Líder do PAIGC guineense diz que retirada de poderes ao PR é "exercício legítimo" da Assembleia

Domingos Simões Pereira

Domingos Simões Pereira

O líder do partido do PAIGC, com maioria na Assembleia Nacional da Guiné-Bissau, considerou nesta sexta-feira que a resolução aprovada na quinta-feira de retirar poderes ao Presidente da República foi um "exercício legítimo" para ultrapassar o "bloqueio" criado pelo chefe de Estado.

O líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), Domingos Simões Pereira, disse hoje, em entrevista à agência Lusa, que a resolução foi adotada depois de um debate iniciado para dar possibilidade às instituições democráticas e órgãos de soberania de agir perante o "bloqueio" criado pelo Presidente, ao não aceitar o elenco do Governo do primeiro-ministro, Aristides Gomes.

"Esse exercício da Assembleia é legítimo, porque a Assembleia acaba de ser constituída, resultante de uma eleição livre, justa e transparente", defendeu o presidente do PAIGC, que, no dia da resolução, na quinta-feira, se encontrava em viagem para os Estados Unidos, onde está a visitar as Nações Unidas e tem encontros com os representantes de vários parceiros internacionais da Guiné-Bissau.

Domingos Simões Pereira comentou à Lusa que o Presidente da República, José Mário Vaz, "criou o bloqueio e alguém tem de encontrar solução para esse bloqueio".

Apesar de tudo, "o povo e as instâncias políticas tiveram o bom senso necessário para permitir ao Presidente da República -- apesar de tudo -- cumprir os seus cinco anos de mandato".

"Isto é demonstração de uma maturidade bastante grande", destacou Domingos Simões Pereira.

"Gota de sensibilidade"

"É chegado o momento de o Presidente mostrar alguma gota de sensibilidade em relação ao sofrimento que o povo tem tido. (...) Chega, vamos devolver a palavra ao povo, vamos deixar que o povo decida", apelou Domingos Simões Pereira.

O Presidente guineense demitiu Domingos Simões Pereira do cargo de primeiro-ministro em 2015, o que desencadeou uma crise política que obrigou à mediação internacional que culminou com os acordos de Bissau e Conacri, e recusou indigitá-lo como chefe de um novo Governo, apesar de ter sido o nome indicado pelo partido vencedor das legislativas de 10 de março último.

Voto no Parlamento contra Vaz

A maioria dos deputados da Assembleia Nacional Popular (parlamento da Guiné-Bissau) aprovou na quinta-feira uma resolução que determina a cessação imediata das funções constitucionais do Presidente da República e a sua substituição no cargo pelo presidente do parlamento.

A crise política continua na Guiné-Bissau depois de José Mário Vaz, que terminou o seu mandato de cinco anos no passado domingo, ter recusado, por duas vezes, nomear para o cargo de primeiro-ministro Domingos Simões Pereira.

O vencedor das eleições acabou por indicar Aristides Gomes, nome aceite pelo chefe de Estado que, no entanto, não nomeou o Governo indicado pelo novo primeiro-ministro até ao dia 23 de junho, violando, assim, o prazo estipulado pela Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) para o fazer.

José Mário Vaz marcou, na semana passada, eleições presidenciais para 24 de novembro.

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