É tudo uma questão de educação

Marina Lobo, realizadora da curta-metragem animada "Aquametragem", premiada pela ONU, reforça que a educação é uma das chaves para reverter a situação ambiental que se vive no planeta. Em conversa com o PLATAFORMA, a autora afirma que tenta sempre ligar os projetos de animação a questões ambientais e sublinha que tem de se dar ferramentas às pessoas "para poderem utilizá-las, ajudarem e sentirem que estão a fazer algo positivo para todos".

- Tendo em conta que é engenheira do ambiente, como surgiu a ligação com o cinema?

Marina Lobo - Fiz a licenciatura em Engenharia do Ambiente, no Ramo de Sanitária, mais ligado à água, mas assim que acabei, já tinha muito gosto pela animação e fui estudar animação para Barcelona. Ou seja, fui exercendo pouco Engenharia do Ambiente enquanto estudava animação. A partir de 2003, comecei a trabalhar em animação e acabei por não exercer mais engenharia. Mudei de área profissional, mas sempre estive ligada às questões ambientais. Ultimamente tenho tentado conciliar a vertente ambiental com a vertente de animação e fazer projetos que consigam relacionar estes dois temas.

- De que forma pensa que o cinema pode sensibilizar as pessoas para este tipo de questão?

M.L. - Penso que é uma ferramenta muito poderosa que normalmente não é utilizada neste sentido, mas tem força e todos gostam de entretenimento. Se aproveitarmos o cinema para contar histórias com uma mensagem de cariz ambiental, pode ajudar a ter mais impacto a nível da educação ambiental. A animação é uma ferramenta poderosa para passar uma mensagem, não só aos adultos como às crianças. Há um poder grande que deve ser aproveitado.

- Tomou esta iniciativa porque se sente fraudada com a ação política e sente que é a sociedade civil que tem de tomar uma atitude?

M.L. - O povo tem um poder grande e tem uma grande voz. Se estivermos todos adormecidos, o poder político vai acabar por fazer aquilo que é mais conveniente a nível monetário... Isto é um campo pantanoso, mas penso que, enquanto cidadãos, temos mais responsabilidade e não podemos ficar à espera que outros resolvam as coisas por nós. Cada um é uma pequena gota, mas todos juntos somos um oceano.

- Porque decidiu participar no Festival de Filmes ODSs em Ação, da ONU?

M.L. - Este festival concilia as duas coisas. É um festival de cinema sobre a divulgação dos objetivos do desenvolvimento sustentável, que são 17, entre eles o de conservação da água. Enviei a curta para vários festivais, alguns mais relacionados com a natureza, outros só com o cinema. Contudo, este em particular tinha as duas componentes: ser um festival de cinema e o tema da água. Enviei e foi premiada.

- Ter participado no festival e ser premiada abriu-lhe portas para novos projetos?

M.L. - Fui abordada por várias entidades, nomeadamente ligadas ao setor ambiental, que me deram os parabéns. Não houve qualquer convite ou proposta, mas espero que possa surgir. Trabalho na área da animação e faço coisas relacionadas com outras áreas. Mas o objetivo é fazer projetos relacionados com o ambiente, usando esta ferramenta de forma útil para passar a mensagem.

- Porquê a água entre os 17 objetivos da ONU?

M.L. - A curta não foi feita para este festival em específico. Foi produzida pela Lisboa E-nova que é a agência de Ambiente e Energia de Lisboa. Desde o princípio queríamos uma curta para sensibilizar as pessoas para o uso eficiente da água. Só mais tarde enviámos o filme para diversos festivais que têm ligação com o tema da água, entre eles, este.

- Na curta-metragem dá soluções para reutilizar a água e o não desperdício. Esta preocupação já é conhecida, não se devia estar noutro patamar?

M.L. - Concordo. Todas as medidas que mostramos no filme são básicas e já devíamos estar mais à frente. O que acontece é que os utilizadores comuns não tomam essas medidas básicas, mas têm mesmo de o começar a fazer. A mensagem daquilo que se deve fazer é bastante simples, mas a maior parte de nós não o faz. Muitos ainda se comportam como retratado na primeira parte do filme, desperdiçando água sem se aperceberem do erro.

- Essa mensagem será suficiente?

M. L. - Penso que é algo positivo e não é assim tão complicado. E se cada um fizer a sua parte vamos conseguir preservar a água. Outra mensagem prende-se com a ligação ao desperdício da comida que habitualmente não fazemos: quando estamos a desperdiçar comida, também estamos a desperdiçar água. Foi gasta muita água para produzir aquele bem. Não é só o desperdício óbvio, é o desperdício da "água virtual", que não está ali, mas que foi usada.

- O filme tem mensagens muito simples, concorda?

M. L. - Sim, o filme está num nível muito básico para as pessoas perceberem que têm de mudar muitas atitudes no dia-a-dia. Temos de começar por aí antes de darmos passos maiores. A questão da reciclagem é importante. Por exemplo, utilizar as águas do esgoto para lavar as ruas. Se as ruas forem lavadas com água que não é "limpa", água que vem do tratamento de águas residuais, isso pode ser visto ainda com algum preconceito. Esta mentalidade tem de mudar: é água residual, mas está tratada. Não serve para beber, mas pode ser usada para outros fins. Esta questão não é só para o comum dos utilizadores, é também para as entidades públicas e privadas.

- Como engenheira do ambiente, quais são as medidas que considera mais urgentes para travar esta situação ambiental?

M.L. - Temos de ganhar consciência das consequências das ações que são más para o ambiente. Por exemplo, se tiver de ir à mercearia, que fica a 30 metros, em vez de ir de carro, devo ir a pé. É muito importante que as políticas mudem. Mas enquanto não mudam, têm de ser as pessoas a fazê-lo. As ações, por mais pequenas que sejam, têm impacto. Todos, políticos e cidadãos, temos de tornar esse impacto positivo.

- Portanto as pessoas têm de ter noção do problema base...

M.L. - Exato. Há muita falta de informação. As pessoas ouvem falar em alterações climáticas, mas algumas nem sequer sabem o que são. Tem de haver mais informação. Segundo os estudos científicos que estão a começar a aparecer, não há muito tempo para tentar reverter a situação. E já se observa com a qualidade do ar, que é diferente, e com as temperaturas. Se nos tentarmos informar sobre o que se está a passar e o que pode e tem de ser feito, é mais fácil. Não está só nas mãos das pessoas, está muito nas mãos dos governos. Os governos têm de aplicar medidas mais firmes às empresas que poluem mais. Não são os cidadãos que têm de pagar pela poluição que os poluidores fazem. Mas como cidadãos também temos muita responsabilidade, especialmente nas escolhas que fazemos. Devemos escolher produtos mais sustentáveis. É necessário informar os cidadãos, e estes tentarem informar-se. A educação é uma das chaves para alterarmos a situação.

- Por falar em educação. Pensa que a melhor maneira de educar as pessoas é avisá-las ou tentar dar-lhes as alternativas ao estilo de vida?

M.L. - Têm de se dar alternativas. Caso contrário, as pessoas, simplesmente assustam-se e querem fugir daquele problema. A ideia é que os cidadãos se interessem pelo problema e não fujam dele. Para se interessarem, tem de se mostrar como é que podem ter um papel importante. Dar ferramentas para as poderem utilizar e sentirem que estão a fazer algo positivo. Não basta avisar, passar uma mensagem negativa e não dar alternativas. Esse não é o caminho.

Veja a curta AQUI.

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