Moro é "bom juiz", mas é preciso mais para ser ministro

Fernando Henrique Cardoso

Fernando Henrique Cardoso

  |  ANTÓNIO COTRIM/LUSA

O antigo Presidente da República do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, afirmou que Sérgio Moro, atual ministro da Justiça brasileiro, é "um bom juiz", mas precisa de mais para ser um bom governante.

"Eu conheço pouco Moro, vi-o algumas vezes, mas ele é juiz, eu acho que correto, procura ser, agora ministro é outra coisa. É preciso uma vivência política", afirmou Fernando Henrique Cardoso em entrevista à Lusa em Lisboa, onde se deslocou esta semana para participar numa conferência sobre droga.

Sérgio Moro "tem um sentido histórico importante. Pela primeira vez, gente rica e poderosa no Brasil foi para a cadeia, em grande número. E não foi só ele [o responsável por isso], mas a Justiça. E ele simboliza isso".

Por isso, "mexer com Moro, mexe ao mesmo tempo nessas questões", alertou.

Considerando que Sérgio Moro tem popularidade, além de respeito como juiz, Fernando Henrique Cardoso salientou porém que essa fama "não quer dizer respeito".

"Ele era um homem muito respeitado nas suas decisões como juiz, e o que é que estão tentando agora? Quebrar o respeito a ele. Dizendo olha ele fez isto, porque queria aquilo", afirmou.

O que está acontecendo é "uma tentativa de diminuir a respeitabilidade do Moro", frisou.

Para Fernando Henrique Cardoso, o pacote anticrime que o ministro da Justiça apresentou até tem "algumas medidas que são importantes e devem ser aprovadas", como as que visam equipar melhor os sistemas de informação, porque, no Brasil, "há uma deficiência grande na repressão ao crime organizado por falta de conhecimento, de entender melhor como funciona" o crime organizado.

Porém, diz Henrique Cardoso, faltam-lhe algumas medidas mais dirigidas ao combate à violência.

"O ministro tem a experiência de juiz e de combate à corrupção. É importante, mas não é tudo. A violência no dia a dia no Brasil é muito grande. São precisas medidas mais diretas, que afetem a violência", disse o ex-Presidente.

Jair Bolsonaro, em parte, elegeu-se em função da sua posição face ao crime organizado, salientou.

Mas "Moro não tem familiaridade com a vida política. Então uma coisa é você mandar para o Congresso um pacote de medidas outra coisa é fazer aprovar. E aí exige uma capacidade maior de negociação", salientou.

Henrique Cardoso lembra que antes de ser ministro da finanças foi senador e líder partidário, o que o ajudou nos confrontos parlamentares.

Fernando Henrique Cardoso foi citado em mensagens de Moro, divulgadas pelo jornal Intercept, mas o ex-Presidente minimizou o assunto.

"No meu caso não existe uma acusação efetiva de desvio de conduta. E nunca houve nenhum processo em função disso. Mandaram lá não sei para que instância e eu nem tomei conhecimento. Eu tenho a seguinte posição: Durmo à noite. E isso é o mais importante para quem foi presidente, ministro, senador", respondeu.

O Intecept revelou na semana passada que o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sergio Moro, terá procurado descredibilizar as investigações sobre o ex-Presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso por não querer "melindrar alguém cujo apoio é importante".

Sobre a possibilidade desta divulgação de mensagens poder levantar suspeitas sobre si, Fernando Henrique Cardoso respondeu: "suspeitas têm de ter alguma base. No meu caso não tem."

"Alguém, em algum momento, terá dito que era preciso investigar se eu teria feito alguma coisa, e o Moro terá dito, olha, cuidado", foi isto que aconteceu, na sua opinião.

Quanto às mensagens, Henrique Cardoso diz que não viu qualquer ato errado de Moro, minimizando: "O político é responsável não pelo que faz mas pela consequência dos seus atos".

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