Desenhar cidades resistentes às mudanças climáticas

Desenhar cidades resistentes às mudanças climáticas

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Sete meses após o ciclone Idai ter devastado Moçambique, o CIALP vai lançar um concurso para tornar as infraestruturas do país mais resistentes às mudanças climáticas. Arquitetos lusófonos avisam que não são só em África que as cidades precisam de se preparar.

Quase 650 mortos, 164 mil deslocados e 2,2 milhões de pessoas a depender de ajuda humanitária. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, na sigla inglesa), foi este o impacto de dois ciclones tropicais que atingiram o centro e leste de Moçambique no espaço de pouco mais de um mês.

O rasto de destruição deixado pelo Idai e depois pelo Kenneth foi lembrado durante o VII Fórum Internacional de Arquitetura do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP), que decorreu em Macau no sábado, sob o lema "Cidades Melhores: o contributo das infraestruturas".

"Esperamos poder anunciar em breve um concurso da CIALP para Moçambique", revela Rui Leão. "Será um concurso de ideias, bastante aberto, sobre como tornar o país mais resistente ao clima extremo", explica ao PLATAFORMA o presidente do CIALP.

Para Fernando Pereira Teixeira "há um grande campo para possíveis projetos do CIALP "em muitos dos países africanos de língua portuguesa. O presidente da Ordem dos Arquitetos da Guiné-Bissau defende mesmo o que chama de "direito ao arquiteto", semelhante ao direito a um advogado. "As populações dos nossos países não são contra ter um arquiteto, nem contra recensear a casa, não têm é dinheiro para o fazer", lamenta. Segundo a consultora norte-americana McKinsey, em 2025 haverá 100 cidades africanas com mais de um milhão de habitantes. Mas, avisa o angolano Victor Leonel, "não faz sentido falar de crescimento urbano em África, mas sim de alargamento das cidades". "Não há planeamento, não se colocam serviços para servir as populações", explica o presidente da União Africana de Arquitetos. De acordo com estimativas do Fórum Económico Mundial, 60 por cento da população das cidades africanas vive em bairros de lata sobrelotados e com falta de serviços básicos como abastecimento de água e saneamento, sendo que pelo menos 25 por cento tem de ir a pé para o trabalho por falta de transporte.

Quebrar o ciclo

Para muitos países africanos, cheias como as vividas em Moçambique causam inevitavelmente tragédias devido à debilidade das infraestruturas essenciais, lamenta Jaime Comiche. "Estamos a falar de poços, furos e sistemas de armazenamento de águas fluviais", sublinha o antigo presidente da Associação de Arquitetos de Moçambique.

À destruição causada pelo Idai, a meio de março, seguiram-se surtos de cólera devido às fracas condições sanitárias e falta de água potável. A situação só melhorou após a UNICEF e a Organização Mundial de Saúde terem lançado uma campanha de emergência com 900 mil doses de vacinas.

"Este esforço financeiro e humanitário provavelmente teria sido evitado se tivéssemos as infraestruturas", sublinha Jaime Comiche.

Entre 2009 e 2015, os Governos africanos investiram em média apenas dois por cento do Produto Interno Bruto em infraestruturas, longe dos 8,8 por cento registados na China, segundo dados do Banco Mundial.

"Além do investimento corrente ser baixo, nada está a ser feito em termos de infraestruturas resilientes", acrescenta Jaime Comiche. Mesmo o pouco que é construído "acaba por ser devastado por eventos climáticos extremos e tem de ser reconstruído; é um ciclo que não para", sublinha o arquiteto. E a situação só irá piorar, uma vez que, com as mudanças climáticas, "a frequência de desastres naturais tende a aumentar, mas o investimento em infraestruturas não tem acompanhado", diz Comiche.

Ainda assim, o dirigente acredita que é possível quebrar o ciclo. Moçambique deve "incluir resiliência nas considerações de planeamento urbano, tanto no investimento como manutenção, porque recuperar infraestruturas danificadas sai mais caro do que investir de forma contínua , avisa o arquiteto.

Uma lição que também Macau deve aprender, diz Dominic Choi, porque a cidade tem zonas baixas onde as inundações são crónicas e é regularmente atingida por tempestades tropicais. Em 2017 o tufão Hato causou dez mortos, 240 feridos e prejuízos avaliados em 12,55 mil milhões de patacas. "Só quando morreram pessoas é que o Governo entrou em ação", lamenta o presidente da Architecture Sans Frontières (ASF) - Macau.

Macau é uma cidade "de luxo onde todos nós construímos edifícios marcados pelo excessivo", admite. "Muitas vezes aqui a preocupação é apenas em tornar as construções mais marcantes, não mais resistentes ou seguras", critica Dominic Choi.

"Os arquitetos devem começar a pensar na sustentabilidade" e o planeamento urbano tem de ser feito "muito mais a pensar a longo prazo", avisa o líder da ASF em Macau.

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