confúcio, todos financiados por Pequim. Isto significa que o Governo central controla o currículo, o que se pode fazer, quem pode entrar, o que implica a perda da liberdade académica. Outro dos problemas é a corporização das universidades, que começam a ser geridas como empresas, como um negócio. A parte académica começa a ter cada vez menos poder sobre quem vai ensinar o quê, ao contrário da administração, que tem cada vez mais. Temos um problema em todo o mundo, mas há sítios mais preocupantes que outros e a China é sem dúvida o mais sério.

- Como foi a experiência nos anos que deu aulas na UM?

H.Z. - Vim para Macau em 2003. Apenas quatro anos depois da transição. Tudo era novo, ainda se acreditava no princípio Um País, Dois Sistemas e que poderia funcionar. As pessoas estavam entusiasmadas com o regresso à China, com o facto de poderem finalmente gerir a cidade onde viviam. Academicamente, a Universidade de Macau ainda se estava a por de pé e a recrutar em todo o mundo. Não havia muito controlo político nessa altura. Por exemplo, pude convidar pessoas de Taiwan sem qualquer problema. Convidei pessoas de diferentes correntes políticas - algumas bastante pró-independência, outras mais pró-unificação. Convidei pessoas que hoje não entrariam em Macau. Lembro-me de um professor que ficou bastante impressionado por não haver obstáculos à sua vinda. Mais tarde, em 2016 ou 2017, quando foi convidado para vir dar um workshop, financiado pelo Governo de Hong Kong, foi impedido de sair do aeroporto. Comentou que desconhecia que a situação estava tão tensa.

- Macau é mais apática politicamente face a Hong Kong. Porque acha que isso acontece?

H.Z. - Há muitos fatores, um deles é estrutural e tem que ver com o tamanho de Macau. É muito pequena e as pessoas conhecem-se. Não querem antagonizar-se e dizer mal umas das outras. Quando se vive numa cidade bem maior como Hong Kong, há muita mais gente. Consegue sempre encontrar-se alguém que pense de forma similar. Em Macau, é difícil conseguir-se isso de forma a que se levante uma "corrente". A questão da democratização, por exemplo. Podem contar-se pelos dedos de uma mão as pessoas que apoiam a causa. Em Hong Kong, são centenas de milhares.

- Começam a agudizar-se os problemas que afetam diretamente a vida da população: a cidade sobrelotada, a questão da habitação, os problemas na Saúde. Mas nem assim há mais mobilização.

H.Z. - É uma questão cultural.

- Mas em Hong Kong a cultura é a mesma.

H.Z. - A cultura é diferente ainda que sejam ambas chinesas. Em Macau, as pessoas são mais passivas também e em parte pela forma como os portugueses governaram, por não terem sido tão agressivos como os ingleses. Essa faceta dos portugueses combina com a cultura chinesa. A vida "ok la". Mas a questão cultural também tem que ver com o facto de Macau estar muito perto do Continente, ter falta de recursos. No passado, sempre que havia um conflito entre os portugueses e o Continente, a China ameaçava cortar com recursos e os portugueses acabavam por ceder. E isto tornou-se cultural.

- O Movimento dos Guarda-Chuvas, em Hong Kong, e a liderança de Xi Jinping fez com que a participação e interesse políticos fossem ainda menores?

H.Z. - Claro. Macau sempre teve uma relação cordial com o Governo central, da qual sempre se orgulhou. Apesar disso, sempre olhou para Hong Kong como um exemplo. Se o Governo central tivesse decidido que Hong Kong podia ter sufrágio universal na eleição do Chefe do Executivo, Macau provavelmente teria seguido o mesmo caminho. Mas como não houve acordo entre Pequim e Hong Kong em 2014 e o Movimento dos Guarda Chuvas falhou, o Governo central aumentou o controlo em Hong Kong, e isso foi prejudicial na democratização de Macau.

