As vidas reconstruídas em Moçambique

Praia Nova na Beira, Moçambique

Praia Nova na Beira, Moçambique

Muitos dos moçambicanos desalojados pelo ciclone Idai recusam voltar para as terras onde viviam porque agora temem novas inundações no futuro

Paulina Jacinau, 28 anos, viúva e mãe de três filhos, passou a acolher mais três, que ficaram órfãos após o desabamento de sua casa, com a passagem do ciclone idai num subúrbio de Nhamatanda, Sofala, centro de Moçambique.

A mãe destas crianças é uma das vítimas mortais do ciclone idai, que atingiu Moçambique a 14 de março e cujos rastos, além do luto, continuam a semear incertezas ao futuro de milhares de famílias, depois da água levar tudo.

"Depois de tudo cessar, voltei para casa, tudo está limpo e apenas restou o quintal" disse à Lusa, Paulina Jacinau, adiantando que a vida ficou mais difícil, sem teto e recursos e com o aumento do agregado familiar.

Hoje vive num centro de abrigo, na vila de Nhamatanda, depois de ter sido passado os primeiros dias após o desastre numa sala de aula. Desde o ciclone, tem também a cargo a sua mãe, ferida blocos no desabamento da casa onde viviam.

"Já não tenho ideias de como recuperar a casa", explicou Paulina Jacinau, visivelmente desiludida com a situação. Não tem sequer "uma ponta por segurar para recomeçar a vida", depois de quase perder tudo, utensílios domésticos, roupas e o débil negócio de venda de produtos hortícolas.

A David Luís só lhe resta na memoria a imagem dos cabritos, galinhas e alguns porcos de sua criação, que foram arrastados pela água quando tentava salvar os 12 membros da sua família, incluindo um filho de cinco meses e uma segunda mulher grávida.

"Voltei depois para a minha casa, a situação está muito mal, já não tenho ideia por onde recomeçar, não tem nada" disse à Lusa, David Luís.

No dia do temporal, foi arrastado por 700 metros pela água até chegar à estrada, um ponto mais alto onde pernoitou dois dias, e de onde socorrei alguns familiares.

Com as poucas árvores, também arrastadas, duma floresta já devastada, onde tirava estacas e troncos para produção de carvão vegetal, David Luís, não consegue acertar nas contas para "reconstruir a vida" que perdeu.

"Só posso esperar por algum apoio do governo ou de outra entidade para ter uma casa e dar um lar à minha família", disse David Luís, entre suspiros de desalento.

De uma coisa tem certeza, não quer voltar a casa, na zona de Lamego, por ser uma planície propensa a inundações.

Hoje, com os restantes 12 familiares, David Luís, partilha a tenta tenda com outras sete pessoas, de uma outra família.

Na tentativa de reconstruir a vida, Belita António, que vive no centro de acolhimento de Nhamatanda, gere os três sobrinhos que tem a cargo.

"Por falta de material escolar para as três crianças continuarem a estudar, elas são obrigadas a partilhar um único caderno", explicou.

Relacionadas

Exclusivos