- Foi uma decisão errada não ter aceitado a proposta de Pequim?

H.Z. - Foi uma má estratégia e esta é a diferença entre um movimento social e os políticos. Os políticos tinham aceitado: não me dão os 100 por cento que quero, aceito os 80 que me querem dar. Recordo-me de um artigo que li na altura que defendia que o movimento devia aceitar a oferta de Pequim porque já era bem melhor do que o que tinham. A dado momento, o movimento perdeu controlo.

- Acha que a recente decisão do tribunal de Hong Kong de condenar mais nove organizadores do movimento foi política?

H.Z. - Quando Sulu Sou anunciou a candidatura, houve uma pessoa do Governo central que me perguntou qual era a possibilidade de ser eleito. Mostraram-se preocupados. Respondi que não percebia porque estavam preocupados, porque, mesmo que fosse eleito, o grupo pró-democracia seria só três ou quatros pessoas. Não havia motivos para se estar preocupado. Mesmo que fosse eleito, continuaria a ser uma minoria na assembleia. Sobre se a decisão judicial é política, nunca se pode ter a certeza. Não sabemos o que acontece nos bastidores.

- Como olha para a liderança de Xi Jinping?

H.Z. - Claro que é um líder autoritário.

- Há potencial de se tornar um líder eterno?

H.Z. - Não se ouvem vozes discordantes. Assumo que existem. Mas não as conhecemos. A discordância não é incentivada. Se há críticas ao Governo, há problemas. Isso não é bom. É perigoso.

- Receia um cenário próximo do da Revolução Cultural?

H.Z. - As pessoas começam a temer que isso aconteça. Na verdade, muitas pessoas defendem que já está em curso uma pequena revolução cultural. Muita coisa se assemelha muito ao que aconteceu no passado, na Revolução Cultural. Em algumas regiões com minorias étnicas, por exemplo, tem de se denunciar às autoridades quem não age de acordo com o que o partido defende, e quem não o fizer é provável que tenha problemas com as autoridades. Isto foi o que aconteceu na Revolução Cultural. Espero que não se repita e espalhe a outras partes da China.

- Uma vez que fala da influência do Continente, como vê o projeto da Grande Baía?

H.Z. - Honestamente, não vejo grande diferença de outros projetos anteriores. Já havia o projeto da Região do Pan-Delta do Rio das Pérolas ("9+2"). Qual é a diferença? Vão investir mais dinheiro? Já construíram infraestruturas, como a ponte. Já há coordenação entre as instituições de ensino superior...

- Além deste, outro grande slogan da cidade é fazer de Macau um polo de comunicação entre a China e os países de língua portuguesa.

H.Z. - Mas para que precisam de Macau, se o podem fazer sozinhos?

- Então porque insistem os Governos local e central na atribuição desse papel a Macau?

H.Z. - Porque não podem promover Macau com o jogo, que é pelo que é conhecido. Acho difícil que Macau se torne nesse intermediário porque só pode fazer o que o Governo central permitir e não vejo muita coisa que que a China não possa fazer sozinha.

- É um crítico da limitação da liberdade. Mas vive num país liderado por Trump, que não é propriamente a imagem dos valores democráticos. Como olha para a sua eleição?

H.Z. - Também é um autocrata. Não está preocupado com as pessoas, com a justiça. So está preocupado com poder. Alguns chineses depositaram confiança em Trump, pensam que pode ajudar a mudar o país. Trump não é de confiança, não quer saber da democracia na China. Não é um idealista, nem sei se acredita na democracia. Admira líderes autoritários. Admira Putin, é amigo de Xi Jinping, admira Kim Jong Un.

- Diz que é um bom amigo de Xi Jinping, mas os países estão em plena guerra comercial.

H.Z. - Isso vai acabar rápido. A China vai provavelmente comprometer-se um pouco mais sem ferir o poder do partido. A China é tão grande que é possível ceder sem perder muito.

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